quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O que diz Maquiavel

Nestes tempos de "trovoada institucional", recorri de novo ao livro O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, para esclarecimento sobre a natureza humana, designadamente de governantes e governados e das relações entre uns e outros, e encontrei algo interessante no capítulo XVIII, com o título:
Como os príncipes devem honrar a sua palavra
(Quomodo fides a principibus sit servanda)
«Todos concordam que é muito louvável um príncipe respeitar a sua palavra e viver com integridade, sem astúcias nem embustes. Contudo, a experiência do nosso tempo mostra-nos que se tornaram grandes príncipes os que não ligaram muita importância à fé dada e que souberam cativar, pela manha, o espírito dos homens e, no fim, ultrapassar aqueles que se basearam na lealdade.
Convém saber que existem duas maneiras de combater: pelas leis e pela força. A primeira é própria dos homens; a segunda é própria dos animais. Mas como, muitas vezes, aquela não chega, há que recorrer a esta, e, por isso, o príncipe precisa de saber ser animal e homem. Esta regra foi ensinada aos príncipes, em palavras veladas, pelos antigos autores que escreveram como Aquiles, e vários outros grandes senhores do tempo passado foram confiados ao centauro Quíron, para os educar sob a sua disciplina. Ter, assim, por preceptor um ser meio animal, meio homem, só significa que um príncipe precisa de saber utilizar uma e outra natureza e que uma sem a outra não é durável. Já que um príncipe deve saber utilizar bem a natureza animal, convém que escolha a raposa e o leão: como o leão não se sabe defender das armadilhas e a raposa não se sabe defender dos lobos, é necessário ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para meter medo aos lobos. Os que querem fazer apenas de leão não percebem nada do assunto. Por conseguinte, o senhor sensato não pode respeitar a fé dada se essa observância o prejudica e se as causas que o levaram a fazer promessas deixaram de existir. Se os homens fossem todos gente de bem, o meu preceito seria nulo, mas, como são maus e não respeitariam a palavra que te dessem, se não lhes conviesse, também não és obrigado a respeitar a que lhes deres. Nunca faltaram a um príncipe pretextos legítimos para justificar a sua falta de palavra, e seriam infinitos os exemplos, do tempo presente, demonstrativos de quantas pazes, quantas promessas, foram feitas em vão e reduzidas a nada pela infidelidade dos príncipes, e demonstrativos também de que as coisas correram melhor aos que melhor souberam representar o papel de raposa. Mas é indispensável saber ocultar este pendor, disfarçá-lo bem. Os homens são tão simples e tão obedientes às necessidades do momento, que quem engana encontra sempre quem se deixe enganar.
Há um exemplo, entre os novos, que não quero deixar de referir. Alexandre VI nunca fez outra coisa senão intrujar o mundo, nunca pensou noutra coisa, e encontrou sempre quem se deixasse enganar. Jamais existiu homem que desse garantias com tanta eficácia e que afirmasse uma coisa com tão grandes juramentos, mas que menos os respeitasse. No entanto, conhecia tão bem a matéria que os seus embustes resultavam sempre ad votum. Um príncipe não precisa, consequentemente, de ter todas as qualidades enumeradas, mas convém que pareça que as tem. Atrever-me-ei, até, a dizer que, se as tem e as respeita sempre, o prejudicam. Mas, se fingir bem que as tem, ser-lhe-ão proveitosas, assim como lhe será proveitoso fingir-se compassivo, fiel, humano, íntegro e religioso - e sê-lo, mas na condição de, se convier não o ser, saber e poder agir ao contrário. Convém também notar que um príncipe, sobretudo quando é novo, não pode respeitar singelamente todas as condições segundo as quais se é considerado homem de bem, pois, não raro, para conservar os seus Estados, se vê constrangido a agir contra a sua palavra, contra a caridade, a humanidade e a religião. É por isso que deve ter o entendimento treinado para virar conforme os ventos da fortuna e a mutabilidade das coisas lhe ordenem, e, como já disse, não se afastar do bem, se puder, mas enveredar pelo mal, se for necessário.
O príncipe deve ter o cuidado de evitar que lhe saiam da boca palavras que não possuam as cinco qualidades que mencionei atrás e de parecer, a quem o veja e ouça, todo misericórdia, todo fidelidade, todo integridade, todo religião. Não há, aliás, nada tão necessário como parecer possuir a última virtude. Os homens, em geral, julgam mais com os olhos do que com as mãos, porque todos podem ver facilmente, mas poucos podem sentir. Todos vêem bem o que pareces, mas poucos têm o sentimento do que és - e estes poucos não ousam contradizer a opinião da maioria, que tem do seu lado a majestade do Estado que os sustenta. Para avaliar as acções de todos os homens, e sobretudo as dos príncipes (pois neste caso não se pode apelar para outro juiz), mede-se o êxito. Se um príncipe tiver o propósito de vencer e de manter o Estado, os meios empregados serão sempre tidos por honrosos e louvados por todos, pois o vulgo só julga pelo que vê e pelos resultados. Ora, neste mundo só existe o vulgo, e a minoria não conta quando a maioria tem em que se apoiar.»(..)
(sublinhados meus)

