domingo, 29 de março de 2009

Um postal de desamparo e solidão

Ontem, num estabelecimento comercial de Carnaxide onde existe um quadro onde se colocam postais com pequenos anúncios de particulares (compra e venda de carros usados, de computadores, de mobiliário e imobiliário, de disponibilidade para trabalho doméstico, de explicadores, etc.), reparei não num, mas em três desses postais, por serem todos iguais no conteúdo e da mesma pessoa - uma senhora. Como nestes quadros não é usual que se coloquem três anúncios iguais em simultâneo, este evento tanto pode resultar da grande urgência numa resposta à situação, senão mesmo de algum desespero por falta dessa resposta. O teor do postal é o seguinte: «Preciso de menina séria para vir morar em minha casa. Só paga água, luz, gás e TVTel a meias. Eu preciso que essa pessoa olhe pela casa e me dê remédios a horas. É muito urgente. Entrada imediata e com referências. Pode ter o seu emprego na mesma, não há problema». Segue-se o nome, endereço e n.º de telemóvel da senhora. Localidade: Carnaxide.
Mesmo não correspondendo ao perfil, como é que se pode ficar indiferente a este tipo de apelos de alguém que não conhecemos mas que mora a uns escassos cem metros de nós? Torna-se-me quase um "imperativo categórico" conhecer a situação in loco.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Crimes e castigos - o caso Josef Fritzl

No caso dos crimes do austríaco Josef Fritzl, tenho a sensação de que quem vai sofrer uma pena perpétua são as vítimas, não o autor dos crimes. Este recolherá a um estabelecimento prisional onde não se preocupará mais com a sua subsistência nem com a sua saúde física e mental nem, possivelmente, com as suas necessidades espirituais (música, livros, etc.). As vítimas, mesmo que mudem os seus nomes, a sua aparência, a sua nacionalidade e, até, de país, terão sempre "jornalistas" sem escrúpulos a tentar descobri-los para os expor, quais atracções de circo, e, por outro lado, nunca conseguirão fugir das suas vivências dolorosas que estão armazenadas aí, no cérebro, nesse "cantinho" da memória que não é passível de transplante ou de apagamento.

domingo, 15 de março de 2009

Helena Cordeiro - lançamento do livro O Papel Principal


Na próxima terça-feira, dia 17 de Março, às 18,30 h, Helena Cordeiro lança o livro "O Papel Principal: Um estudo de caso - As capas da Elle de Edição Portuguesa", no Edifício da Reitoria da Universidade Católica Portuguesa, piso 1.
Sobre a obra:
«Há muito enclausuradas entre os preconceitos da dita intelectualidade e o desinteresse académico, as revistas femininas seguem o seu caminho, aparentemente imunes às críticas.
Nesta obra, Helena Cordeiro procura não só entender a correlação existente entre as implicações disciplinares deste tipo de imprensa de género e a sua representação globalizada da mulher e do feminino, mas também a razão para o aparente nó cego criado pelo prazer retirado da sua leitura e a simultânea vergonha por lê-las.
O que as capas das revistas femininas internacionais ou Glossies oferecem, tanto em termos imagéticos como textuais (expressos nas chamadas de capa), por forma a apelar à sua leitura, bem como a forma como são vistas e lidas por uma amostra seleccionada de leitoras portuguesas, são os pontos principais desta análise que persegue a necessidade de compreender o proper locus de ócio da mulher moderna e a sua óbvia ligação ao prazer.
Com o prefácio do Professor Doutor Rogério Santos, «O Papel Principal» é uma obra de consulta obrigatória para quem pretenda estudar o papel das revistas femininas num contexto editorial português.»
Sobre a autora:
Helena Cordeiro é licenciada em Relações Internacionais pelo ISCSP de Lisboa e Mestre em Ciências da Comunicação e Indústrias Culturais pela Faculdade de Ciências Humanas da UCP.
Actualmente trabalha na Assessoria Política e nas Relações Públicas de uma Missão Diplomática em Portugal.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Egas Moniz - comemoração dos 60 anos de atribuição do Nobel


Realiza-se no próximo dia 18 de Março, entre as 10 e as 18 horas, no Museu de Ciência de Coimbra, um colóquio sob o título "Egas Moniz 60 anos do Nobel". As inscrições são obrigatórias, a entrada é gratuita.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Sexo - da sacralização à repugnância

