No mínimo perturbadora esta situação descrita por José Saramago no seu Caderno sob o título "Os meninos vestidos de preto".
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Candidatos a mártires
terça-feira, 28 de abril de 2009
A Esfinge
Qual Esfinge, ninguém consegue acertar na interpretação das palavras de Manuela Ferreira Leite, e é a própria que costuma vir esclarecer o sentido do que disse anteriormente. As palavras estão gravadas? Não interessa! A incapacidade (para não dizer burrice) é dos que não conseguem descodificar as palavras da Esfinge. Haverá por aí algum Édipo que resolva o enigma?segunda-feira, 27 de abril de 2009
Referências da "direita"
Ontem, no blogue Hoje há Conquilhas, de Tomás Vasques: "Uma «direita» que usa como referência Manuela Moura Guedes e Eduardo Cintra Torres está à beira do abismo".
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sábado, 25 de abril de 2009
35 anos do golpe militar - homenagem a Salgueiro Maia
No passado dia 3 de Abril completaram-se dezassete anos sobre a morte de Fernando Salgueiro Maia. O mês de Abril parece ser o seu e hoje não me apetece homenagear mais ninguém.*
Demoraste muito, desta vez.
Cheguei a pensar que te perderas
Cheguei a pensar que te perderas
na crispada brancura da neve.
Uma luz anónima,
de fotografia antiga, é agora
a tua. Já não terás outra.
Nem outro silêncio por vestido
a defender-te do frio.
Há no entanto no teu olhar
certo orgulho velado,
como se a claridade
fosse a tua casa, a tua
idade. E a rosa
que sempre vi na tua mão
ainda lá está, embora apagada.
Nada pergunto, nada me dizes,
mas um sorriso breve brilha na sombra.
Anónima, não tarda
que a luz te proteja e leve.
*
Eugénio de Andrade
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quinta-feira, 23 de abril de 2009
Um conto de Gonçalo M. Tavares no Dia Mundial do Livro

O PAÍS INGÉNUO
A tristeza era tanta que os sorrisos passaram a ser pagos. Alguns funcionários do Estado, disfarçados, diluídos na multidão das cidades, observavam os poucos cidadãos sorridentes que passavam e, discretamente, mandavam-nos parar. Apresentavam-se: Funcionários do Estado!, diziam, e depois pediam a identificação do sorridente. Registavam nome e morada.
Ao fim do mês, os referidos cidadãos recebiam o cheque. Durante o mês de Fevereiro foi visto três vezes a sorrir na rua - estava escrito, com data e hora, no pequeno documento que acompanhava o dinheiro.
A quantia dada por cada sorriso não era uma fortuna, mas digamos que ser visto pelo Estado a sorrir nove vezes durante um mês dava perfeitamente para viver sem dificuldades.
Pois bem, em pouco tempo o clima emocional do país alterou-se por completo. Seja por avidez ou pela própria natureza das coisas o país em dois anos tornou-se conhecido pelo "permanente e impressionante optimismo dos seus cidadãos", como se dizia numa agência de notícias internacional.
Os subsídios do Estado aos sorrisos terminaram pouco depois, mas como ninguém informou os cidadãos eles mantiveram aquele sorriso estúpido, repugnante, desadequado, inútil, sem razão de ser.
(Histórias de Gonçalo M. Tavares)
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Biblioteca Digital Mundial

Está já disponível on-line a Biblioteca Digital Mundial, onde se encontram reproduções de livros, documentos e manuscritos que fazem parte dos acervos das bibliotecas de todo o mundo, em línguas como o chinês, russo, árabe, inglês, francês, castelhano e português.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Como a moral e a política estão unidas, para Aristóteles
«Sendo nossa intenção tratar aqui de coisas relativas à moral, o que temos que fazer em primeiro lugar é averiguar exactamente de que ciência faz parte. A moral, a meu ver, só pode fazer parte da política. Em política nada é possível sem se ser dotado de certas qualidades; quero dizer, sem se ser um homem de bem. Mas ser homem de bem implica ter virtudes; e, portanto, se em política se quer fazer algo, é preciso que se seja moralmente virtuoso. Isto faz com que o estudo da moral apareça como uma parte e até como o princípio da política, e, por conseguinte, defendo que ao conjunto deste estudo deve dar-se-lhe o nome de Política em vez do de Moral. Creio, portanto, que deve tratar-se, em primeiro lugar, da virtude, e mostrar como é e como se forma, porque não se tirará qualquer proveito em saber o que é a virtude se não se souber também como nasce e por que meios se adquire».(...)