Cavaquês


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Alguém tem um descodificador de cavaquês?

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A "lavoura" agradece

O "pessoal da lavoura" está, concerteza, muito feliz com os vinte e um deputados eleitos pelo CDS-PP de Paulo Portas, que se vai esfalfar a defender e a proteger os pequenos e médios agricultores portugueses, além de ter conseguido atingir a meta desejada que lhe permitirá, quem sabe, vir a ser um partido charneira na vigência do próximo Governo da República. E como é mais que provável que o futuro Ministro da Agricultura não seja Jaime Silva (Paulo Portas rebentaria de raiva), foi a foto deste homem charmoso que escolhi para este postal, à laia de despedida.

Amizade Internauta


A Manuela Araújo do blogue Sustentabilidade é Acção distinguiu-me com o selo Amizade Internauta, que tem como objectivo premiar autores de blogues que visitam e contribuem com comentários interessantes no Sustentabilidade é Acção e, ao mesmo tempo, demonstrem ser pessoas de acção mais do que de palavras no que respeita à sustentabilidade do planeta, distinção que muito agradeço.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Vox Populi

Hoje fui entregar uns livros à Biblioteca e resolvi passar pela livraria e, enquanto via os livros expostos na montra, numa mesa da esplanada do café ao lado, uma senhora dizia para outra: «Prefiro uma democracia musculada a uma parvoíce pegada». Como ouvimos, lemos e até escrevemos parvoíces, mesmo fora das campanhas eleitorais, pensei apenas que a senhora era dada a rimas. Mas quando a interlocutora lhe perguntou: «Então o seu voto vai para Manuela Ferreira Leite, não?». Vi que a senhora começou a mudar de cor, a abanar-se com um leque (e eu olhava para os livros mas já não os via, tal o interesse em ouvir a resposta à pergunta, causa daquela agonia) e ela disse por fim: «Nessa senhora? O meu netinho mais novo, assim que a vê na televisão, corre a esconder-se debaixo da mesa ou detrás da porta, tal é o medo que tem dela! Como é que eu ía fazer uma coisa dessas à criança?! Ele não entende nada de política, mas reage assim quando lhe fazem cara de poucos amigos, que ele entende como ameaçadores à sua integridade física. Já conversei com ele, para o acalmar, mas é mais forte do que ele e a reacção é sempre a mesma. É bem possível que consulte um psicólogo.» Entrei na livraria, a sorrir, para sair pouco depois com mais alguns livros e alguma fome, era hora de almoço.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Senhor Presidente, continuo à espera de ouvir o que tem para dizer

Não querendo ir pelo ditado simplista "diz-me com quem andas dir-te-ei quem és", convenhamos que Cavaco Silva é um fraco avaliador do caracter das pessoas, mesmo que com elas conviva dezenas de anos. E é também teimoso nas suas apreciações, prolongando no tempo situações insustentáveis, porque confia na palavra das pessoas que escolheu, mesmo quando a realidade dos factos lhe demonstra o contrário, porque as considera suas amigas e, num mundo ideal, um amigo não mente nem trai.
Mas não vivemos num mundo ideal e também não parece sensato confundir a amizade com a capacidade para desempenhar qualquer função. Aos amigos somos capazes de desculpar se nos decepcionam, e só nós somos atingidos. No caso de desempenharmos cargos públicos e políticos, os erros desses amigos que escolhemos não nos atingem apenas a nós mas a um país inteiro, aumentando o grau de desconfiança numa ou em várias classes profissionais.
Senhor Presidente da República estou à espera que diga de sua justiça, quer resigne ou não resigne. Pessoalmente, a primeira hipótese não me incomoda, mesmo com eleições no próximo Domingo, porque a Constituição prevê todas estas situações e "o poder não cairá na rua". Além disso, é ao governo que compete a gestão diária da res publica, não ao Presidente.
(na imagem: Cavaco Silva e Fernando Lima, assessor para a comunicação social demitido ontem)