«Para nós, as partes genitais são já há longas gerações as pudenda, objectos de vergonha e, em caso de maior recalcamento sexual, mesmo de repugnância. Lancemos um olhar de conjunto à vida sexual do nosso tempo, em particular à das camadas sociais que são portadoras da civilização humana, e seremos tentados a dizer: é apenas a contragosto que os seres humanos de hoje, na sua maioria, se submetem às exigências da procriação e, ao fazê-lo, sentem-se ofendidos e rebaixados na sua dignidade humana. O que subsiste entre nós da outra concepção da vida sexual refugiou-se nas camadas populares baixas, que se mantiveram rudes, e dissimula-se nas camadas mais elevadas e requintadas, como culturalmente inferior, e não se manifesta por actos senão à custa das amargas censuras da má consciência. Tudo isto era bem diferente nos tempos primitivos do género humano. Dos dados trabalhosamente recolhidos pelos especialistas das civilizações podemos retirar a convicção de que as partes genitais eram originalmente o orgulho e a esperança dos seres humanos, eram objecto de veneração divina e transferiam a divindade das suas funções a todas as novas actividades a que o homem se dedicava. Da sua essência surgiram, por sublimação, inúmeras figuras de deuses e, na época em que a relação entre as religiões oficiais e a actividade sexual estava já oculta à consciência colectiva, certos cultos secretos esforçaram-se por mantê-lo vivo junto de um certo número de iniciados. Finalmente aconteceu que, no decurso do desenvolvimento da civilização, tantos elementos divinos e sagrados foram extraídos da sexualidade que o remanescente desta se tornou objecto de desprezo. Mas em virtude da indestrutibilidade inerente a todos os vestígios psíquicos, não devemos admirar-nos de que mesmo as formas mais primitivas de adoração dos órgãos genitais tenham persistido até épocas bem recentes e que linguagem, costumes e superstições da humanidade de hoje contenham sobrevivências de todas as fases deste processo de desenvolvimento.»
in Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci, de Sigmund Freud

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

"A origem do mundo" e o fim do mundo

Zurzir na PSP por desconhecer o quadro A origem do mundo, de Gustave Courbet, é tão fácil, não é? Quanto aos cidadãos que apresentaram as queixas que estiveram na origem da actuação da PSP, o que é que ficámos a saber? Quais as suas motivações? Terá sido apenas por desconhecimento de História da Arte?
Não me admirava nada que agora, para completar o quadro, alguns partidos políticos chamassem alguém à Assembleia da República para prestar esclarecimentos.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

"Detector de ódio" e "Odiómetro" - precisam-se

Se os investigadores da polícia devem seguir o rasto do dinheiro para chegarem a eventuais responsáveis por crimes que envolvam dinheiro, o que será necessário fazer para detectar o que despoletou o ódio ao Primeiro-Ministro de Portugal, derramado diariamente por alguns órgãos de comunicação social?
Sabemos que o ódio não é algo de tangível como o dinheiro, mas sente-se, tem intensidade, esmaga, corrói, provoca náusea, e quase se pode ver a sua cor, talvez parecida à da bílis; e tem um início, talvez uma palavra, uma atitude.
Sem "detectores de ódio" nem "odiómetros" qual a pista que devemos seguir para chegarmos a esse ponto x que originou este ódio? Ou será apenas irresponsabilidade e mau gosto?
Em Portugal, o conceito de "accountability" não se aplica aos jornalistas, porquê?
(Declaração de interesses: nunca votei nos partidos de poder porque me interessa mais votar no pluralismo de ideias, quer sejam de direita ou de esquerda, nunca me filiei em qualquer partido do mesmo modo que nunca me associei a um clube desportivo, para preservar tanto quanto possível a imparcialidade nos juízos que faço e cultivar o "não-ódio"; nunca faltei a um acto eleitoral ou referendário.)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A crise no quotidiano

Para contrabalançar a dor de alma que são as entrevistas que alguns jornalistas fazem a quem está sem emprego ou na iminência de ficar sem ele, ou sem casa, ou sem comida, ou tudo junto, deixando-nos com a sensação de que o país inteiro está desempregado, sem-abrigo, esfomeado, na miséria total, exponho uma experiência pessoal vivida há dois dias (um dia de semana, portanto), à hora de almoço, num supermercado próximo:
Parque de estacionamento cheio, supermercado cheio, com quase todas as caixas a funcionar, filas de pessoas à espera de vaga para se sentarem a uma mesa no restaurante que o supermercado possui, filas nas secções do talho, do peixe e na de comida confeccionada para levar para casa, a secção de cafés, dos bolos e dos pãezinhos com algo dentro, bem composta, a fisionomia das pessoas descontraída.
Não havendo departamentos públicos nos arredores deste estabelecimento, e, como sabemos, só os funcionários públicos tiveram aumentos substanciais nos ordenados este ano e têm emprego garantido, podemos concluir que a maioria daquelas pessoas trabalha nas micro, pequenas, médias e grandes empresas privadas que, dessas sim, há muitas naquele local. E ainda bem!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Luísa Amaro - novo CD "Meditherranios"