(a responsabilidade da tradução deste excerto a partir do castelhano é minha, excerto que se encontra em La Gran Moral, Libro Primero, Capítulo I, De la naturaleza de la moral)
in Aristóteles, Moral (La Gran Moral y Moral a Eudemo), Espasa-Calpe,S.A., Colección Austral, 6.ª edición, Madrid, 1976
Custas judiciais
Ontem às 7 h soube, via rádio, que a Associação dos Familiares das Vítimas da queda da ponte de Entre-os-Rios tinha recebido correspondência onde constava o valor das custas judiciais a pagar e que ascenderia a quinhentos mil euros; ao meio-dia ouvi o Presidente da Câmara de Castelo de Paiva, também via rádio, a dizer que o valor a pagar rondaria os setenta mil euros; às 22 h no Jornal 2 (RTP2) o valor das custas já ía nos cinquenta e sete mil euros. Como hoje ainda não ouvi falar no assunto, não sei se já chegaram a zero, depois de tantas cartas e faxes que o Presidente da Câmara de Castelo de Paiva disse que iria enviar para muitas instituições incluindo o Presidente da República (não vejo o que é que este tem a ver com o assunto, talvez seja por se referirem a ele como "o mais alto magistrado da Nação" que crie estas confusões). E já agora, todos esses contactos não poderão inscrever-se naqueles tipos de atitudes a que se tem chamado ultimamente de "pressões"?. Enfim, idiossincrasias nossas.
Aproveito para registar que na segunda-feira entra em vigor um diploma com os novos valores para as custas judiciais que, numa análise muito superficial, parece só permitir o acesso à justiça aos indigentes e aos afortunados. Vamos ver o que acontece na prática.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
ANF - esta vingança não se serve fria
O Presidente da Associação Nacional de Farmácias, João Cordeiro, para não perder a face por ter fracassado a campanha que fomentou junto dos associados no sentido do não cumprimento da lei em vigor que dá aos médicos a prerrogativa de autorizarem ou não a substituição dos medicamentos que receitam por genéricos correspondentes, veio ontem dizer que, a partir de agora, nos recibos que as farmácias passam aos clientes irão constar os preços dos respectivos medicamentos genéricos para que os clientes tenham a noção do valor que poderiam poupar.O Presidente da ANF ao querer vingar-se desta maneira pelo insucesso da sua campanha, não faz mais do que prestar um excelente serviço aos cidadãos e ao governo. Aos cidadãos, porque, ao verem demonstrada a diferença de preços para a mesma substância activa, mais facilmente ganharão coragem para pedirem, senão mesmo exigirem, que os seus médicos os receitem. Ao governo, porque este há muito que deseja aumentar a percentagem do consumo de medicamentos genéricos por uma questão de controlo de despesas.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Liberdade de expressão
Uma das frases mais assertivas que conheço na defesa da liberdade de expressão é esta, de Voltaire: «Não concordo com o que diz, mas defenderei até à morte o seu direito de dizê-lo».
Não será necessário explicitar que este direito se refere à liberdade de expressar ideias - políticas, filosóficas, religiosas, etc. Quando se entra no domínio do insulto e da difamação, não só aquela frase é inaplicável como dificilmente os que insultam e difamam se poderão proteger no direito de liberdade de expressão.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
António Câmara - Conferência "A Inovação e a Liderança"
A 22 de Abril, 18h-20h, no Auditório 2 da Universidade Católica, o Professor António Câmara, fundador e presidente da YDreams, dará uma Conferência subordinada ao tema "A Inovação e a Liderança". Preço: 6 € (gratuito para orientadores de estágio, licenciados, mestrandos e doutorandos da FCH e formandos da EPG-FCH).
Inscrição na Conferência: Elisabete Carvalho ecarvalho@fch.ucp.pt, telefone: 217214199.