sábado, 19 de setembro de 2009

Rogério Santos - citação (jornalistas e fontes)

«Jornalistas e fontes de informação têm interesses específicos. A fonte noticiosa, através de informação, contra-informação, lóbis e fugas de informação, pretende "conduzir" o jornalista a um objectivo definido - publicitar as suas realizações. Os jornalistas, que investigam, seleccionam e produzem informação têm critérios pessoais e sociais, com rotinas de trabalho e normas profissionais que os regem, para validar ou não a publicitação dos acontecimentos organizados pelas fontes de informação.» (...)
«As fontes de menores recursos apostam na intriga, desvendam as rivalidades de organizações maiores e adequam-se às necessidades dos jornalistas (rapidez nas respostas, enquadramentos noticiosos). Com frequência, as fontes rivais saem do interior de organizações e, através de fugas de informação ou balões de ensaio, boicotam os projectos das organizações a que pertencem. Graças a redes de contactos informais com jornalistas, há uma significativa porosidade nas estruturas das organizações, o que as vulnerabiliza. Uma multiplicidade de interesses - que, no extremo, leva a que qualquer pessoa possa ser fonte de informação - serve os objectivos dos jornalistas, que procuram novas notícias sem cessar.» (...)
«Muitas delas, que trabalham e fornecem informação empacotada, destinada a consumo jornalístico, mostram uma componente proactiva indispensável para a sua colocação nas notícias. A estratégia seguida pela fonte é fazer chegar aos jornalistas informação julgada útil para a sua organização. Apesar de as regras habituais indicarem que as fontes devem prestar informação correcta, muitas vezes trabalham com dados falsos, produzem fugas de informação e lançam "balões de ensaio", na tentativa de antecipar resultados ou previsões e estudar reacções de adversários ou de um grupo social completo.» (...)
«O jornalista aceita melhor as fontes oficiais, categoria fundamental nas notícias. Estas nem sempre dão a resposta pretendida, de imediato. Primeiro, porque há que ponderar a altura certa para divulgar a resposta. Segundo, porque não se tem a certeza total da eficácia da informação e se espera que outros agentes se pronunciem sobre o assunto. Terceiro, porque à fonte oficial nem todos os jornalistas ou meios noticiosos interessam. A escolha destes é feita com critério, tendo em conta o prestígio do jornalista ou do jornal.
À fonte oficial interessa que corra tudo bem; por isso, preocupa-se com a escolha do meio noticioso e do jornalista, fornece a informação de acordo com os seus objectivos, faz um acompanhamento da acção, está atenta ao que se passa em volta. Com frequência, os jornalistas operam mais no domínio da obtenção de declarações e opiniões de fontes poderosas e interessadas na sua divulgação e menos na busca de factos novos e correlação com outros factos (Wemans, 1999:66). Outras vezes, ficam-se pelas expressões "tentámos apurar sem êxito", "a fonte não quis revelar", "a fonte preferiu não adiantar", o que encobre dificuldades dos jornalistas em obter a informação necessária» (...)
«Por seu lado, as fontes não oficiais (associações, empresas de menor dimensão, grupos cívicos, organizações não-governamentais) lutam pela divulgação dos seus acontecimentos.»(...)
«As empresas poderosas têm maior capacidade de controlar os seus contactos com o exterior, ao criarem barreiras formais e informais que inibem qualquer representante de falar abertamente dos problemas internos da organização. Além disso, as organizações de estruturas mais frágeis - como sindicatos, associações ambientais, de saúde ou de apoio social -, de estruturas abertas e com níveis hierárquicos fracos revelam mais facilmente as dissensões e os problemas internos.»
in A fonte não quis revelar, pp. 32, 35/6, 75, 77/8/9