Luísa Amaro vai apresentar ao público no próximo sábado em Lisboa, no Museu do Oriente, o seu último trabalho; um disco surpreendente onde a sua guitarra portuguesa é acompanhada por um piano, tocado por Mário Laginha, um saxofone e um guitolão (este inventado por Carlos Paredes). O resultado é de uma beleza e de uma qualidade muito raras. O CD "Meditherranios".

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

cansaço, cansaço, cansaço...

Oh que cansaço destes infindáveis dias cinzentos, da chuva, do frio; cansaço do que se diz e do que se escreve (com belíssimas excepções). Só não me canso de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), mesmo quando fala de cansaço. Neste dia de sol e céu azul que nos acordou hoje, ouçamos o Poeta:
O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Ìssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), 1934

sábado, 31 de janeiro de 2009

A vaidade e o poder

"A vaidade é uma qualidade muito disseminada e talvez ninguém esteja livre dela. Nos círculos académicos e científicos é uma espécie de doença profissional. Mas precisamente no homem de ciência, por muito antipáticas que sejam as suas manifestações, a vaidade é relativamente inócua dado que, em geral, não estorva o trabalho científico. No político, que utiliza inevitavelmente como arma o desejo do poder, os seus resultados são muito diferentes. O instinto de poder, como se lhe costuma chamar, está assim, de facto, entre as suas qualidades normais. O pecado contra o Espírito Santo da sua profissão começa no momento em que este desejo de poder deixa de ser positivo, deixa de estar exclusivamente ao serviço da causa para se converter em pura embriaguez pessoal. Em última análise, só existem dois pecados mortais no terreno da política: a ausência de finalidades objectivas e a falta de responsabilidades. Esta coincide frequentemente, embora não sempre, com aquela. A vaidade, a necessidade de aparecer em primeiro plano sempre que possível, é o que mais leva o político a cometer um destes pecados ou os dois ao mesmo tempo. E tanto mais quanto é certo que o demagogo é obrigado a ter em conta o efeito; por isso se encontra sempre em perigo de se converter num comediante ou de não dar a devida atenção à responsabilidade que lhe incumbe pelas consequências dos seus actos, preocupando-se apenas com a impressão que provoca. A sua ausência de finalidade objectiva torna-o propenso a procurar a aparência brilhante do poder em vez do poder real; a sua falta de responsabilidade leva-o a gozar o poder pelo poder, sem tomar em conta a sua finalidade. Embora o poder seja o meio iniludível da política, ou mais exactamente, precisamente porque o é, e o desejo de poder seja uma das forças que a impulsionam, não há mais perniciosa deformação da força política que malbaratar o poder como um adventício ou comprazer-se vaidosamente no sentimento do poder, ou seja, em geral, toda a adoração do poder puro enquanto tal".
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in O político e o cientista, Max Weber

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

E quem perguntará aos futuros ex-prisioneiros de Guantánamo para que país desejam ir?

Luís Amado está muito empenhado em que Portugal seja um dos países a receber ex-prisioneiros de Guantánamo, havendo mais dois ou três países da União Europeia que já se mostraram disponíveis para esse efeito.
Se bem compreendo a situação, os futuros ex-prisioneiros de Guantánamo serão homens em relação aos quais nenhum crime foi provado e, por isso, ficarão completamente livres para decidirem o seu destino. Serão eles que deverão escolher os países para onde desejam ir, ao abrigo das leis de asilo ou de imigração desses mesmos países, e seguindo os trâmites legais respectivos, tudo isto no caso de não ser possível, ou de não quererem, voltar para os seus países de origem.
Mesmo que se tenha de criar um regime especial para o acolhimento e inserção social desses homens, dadas as circunstâncias e o estigma que viveram todos estes anos, deverá ser sempre deles a escolha dos países para onde desejam ir e não ao contrário.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Obama - Religião e Política (excertos de discurso proferido numa igreja)