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terça-feira, 31 de março de 2009
Sobre o Twitter
domingo, 29 de março de 2009
Um postal de desamparo e solidão
Ontem, num estabelecimento comercial de Carnaxide onde existe um quadro onde se colocam postais com pequenos anúncios de particulares (compra e venda de carros usados, de computadores, de mobiliário e imobiliário, de disponibilidade para trabalho doméstico, de explicadores, etc.), reparei não num, mas em três desses postais, por serem todos iguais no conteúdo e da mesma pessoa - uma senhora. Como nestes quadros não é usual que se coloquem três anúncios iguais em simultâneo, este evento tanto pode resultar da grande urgência numa resposta à situação, senão mesmo de algum desespero por falta dessa resposta. O teor do postal é o seguinte: «Preciso de menina séria para vir morar em minha casa. Só paga água, luz, gás e TVTel a meias. Eu preciso que essa pessoa olhe pela casa e me dê remédios a horas. É muito urgente. Entrada imediata e com referências. Pode ter o seu emprego na mesma, não há problema». Segue-se o nome, endereço e n.º de telemóvel da senhora. Localidade: Carnaxide.
Mesmo não correspondendo ao perfil, como é que se pode ficar indiferente a este tipo de apelos de alguém que não conhecemos mas que mora a uns escassos cem metros de nós? Torna-se-me quase um "imperativo categórico" conhecer a situação in loco.
quinta-feira, 19 de março de 2009
Crimes e castigos - o caso Josef Fritzl
No caso dos crimes do austríaco Josef Fritzl, tenho a sensação de que quem vai sofrer uma pena perpétua são as vítimas, não o autor dos crimes. Este recolherá a um estabelecimento prisional onde não se preocupará mais com a sua subsistência nem com a sua saúde física e mental nem, possivelmente, com as suas necessidades espirituais (música, livros, etc.). As vítimas, mesmo que mudem os seus nomes, a sua aparência, a sua nacionalidade e, até, de país, terão sempre "jornalistas" sem escrúpulos a tentar descobri-los para os expor, quais atracções de circo, e, por outro lado, nunca conseguirão fugir das suas vivências dolorosas que estão armazenadas aí, no cérebro, nesse "cantinho" da memória que não é passível de transplante ou de apagamento.
domingo, 15 de março de 2009
Helena Cordeiro - lançamento do livro O Papel Principal

Na próxima terça-feira, dia 17 de Março, às 18,30 h, Helena Cordeiro lança o livro "O Papel Principal: Um estudo de caso - As capas da Elle de Edição Portuguesa", no Edifício da Reitoria da Universidade Católica Portuguesa, piso 1.
Sobre a obra:
«Há muito enclausuradas entre os preconceitos da dita intelectualidade e o desinteresse académico, as revistas femininas seguem o seu caminho, aparentemente imunes às críticas.
Nesta obra, Helena Cordeiro procura não só entender a correlação existente entre as implicações disciplinares deste tipo de imprensa de género e a sua representação globalizada da mulher e do feminino, mas também a razão para o aparente nó cego criado pelo prazer retirado da sua leitura e a simultânea vergonha por lê-las.
O que as capas das revistas femininas internacionais ou Glossies oferecem, tanto em termos imagéticos como textuais (expressos nas chamadas de capa), por forma a apelar à sua leitura, bem como a forma como são vistas e lidas por uma amostra seleccionada de leitoras portuguesas, são os pontos principais desta análise que persegue a necessidade de compreender o proper locus de ócio da mulher moderna e a sua óbvia ligação ao prazer.
Com o prefácio do Professor Doutor Rogério Santos, «O Papel Principal» é uma obra de consulta obrigatória para quem pretenda estudar o papel das revistas femininas num contexto editorial português.»
Sobre a autora:
Helena Cordeiro é licenciada em Relações Internacionais pelo ISCSP de Lisboa e Mestre em Ciências da Comunicação e Indústrias Culturais pela Faculdade de Ciências Humanas da UCP.
Actualmente trabalha na Assessoria Política e nas Relações Públicas de uma Missão Diplomática em Portugal.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Egas Moniz - comemoração dos 60 anos de atribuição do Nobel

Realiza-se no próximo dia 18 de Março, entre as 10 e as 18 horas, no Museu de Ciência de Coimbra, um colóquio sob o título "Egas Moniz 60 anos do Nobel". As inscrições são obrigatórias, a entrada é gratuita.