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Notas sobre a campanha eleitoral

Ontem na RTP2-Jornal 2, no espaço dedicado à campanha eleitoral, Jerónimo de Sousa (PCP) e Garcia Pereira (PCTP-MRPP) defenderam a construção da linha de alta velocidade para uma mais rápida ligação ao resto da Europa. Sendo uma matéria que, de momento, divide o PS e o PSD, admiti que, se aqueles partidos continuarem a dar relevo, de forma assertiva, a essa posição, talvez o PS consiga a maioria absoluta. Não vou explicar como funcionou o meu raciocínio, porque em muitas coisas a minha intuição sobrepõe-se a qualquer outra elaboração racional.
Também ontem e já hoje, mas de manhã, na Antena 1, ouvi as entrevistas que Maria Flôr Pedroso fez, respectivamente, a José Sócrates (PS) e a Manuela Ferreira Leite (PSD) e ambos me pareceram bem na defesa das suas posições, incluindo a questão do comboio de alta velocidade, o que quer dizer que as minhas intuições talvez devam ir de férias.
Nos noticiários das rádios de hoje, ouvi que o Movimento Mérito e Sociedade (MMS) ía impugnar as eleições de 27 de Setembro, devido ao facto deste partido não ter o mesmo tratamento pela comunicação social que os partidos com assento parlamentar têm, o que contraria a Constituição da República, que prevê tratamento igual para todos os candidatos. Palavras não eram ditas, começou o tempo de antena para a campanha eleitoral dos partidos, na Antena 1, e dos quatro partidos previstos para apresentarem hoje as suas propostas, apenas um o fez, o Partido Trabalhista Português (PTP), porque os outros, Partido Nacional Renovador (PNR), Partido Nova Democracia (PND) e Partido Popular Monárquico (PPM), não facultaram o respectivo programa. Pelo menos estes três não podem queixar-se depois.

sábado, 12 de setembro de 2009

Sobre racismo

«Racista é aquele que vê o mundo como um mosaico de grupos ou de tribos que teriam em comum, não uma visão do homem, ou uma concepção do pacto social, mas uma cor de pele, o enraizamento numa terra, uma ascendência, um atavismo. Racista é aquele que, partindo daí, diz: os homens são tributários dessas tribos; prisioneiros dessas linhagens e heranças; é a cor da sua pele, a forma do seu nariz, são os seus genes que, mais do que a sua singularidade, permitem defini-los mais apropriadamente. E é então racista aquele que, tendo definido os sujeitos desta maneira, tendo-os oposto uns aos outros como outros tantos representantes de tipos supostamente naturais, irá naturalizar a oposição e, portanto, eternizá-la, transformando num combate quase teológico e, por conseguinte, irremissível, aquilo que antes era apenas uma querela de poderes ou de interesses.»
in O Século de Sartre, de Bernard-Henri Lévy, pp 422/3

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

11/09/2001 - 11/09/2009

Assisti em directo.
Continuo a pensar que as palavras me são completamente inúteis, despropositadas para a situação.
O silêncio, a reflexão, talvez as lágrimas.

(imagem: quadro de Vieira da Silva)


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Green Festival


Vai realizar-se de 18 a 25 de Setembro, no Centro de Congressos do Estoril, o Green Festival, cujo tema é a Sustentabilidade. Todas as informações sobre as inscrições e o programa estão aqui.
Adenda (29/09/2009): Quem não pode ir, tem as conferências disponíveis aqui.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A melhor notícia do dia

A melhor notícia deste dia é a de que já há um serviço de radioterapia em Évora (TSF).
Depois de ter conhecido tantas pessoas que durante meses, anos, percorreram mais de 400 kms (ida e volta) para fazerem esse tratamento aqui; depois de ver passar tantas ambulâncias, das mais diversas localidades do distrito de Évora, a transportar doentes para esse fim, o que a mim me parecia um autêntico calvário para além da doença, não podia deixar de referir este facto tão importante e, quem sabe, facilitador na recuperação desses doentes, porque desaparecem as viagens desgastantes e incómodas.
(na imagem, o meu Liceu, agora Universidade de Évora)

A Madeira é um exemplo de bom governo PSD!