Dada a diversidade crescente das populações dos Estados Unidos, os riscos de sectarismo são maiores do que nunca. O que quer que nós já tenhamos sido, nós já não somos uma nação cristã. Pelo menos não somente cristã. Nós somos também uma nação judaica, uma nação muçulmana, uma nação budista, uma nação hindu e uma nação de não-crentes. E mesmo que tivéssemos apenas cristãos entre nós, se expulsássemos todos os não-cristãos dos E.U.A., qual o cristianismo que ensinaríamos nas escolas? Seria o de James Dobson ou o de Al Sharpton? Que passagens das Escrituras deveriam instruir as nossas políticas públicas? Deveríamos escolher o Levítico, que sugere que a escravidão é aceitável? E que comer frutos do mar é uma abominação? Ou poderíamos escolher o Deuterónimo que sugere que se apadreje o seu filho se ele se desviar da fé? Ou deveríamos apenas ficar com o Sermão da Montanha? Uma passagem que é tão radical que é de se duvidar que o nosso próprio Departamento de Defesa sobreviveria à sua aplicação. Então, antes de nos empolgarmos, vamos ler as nossas Bíblias agora. As pessoas não têm lido a Bíblia. O que me leva ao 2.º ponto: que a democracia exige que os motivados por uma religião traduzam as suas preocupações em valores universais, ao invés de específicos de uma dada religião. O que é que eu quero dizer com isto? Ela (a democracia) requer que as propostas delas (das religiões) sejam sujeitas a discussão e que passem pelo crivo da razão. Eu posso ser contrário ao aborto por razões religiosas, por exemplo, mas se eu pretendo aprovar uma lei proibindo a prática do aborto, eu não posso recorrer, simplesmente, aos ensinamentos da minha igreja ou invocar a vontade divina; eu tenho que explicar que o aborto viola algum princípio que é acessível a pessoas de todas as fés, incluindo aqueles sem fé alguma.
Agora isto vai ser difícil para alguns que acreditam na infalibilidade da Bíblia, como muitos evangélicos acreditam, mas, numa sociedade pluralista, não temos escolha. A política depende da nossa habilidade de nos persuadirmos mutuamente, de objectivos comuns com base numa realidade comum. Ela envolve negociação, a arte do possível. E, nalgum nível fundamental, a religião não permite negociar; é a arte do impossível. Se Deus falou, então espera-se que os seguidores vivam de acordo com os éditos de Deus, a despeito das consequências. Basear a vida de uma pessoa em compromissos tão inegociáveis pode ser sublime, mas basear as nossas decisões políticas em tais compromissos seria algo perigoso. E se duvidam disso, deixem-me dar um exemplo: todos conhecemos a história de Abraão e Isaac. A Abraão Deus ordenou que sacrificasse o seu único filho. Sem discutir ele leva Isaac até ao topo da montanha e amarra-o a um altar. Levanta a sua faca, prepara-se para agir como Deus ordenara. Agora, sabemos que tudo correu bem! Deus enviou um anjo para interceder mesmo no último minuto. Abraão passou no teste de devoção a Deus. Mas é justo dizer que, se qualquer um de nós, ao sair desta igreja, visse Abraão no telhado de um prédio levantando uma faca, iríamos, no mínimo, chamar a polícia, e esperaríamos que o Departamento de Apoio às Crianças e à Família tirasse a custódia de Isaac a Abraão. Nós faríamos isso porque não ouvimos o que Abraão ouve, nós não vemos o que Abraão vê. Então, o melhor que podemos fazer é agir de acordo com aquelas coisas que todos nós vemos e que todos nós ouvimos. A jurisprudência é bom senso básico. Então temos algum trabalho a fazer aqui, mas tenho esperança de que podemos transpor o hiato que existe e superar os preconceitos que todos nós, em maior ou menor grau, trazemos a este debate. E tenho fé que milhões de americanos crentes querem que isso aconteça. Não importa o quão religiosos eles possam ser ou não ser, as pessoas estão cansadas de ver a fé ser utilizada como arma de arremesso. Elas não querem que a fé seja usada para as apoucar ou para as dividir porque, afinal, não é dessa forma que elas vêem a fé nas suas próprias vidas. 
Barack Obama
Para quem prefira ver e ouvir no vídeo:

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Cristovam Buarque sobre a internacionalização da Amazónia

Na mesma altura em que as Nações Unidas realizaram o Forum do Milénio, Cristovam Buarque, M.N.E. do Brasil, estava numa conferência organizada por uma Universidade dos EUA, e, questionado por um jovem americano sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia, acrescentando que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro, Cristovam Buarque retorquiu:
De facto, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que os nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também a de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro...O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não o seu preço. Da mesma forma o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono ou de um país. Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pretencer apenas à França. Cada museu é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar que esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito tempo, um milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Forum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com a sua beleza específica, a sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos dos brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de comer e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Conferência Internacional: Media & Desporto

Realiza-se nos próximos dias 22 e 23 de Janeiro uma Conferência Internacional sobre Media e Desporto, organizada pelo Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa, na Sala de Exposições, Edifício da Biblioteca, Palma de Cima, em Lisboa. Todas as informações sobre horários, temas, conferencistas, inscrições, estão disponíveis em http://mediaedesporto.blogspot.com/.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Bertolt Brecht - Dificuldade de Governar

1
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se-ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
2
É também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
3
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
É só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?
Bertolt Brecht (1898-1956)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Goethe (Judeus, Cristãos, Pagãos...)