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sexta-feira, 6 de março de 2009
Sexo - da sacralização à repugnância
«Para nós, as partes genitais são já há longas gerações as pudenda, objectos de vergonha e, em caso de maior recalcamento sexual, mesmo de repugnância. Lancemos um olhar de conjunto à vida sexual do nosso tempo, em particular à das camadas sociais que são portadoras da civilização humana, e seremos tentados a dizer: é apenas a contragosto que os seres humanos de hoje, na sua maioria, se submetem às exigências da procriação e, ao fazê-lo, sentem-se ofendidos e rebaixados na sua dignidade humana. O que subsiste entre nós da outra concepção da vida sexual refugiou-se nas camadas populares baixas, que se mantiveram rudes, e dissimula-se nas camadas mais elevadas e requintadas, como culturalmente inferior, e não se manifesta por actos senão à custa das amargas censuras da má consciência. Tudo isto era bem diferente nos tempos primitivos do género humano. Dos dados trabalhosamente recolhidos pelos especialistas das civilizações podemos retirar a convicção de que as partes genitais eram originalmente o orgulho e a esperança dos seres humanos, eram objecto de veneração divina e transferiam a divindade das suas funções a todas as novas actividades a que o homem se dedicava. Da sua essência surgiram, por sublimação, inúmeras figuras de deuses e, na época em que a relação entre as religiões oficiais e a actividade sexual estava já oculta à consciência colectiva, certos cultos secretos esforçaram-se por mantê-lo vivo junto de um certo número de iniciados. Finalmente aconteceu que, no decurso do desenvolvimento da civilização, tantos elementos divinos e sagrados foram extraídos da sexualidade que o remanescente desta se tornou objecto de desprezo. Mas em virtude da indestrutibilidade inerente a todos os vestígios psíquicos, não devemos admirar-nos de que mesmo as formas mais primitivas de adoração dos órgãos genitais tenham persistido até épocas bem recentes e que linguagem, costumes e superstições da humanidade de hoje contenham sobrevivências de todas as fases deste processo de desenvolvimento.»in Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci, de Sigmund Freud
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
"A origem do mundo" e o fim do mundo
Zurzir na PSP por desconhecer o quadro A origem do mundo, de Gustave Courbet, é tão fácil, não é? Quanto aos cidadãos que apresentaram as queixas que estiveram na origem da actuação da PSP, o que é que ficámos a saber? Quais as suas motivações? Terá sido apenas por desconhecimento de História da Arte?
Não me admirava nada que agora, para completar o quadro, alguns partidos políticos chamassem alguém à Assembleia da República para prestar esclarecimentos.
sábado, 21 de fevereiro de 2009
"Detector de ódio" e "Odiómetro" - precisam-se
Se os investigadores da polícia devem seguir o rasto do dinheiro para chegarem a eventuais responsáveis por crimes que envolvam dinheiro, o que será necessário fazer para detectar o que despoletou o ódio ao Primeiro-Ministro de Portugal, derramado diariamente por alguns órgãos de comunicação social?
Sabemos que o ódio não é algo de tangível como o dinheiro, mas sente-se, tem intensidade, esmaga, corrói, provoca náusea, e quase se pode ver a sua cor, talvez parecida à da bílis; e tem um início, talvez uma palavra, uma atitude.
Sem "detectores de ódio" nem "odiómetros" qual a pista que devemos seguir para chegarmos a esse ponto x que originou este ódio? Ou será apenas irresponsabilidade e mau gosto?
Em Portugal, o conceito de "accountability" não se aplica aos jornalistas, porquê?
(Declaração de interesses: nunca votei nos partidos de poder porque me interessa mais votar no pluralismo de ideias, quer sejam de direita ou de esquerda, nunca me filiei em qualquer partido do mesmo modo que nunca me associei a um clube desportivo, para preservar tanto quanto possível a imparcialidade nos juízos que faço e cultivar o "não-ódio"; nunca faltei a um acto eleitoral ou referendário.)