E a Madeira não só é um exemplo de bom governo PSD, como lá não há qualquer vestígio da "asfixia democrática" que se vive no continente, porque no continente, ela própria, a Dr.ª Manuela Ferreira Leite, sente na pele essa asfixia. Foi o que a ouvi dizer na TSF.

E agora o que é que eu faço? Rio, ou choro? Para já, nada. Fiquei naquele estado de "estupor", termo usado por psiquiatras e psicólogos para caracterizar estados de embotamento da sensibilidade e da consciência que alguns confundem com "estado de choque" (e lá estou eu a meter a foice em seara alheia!). Enfim, como sou a minha própria analista (porque o pessoal de Filosofia também pode fazer aconselhamento ético-filosófico, o que em Portugal é uma raridade), vou consultar-me a mim própria.

domingo, 6 de setembro de 2009

Como se produz uma notícia?


A ler: Como se produz uma notícia?, no blogue ComLivros-Teresa, de Teresa Sá Couto, tendo como pano de fundo o livro "A fonte não quis revelar" de Rogério Santos, docente de Comunicação na Universidade Católica Portuguesa, cuja oportunidade é incontestável.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Aqui d'El-Rei, a censura outra vez!


Li com estupefacção alguns blogues com textos indignadíssimos por o Jornal Nacional das sextas-feiras na TVI, apresentado por Manuela Moura Guedes, ter acabado por decisão da PRISA, uma empresa privada. Os mesmos blogues que tinham feito de Manuela Moura Guedes o alvo de todas as críticas, algumas muito pessoais e de gosto duvidoso, durante meses, e os textos estão aí para o comprovar. Se estão apenas preocupados com o emprego dela, brevemente aparecerá noutro órgão de comunicação social, é só esperar mais um pouco.
Esta capacidade de argumentação para defender algo e o seu contrário existe desde que o ser humano existe, e há mais de cento e setenta anos que Arthur Schopenhauer, no livro Dialéctica Erística, da Editora Campo das Letras, desmontou esses estratagemas. E porque neste período pré-eleitoral normalmente agrava-se essa tendência, achei particularmente interessante o texto que está na capa do livro, que transcrevo: «Debates televisivos, talk shows de diversa índole, polémica política, oratória e retórica jurídicas, negociações económicas e laborais e até conversas entre amigos ou mesmo familiares são exemplos frequentes da manipulação argumentativa utilizada por um ou, por vezes, por todos os falantes. O tratado de Schopenhauer, escrito há mais de 170 anos, é, hoje em dia, particularmente actual, já que constitui um breve compêndio para desmascarar os "truques" ilícitos utilizados para provar qualquer tese.»
Quanto ao conteúdo do livro, não resisto a transcrever algumas observações de Schopenhauer ao estratagema 30:
«"Dizemos que é correcto o que parece ser para a maioria" (Aristóteles, Ética a Nicómaco, X, 2, 117 2b 36). Efectivamente não existe nenhuma opinião, por absurda que seja, de que os homens não aceitem como própria se, na hora de os convencer, se argumentar que ela é universalmente aceite. O exemplo é de igual modo eficaz nos seus pensamentos e nos seus actos. São como ovelhas que seguem o carneiro aonde quer que ele vá: é-lhes mais fácil morrer do que pensar.» (p. 75)
«Resumindo: muito poucos são capazes de pensar; no entanto, todos querem ter opiniões; e, assim sendo, não será mais fácil ficar com as dos outros do que criá-las eles próprios? Perante estes factos, que valor poderá ter agora a verdade de cem milhões de pessoas?» (p.76)
«Intellectus luminis sicci non est recipit infusionem a voluntate et affectibus (o intelecto não é uma luz que arda sem azeite, precisa de ser alimentado pela vontade e pelas paixões - Bacon, Novum Organon I, 49).» (p.82)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Ficar de olho...

A Adriana Freire Nogueira do blogue A Senhora Sócrates teve a gentileza de me brindar com o prémio Vale a pena ficar de olho nesse blog!, que muito agradeço. E como é hábito nestas coisas, devo atribuir este prémio a 10 outros blogues que eu considere que devemos ter "debaixo de olho". Os que escolhi defendem causas ou têm conteúdos completamente distintos, e que sempre me enriquecem. São estes:

Nietzsche - citação

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"O maior inimigo da verdade não é a mentira, são as convicções"