«Fora Judeus e Pagãos!» - clama a paciência cristã.
«Maldito o Cristão e o Pagão!» - murmura um barbudo Judeu.
«Os Cristãos ao espeto e os Judeus à fogueira»!
- Canta um Turquinho troçando Cristãos e Judeus.
Qual é o mais esperto? - Decide! Mas se loucos destes
Há no teu palácio, Divindade, eu passo de largo.

J.W.Goethe (1749-1832)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Novo ano, as mesmas vidas

Enquanto se fazem balanços de anos passados e previsões para anos futuros, continuamos com as nossas duas vidas, a verdadeira e a falsa, dualismo que Fernando Pessoa abordou assim:
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
.
Fernando Pessoa

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Depressão no Natal ou "Natalite"

S., pessoa que sofre de doença depressiva, nos períodos natalícios fecha-se em casa porque não aguenta ver as pessoas, quais baratas tontas, a correr de um lado para outro às compras, carregadas de sacos e de cansaço, muitas com olhar alienado, fisionomia inexpressiva, parecendo mais contrariadas do que felizes com todo este corrupio e, quando questionadas sobre o significado do Natal, ficam a olhar para o questionador como se lhes tivessem perguntado a fórmula química de um qualquer elemento raro.
É que S. é demasiado sensível e não consegue ser um mero espectador deste "nonsense" que ataca as massas, e que lhe provoca um sofrimento temporariamente inultrapassável que só o isolamento atenua.
Creio que haverá muitos S. por esse mundo fora, a quem, a única coisa que desejo é que consigam passar à fase seguinte na racionalização deste e doutros comportamentos das massas, de modo a que as possam ver como realmente elas se mostram - dignas de pena.
Muitas delas sairão deste período também tristes, senão destroçadas, porque as suas expectativas foram completamente frustradas quer pela família, quer pelos amigos, quer pelas prendas que deram e receberam, quer pelo cansaço, o que não é motivo de regozijo para ninguém, mas também parece não ser razão para alterar comportamentos porque, no Natal seguinte, fazem exactamente o mesmo.
Abraços para todos os S.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992)-homenagem

História trágico marítima, quadro de 1944, exposto no Centro de Arte Moderna José Azeredo Perdigão, Lisboa, Portugal

sábado, 20 de dezembro de 2008

Thomas Jefferson sobre os Bancos em 1802


"I believe that banking institutions are more dangerous to our liberties than standing armies. If the American people ever allow private banks to control the issue of their currency, first by inflation, then by deflation, the banks and corporations that will grow up around the banks will deprive the people of all property until their children wake-up homeless on the continent their fathers conquered".

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Thomas Jefferson, 1802

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Desconforto natalício

Ele nasceu num estábulo porque recusaram casa e cama à sua família. Cresceu, carpinteirando com seu pai, na maior simplicidade. Nada escreveu, falava pouco e por parábolas.
Por que é que transformámos a Sua simplicidade numa ostentação que magoa a quem, como Ele, pouco tem?
Por que é que transformámos a Sua frugalidade em gula?
Por que é que esquecemos o essencial e privilegiamos o acessório?
Por que é que ficam sozinhos, com Ele e como Ele, os que não alinham com a maioria, com o rebanho que nada questiona e se limita a ir na onda, enchendo-se de futilidades?
Por que é que têm que se reunir pessoas da mesma família, que se maltratam ou ignoram durante o ano, para uma refeição que tem um simbolismo que desconhecem?
Por que é que nos esquecemos do Aniversariante?

sábado, 6 de dezembro de 2008

Nietzsche e os governantes

»E voltei as costas aos governantes quando vi o que eles chamam hoje governar: traficar e mercadejar o poder - com a gentalha!
»Vivi no meio dos povos de língua estrangeira, com os ouvidos fechados: para que a linguagem do seu comércio e dos seus negócios acerca do poder permanecesse estranha para mim.
Nietzsche, Assim falou Zaratustra