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
A crise no quotidiano
Para contrabalançar a dor de alma que são as entrevistas que alguns jornalistas fazem a quem está sem emprego ou na iminência de ficar sem ele, ou sem casa, ou sem comida, ou tudo junto, deixando-nos com a sensação de que o país inteiro está desempregado, sem-abrigo, esfomeado, na miséria total, exponho uma experiência pessoal vivida há dois dias (um dia de semana, portanto), à hora de almoço, num supermercado próximo:
Parque de estacionamento cheio, supermercado cheio, com quase todas as caixas a funcionar, filas de pessoas à espera de vaga para se sentarem a uma mesa no restaurante que o supermercado possui, filas nas secções do talho, do peixe e na de comida confeccionada para levar para casa, a secção de cafés, dos bolos e dos pãezinhos com algo dentro, bem composta, a fisionomia das pessoas descontraída.
Não havendo departamentos públicos nos arredores deste estabelecimento, e, como sabemos, só os funcionários públicos tiveram aumentos substanciais nos ordenados este ano e têm emprego garantido, podemos concluir que a maioria daquelas pessoas trabalha nas micro, pequenas, médias e grandes empresas privadas que, dessas sim, há muitas naquele local. E ainda bem!
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Luísa Amaro - novo CD "Meditherranios"
Luísa Amaro vai apresentar ao público no próximo sábado em Lisboa, no Museu do Oriente, o seu último trabalho; um disco surpreendente onde a sua guitarra portuguesa é acompanhada por um piano, tocado por Mário Laginha, um saxofone e um guitolão (este inventado por Carlos Paredes). O resultado é de uma beleza e de uma qualidade muito raras. O CD "Meditherranios".quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
cansaço, cansaço, cansaço...
Oh que cansaço destes infindáveis dias cinzentos, da chuva, do frio; cansaço do que se diz e do que se escreve (com belíssimas excepções). Só não me canso de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), mesmo quando fala de cansaço. Neste dia de sol e céu azul que nos acordou hoje, ouçamos o Poeta:
O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Ìssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), 1934
sábado, 31 de janeiro de 2009
A vaidade e o poder
"A vaidade é uma qualidade muito disseminada e talvez ninguém esteja livre dela. Nos círculos académicos e científicos é uma espécie de doença profissional. Mas precisamente no homem de ciência, por muito antipáticas que sejam as suas manifestações, a vaidade é relativamente inócua dado que, em geral, não estorva o trabalho científico. No político, que utiliza inevitavelmente como arma o desejo do poder, os seus resultados são muito diferentes. O instinto de poder, como se lhe costuma chamar, está assim, de facto, entre as suas qualidades normais. O pecado contra o Espírito Santo da sua profissão começa no momento em que este desejo de poder deixa de ser positivo, deixa de estar exclusivamente ao serviço da causa para se converter em pura embriaguez pessoal. Em última análise, só existem dois pecados mortais no terreno da política: a ausência de finalidades objectivas e a falta de responsabilidades. Esta coincide frequentemente, embora não sempre, com aquela. A vaidade, a necessidade de aparecer em primeiro plano sempre que possível, é o que mais leva o político a cometer um destes pecados ou os dois ao mesmo tempo. E tanto mais quanto é certo que o demagogo é obrigado a ter em conta o efeito; por isso se encontra sempre em perigo de se converter num comediante ou de não dar a devida atenção à responsabilidade que lhe incumbe pelas consequências dos seus actos, preocupando-se apenas com a impressão que provoca. A sua ausência de finalidade objectiva torna-o propenso a procurar a aparência brilhante do poder em vez do poder real; a sua falta de responsabilidade leva-o a gozar o poder pelo poder, sem tomar em conta a sua finalidade. Embora o poder seja o meio iniludível da política, ou mais exactamente, precisamente porque o é, e o desejo de poder seja uma das forças que a impulsionam, não há mais perniciosa deformação da força política que malbaratar o poder como um adventício ou comprazer-se vaidosamente no sentimento do poder, ou seja, em geral, toda a adoração do poder puro enquanto tal"..
in O político e o cientista, Max Weber
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
E quem perguntará aos futuros ex-prisioneiros de Guantánamo para que país desejam ir?
Luís Amado está muito empenhado em que Portugal seja um dos países a receber ex-prisioneiros de Guantánamo, havendo mais dois ou três países da União Europeia que já se mostraram disponíveis para esse efeito.
Se bem compreendo a situação, os futuros ex-prisioneiros de Guantánamo serão homens em relação aos quais nenhum crime foi provado e, por isso, ficarão completamente livres para decidirem o seu destino. Serão eles que deverão escolher os países para onde desejam ir, ao abrigo das leis de asilo ou de imigração desses mesmos países, e seguindo os trâmites legais respectivos, tudo isto no caso de não ser possível, ou de não quererem, voltar para os seus países de origem.