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

George Steiner, sobre o bom e o mau ensino e outras considerações

Ensinar com seriedade é lidar no que existe de mais vital num ser humano. É procurar acesso ao âmago da integridade de uma criança ou de um adulto. Um Mestre invade e pode devastar de modo a purificar e a reconstruir. O mau ensino, a rotina pedagógica, esse tipo de instrução que, conscientemente ou não, é cínico nos seus objectivos puramente utilitários, é ruinosa. Arranca a esperança pela raiz. O mau ensino é, quase literalmente, criminoso e, metaforicamente, um pecado. Diminui o aluno, reduz a uma inanidade cinzenta a matéria apresentada. Derrama sobre a sensibilidade da criança ou do adulto o mais corrosivo dos ácidos, o tédio, o metano do ennui. Para milhões de pessoas, a matemática, a poesia, o pensamento lógico foram destruídos por um ensino inane, pela mediocridade, talvez subconscientemente vingativa, de pedagogos frustrados.(...)
Em termos estatísticos, o anti-ensino constitui praticamente a norma. Os bons professores - os que alimentam a chama nascente na alma do aluno - são talvez mais raros do que os músicos virtuosos ou os sábios. Entre os professores do ensino elementar, instrutores da mente e do corpo, são alarmantemente escassos os que têm plena consciência daquilo que está em jogo, do equilíbrio entre confiança e vulnerabilidade, da fusão orgânica entre responsabilidade e sensibilidade. Ovídeo lembra-nos: «Não há maior maravilha». De facto, como bem sabemos, a maioria daqueles a quem entregamos os nossos filhos nas escolas secundárias, a quem pedimos orientação e exemplo na academia, pouco mais são que amigáveis coveiros. Trabalham para reduzir os alunos ao seu próprio nível de fatigada indiferença. Não "revelam" Delfos - obscurecem-no.
Em contrapartida, o ideal do verdadeiro Mestre não é uma fantasia ou uma utopia romântica inalcançável. Os mais afortunados entre nós conheceram Mestres genuínos, fossem eles Sócrates ou Emerson, Nadia Boulanger ou Max Perutz. Muitas vezes permanecem anónimos: professores ou professoras isolados que, ao emprestarem determinado livro, ao permanecerem disponíveis após as aulas, despertam o talento de uma criança ou de um adolescente, põem em marcha uma obsessão.(...)
Eu diria que a nossa era é a da irreverência. As causas desta transformação fundamental são as da revolução política, da sublevação social (a célebre «rebelião das massas» de Ortega y Gasset), do cepticismo obrigatório nas ciências. A admiração, para evitar falar de reverência, passou de moda. Somos viciados na inveja, na difamação, no rebaixamento. Os nossos ídolos devem exibir cabeças de barro. Os louvores são principalmente dirigidos aos atletas, às estrelas pop, aos milionários ou aos reis do crime. A celebridade, que satura a nossa vida mediática, é o contrário da fama. Usar uma réplica da camisola do deus do futebol ou imitar o penteado do cantor da moda está nos antípodas da condição de discípulo. Correspondentemente, a noção de sábio roça o risível. A consciência é populista e igualitária, ou finge sê-lo. Qualquer tendência manifesta para uma elite, para essa aristocracia do intelecto que era uma evidência para Max Weber, não está longe de ser proscrita pela democratização do sistema de consumo de massas (ainda que esta democratização comporte, inquestionavelmente, emancipações, sinceridades e esperanças de primeira ordem).(...)
Nas relações mundanas, seculares, a nota prevalecente, muitas vezes fortemente americana, é a da impertinência e a da contestação. Os «monumentos de um intelecto que não envelhece», talvez até os nossos cérebros, estão cobertos de grafitti. Os estudantes levantam-se à entrada de quem? Plus de Maîtres proclamava um dos slogans que floresceram nos muros da Sorbonne, em 1968.(...)
Há que terminar com poesia. Ninguém reflectiu mais profundamente do que Nietzsche nas questões que procurei levantar:
Alerta, humanidade!
Que diz a profunda Meia-Noite?
«Eu dormia, eu dormia,
despertei de um sonho profundo.
O mundo é profundo,
e mais profundo do que o dia imaginava.
Profunda é a sua dor,
a alegria - mais profunda ainda que a aflição.
A dor diz: Passa e perece!
Mas toda a alegria procura a eternidade,
procura a profunda, profunda eternidade!»
in "As Lições dos Mestres", Gradiva, Lisboa, trad. Rui Pires Cabral, 2.ª edição, 2005

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Suspensão da democracia - sonho ou pesadelo?

E se puséssemos a realidade entre parêntesis durante seis meses, o que é que poderíamos transformar ou reformar? Não estou a falar da epoché fenomenológica de Husserl, mas da epoché aplicada à nossa realidade política e administrativa, mais concretamente ao regime democrático. Colocado este entre parêntesis, ou suspenso, durante seis meses, poderíamos, por exemplo, decretar o despedimento colectivo dos professores, a sua desvinculação da função pública, dar às escolas toda a capacidade de contratar e despedir professores consoante as suas necessidades e com base nos respectivos "curricula", seleccionando as escolas os melhores professores para os seus objectivos e padrões bastante elevados.
Isso reduziria o número de funcionários públicos, o que seria bom para o Orçamento Geral do Estado, os impostos desceriam, aumentaria o grau de exigência das escolas face aos professores e destes face aos alunos, o que seria bom para o País.
Depois acordei e continuei a ouvir a vozearia das últimas semanas e a marcação de mais uma greve da função pública.
Voltei-me para o outro lado e tentei sonhar com outros decretos reformadores.

sábado, 15 de novembro de 2008

Educação,Instrução,Formação,Cultura não são sinónimos

Jean-Paul Sartre mostrou-se encantado por ter observado na península ibérica uma das educações infantis menos repressivas que existiam.
Essa educação consiste na adulação permanente da criança-rei (sobretudo os meninos e hoje também as meninas), o que constitui uma porta aberta para as suas pulsões narcisistas e exibicionistas, para a afirmação egoísta de si, e em nada contribui para a existência de um comportamento autodeterminado e equilibrado na percepção de si e do outro.
Esse tipo de educação traduz-se, na adolescência, numa indefinição do espaço humano que nada limita e define senão a vontade oposta, o que pode dar origem a uma sociedade que suscite e imponha uma intervenção estatal que, de algum modo, equilibre essa falsa "realeza" individual, mas que pode também, e muitas vezes, descambar em facilitismos e em nivelamentos por baixo, o que é desastroso e quase epidémico, com reflexos em várias gerações. Aliás, a sociedade portuguesa não é a única que não consegue resistir a esse impulso de ocupar um lugar que exija o mínimo de esforço e o máximo de promoção social segundo a norma do "parecer". E bem podemos esperar sentados a almejada mudança dessa coisa obscura chamada "mentalidade" que, não sendo da ordem do político, implica-o. A mentalidade de ricos sem tostão faz parte duma estrutura global, e mesmo que a realidade mostre o contrário ou que uma catástrofe esteja iminente, não a conseguem alterar. Se Freud tivesse tido oportunidade de nos conhecer, descobriria um povo em que é patente o triunfo do princípio do prazer sobre o princípio da realidade.

sábado, 1 de novembro de 2008

Os governos e os pareceres

Os que criticam os governos por pedirem tantos pareceres a entidades ou pessoas exteriores ao seu círculo e ao funcionalismo público, poderão encontrar algumas respostas para esse procedimento neste excerto de "O Príncipe" de Nicolau Maquiavel, que era um profundo conhecedor da natureza humana.
Cap. XXIII - Como se deve fugir dos lisonjeadores (Quomodo adulatores sint fugiendi)
"Não desejo esquecer um grande erro respeitante a uma matéria de importância, do qual os príncipes raramente se defendem, se não são muito sábios ou sensatos ao fazer uma escolha. Trata-se dos aduladores, dos quais as cortes estão cheias. Os homens comprazem-se tanto consigo próprios e têm ideias tão lisonjeiras a seu respeito que dificilmente escapam a esta praga - da qual, se dela pretendem defender-se, pode surgir outro perigo: o de serem desprezados. Não há outro meio de fugir às adulações senão dando a entender às pessoas que não te desagradarão se disserem a verdade; mas, se todos te puderem dizer a verdade, desaparece a deferência. Por isso, o príncipe prudente deve recorrer a um terceiro meio e escolher no seu Estado pessoas sensatas que serão as únicas às quais concederá a liberdade de lhe dizerem a verdade, mas somente a verdade acerca do que lhes perguntar e não de outras coisas. Deverá, no entanto, interrogá-las acerca de tudo, ouvir as suas opiniões e depois decidir baseado nelas, mas por si e à sua maneira. No modo como aceitar esse conselho e como proceder em relação a cada uma dessas pessoas, em particular, deve demonstrar-lhes que quanto mais livremente lhe falarem mais agradáveis lhe serão. Além dessas pessoas, não deverá ouvir outras e convirá que cumpra sempre o que resolver e seja íntegro nas suas resoluções. Quem procede de outro modo, ou se deixa perder pelos aduladores, ou muda frequentemente de opinião, conforme a diversidade daqueles a quem dá ouvidos; daí resulta tornar-se pouco estimado.
Portanto, um príncipe deve sempre aconselhar-se, mas quando quer e não quando os outros querem, e deve tirar a todos a vontade de lhe darem conselhos que não pede.
Deve também, por seu lado, pedi-los sem parcimónia e escutar pacientemente todas as verdades, e se descobrir que alguém, por respeito, não lhas diz, mostrar-se zangado."
(...)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A utilidade das crises

Podemos considerar as crises como momentos importantes em qualquer aspecto das nossas vidas, pessoais e colectivas, porque nos dão a oportunidade de separar o trigo do joio. Uma crise não se manifesta nem se instala quando estamos atentos às implicações do que fazemos e do que dizemos, ou seja, quando cada um age à luz da ética e da deontologia.
Sem "krisis", no sentido grego do termo, não haveria julgamento, debate, comparação, escolha, decisão, desfecho, ruptura, e, portanto, a oportunidade de elaborar novas regras, mais rigorosas, em que assentem os nossos actos futuros. Por outras palavras, as crises obrigam-nos a fazer balanços do que fizemos de certo e de errado para, de forma esclarecida, evitarmos replicar esses mesmos erros e, idealmente, não cometermos outros.
Existe na língua portuguesa a expressão "passar pelo crivo" que encerra, precisamente, a ideia de avaliação de algo ou de alguém face a determinados valores com o objectivo de separar o certo do errado, o bom do mau, o competente do incompetente, o responsável do irresponsável. o tal trigo do joio.
Se, na presente crise, formos capazes de fazer um balanço profundo e exaustivo e dele saírem normas rigorosas e transparentes para os sectores que a provocaram, bem como a identificação de outras possíveis fragilidades, mais depressa desaparecerão a desconfiança e a perplexidade, a depressão e a angústia, caso contrário, voltaremos à aparência de normalidade, a uma normalidade podre.
Quando se bate no fundo, só há um caminho a percorrer: o da subida, mesmo aos solavancos. Permanecer no fundo não é opção nem se adequa ao significado do termo "crise" que não é mais do que "oportunidade para reflectir e romper com situações danosas".

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Utopia Pessoana para a Europa

(...)
"A Europa tem sede de que se crie, tem fome de Futuro!
A Europa quer grandes Poetas, quer grandes Estadistas, quer grandes Generais!
Quer o Político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu Povo!
Quer o Poeta que busque a Imortalidade ardentemente, e não se importe com a fama, que é para as actrizes e para os produtos farmacêuticos!
Quer o General que combata pelo Triunfo Construtivo, não pela vitória em que apenas se derrotam os outros!
A Europa quer muitos destes Políticos, muitos destes Poetas, muitos destes Generais!
A Europa quer a Grande Ideia que esteja por dentro destes Homens Fortes - a ideia que seja o Nome da sua riqueza anónima!
A Europa quer a Inteligência Nova que seja a Forma da sua Matéria caótica!
Quer a Vontade Nova que faça um Edifício com as pedras-ao-acaso do que é hoje a Vida!
Quer a Sensibilidade Nova que reúna de dentro os egoísmos dos lacaios da Hora!
A Europa quer Donos! O Mundo quer a Europa!
A Europa está farta de não existir ainda! Está farta de ser apenas o arrabalde de si-própria! A Era das Máquinas procura, tacteando, a vinda da Grande Humanidade!
A Europa anseia, ao menos, por Teóricos de O-que-será, por Cantores-Videntes do seu Futuro!
Dai Homeros à Era das Máquinas, ó Destinos científicos! Dai Miltons à Época das Cousas Eléctricas, ó Deuses interiores à Matéria!
Dai-nos Possuidores de si-próprios, Fortes, Completos, Harmónicos, Subtis!
A Europa quer passar de designação geográfica a pessoa civilizada!
O que aí está a apodrecer a Vida, quando muito é estrume para o Futuro!
O que aí está não pode durar, porque não é nada!
Eu, da Raça dos Navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo!
Quem há na Europa que ao menos suspeite de que lado fica o Novo Mundo agora a descobrir? Quem sabe estar em um Sagres qualquer?
Eu, ao menos, sou uma grande Ânsia, do tamanho exacto do Possível!
Eu, ao menos, sou da estatura da ambição Imperfeita, mas da Ambição para Senhores, não para escravos!
Ergo-me ante o sol que desce, e a sombra do meu Desprezo anoitece em vós!
Eu, ao menos, sou bastante para indicar o Caminho!"

Excerto de "Ultimatum", Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), 1917