Mesmo que se tenha de criar um regime especial para o acolhimento e inserção social desses homens, dadas as circunstâncias e o estigma que viveram todos estes anos, deverá ser sempre deles a escolha dos países para onde desejam ir e não ao contrário.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Obama - Religião e Política (excertos de discurso proferido numa igreja)
Dada a diversidade crescente das populações dos Estados Unidos, os riscos de sectarismo são maiores do que nunca. O que quer que nós já tenhamos sido, nós já não somos uma nação cristã. Pelo menos não somente cristã. Nós somos também uma nação judaica, uma nação muçulmana, uma nação budista, uma nação hindu e uma nação de não-crentes. E mesmo que tivéssemos apenas cristãos entre nós, se expulsássemos todos os não-cristãos dos E.U.A., qual o cristianismo que ensinaríamos nas escolas? Seria o de James Dobson ou o de Al Sharpton? Que passagens das Escrituras deveriam instruir as nossas políticas públicas? Deveríamos escolher o Levítico, que sugere que a escravidão é aceitável? E que comer frutos do mar é uma abominação? Ou poderíamos escolher o Deuterónimo que sugere que se apadreje o seu filho se ele se desviar da fé? Ou deveríamos apenas ficar com o Sermão da Montanha? Uma passagem que é tão radical que é de se duvidar que o nosso próprio Departamento de Defesa sobreviveria à sua aplicação. Então, antes de nos empolgarmos, vamos ler as nossas Bíblias agora. As pessoas não têm lido a Bíblia. O que me leva ao 2.º ponto: que a democracia exige que os motivados por uma religião traduzam as suas preocupações em valores universais, ao invés de específicos de uma dada religião. O que é que eu quero dizer com isto? Ela (a democracia) requer que as propostas delas (das religiões) sejam sujeitas a discussão e que passem pelo crivo da razão. Eu posso ser contrário ao aborto por razões religiosas, por exemplo, mas se eu pretendo aprovar uma lei proibindo a prática do aborto, eu não posso recorrer, simplesmente, aos ensinamentos da minha igreja ou invocar a vontade divina; eu tenho que explicar que o aborto viola algum princípio que é acessível a pessoas de todas as fés, incluindo aqueles sem fé alguma.Agora isto vai ser difícil para alguns que acreditam na infalibilidade da Bíblia, como muitos evangélicos acreditam, mas, numa sociedade pluralista, não temos escolha. A política depende da nossa habilidade de nos persuadirmos mutuamente, de objectivos comuns com base numa realidade comum. Ela envolve negociação, a arte do possível. E, nalgum nível fundamental, a religião não permite negociar; é a arte do impossível. Se Deus falou, então espera-se que os seguidores vivam de acordo com os éditos de Deus, a despeito das consequências. Basear a vida de uma pessoa em compromissos tão inegociáveis pode ser sublime, mas basear as nossas decisões políticas em tais compromissos seria algo perigoso. E se duvidam disso, deixem-me dar um exemplo: todos conhecemos a história de Abraão e Isaac. A Abraão Deus ordenou que sacrificasse o seu único filho. Sem discutir ele leva Isaac até ao topo da montanha e amarra-o a um altar. Levanta a sua faca, prepara-se para agir como Deus ordenara. Agora, sabemos que tudo correu bem! Deus enviou um anjo para interceder mesmo no último minuto. Abraão passou no teste de devoção a Deus. Mas é justo dizer que, se qualquer um de nós, ao sair desta igreja, visse Abraão no telhado de um prédio levantando uma faca, iríamos, no mínimo, chamar a polícia, e esperaríamos que o Departamento de Apoio às Crianças e à Família tirasse a custódia de Isaac a Abraão. Nós faríamos isso porque não ouvimos o que Abraão ouve, nós não vemos o que Abraão vê. Então, o melhor que podemos fazer é agir de acordo com aquelas coisas que todos nós vemos e que todos nós ouvimos. A jurisprudência é bom senso básico. Então temos algum trabalho a fazer aqui, mas tenho esperança de que podemos transpor o hiato que existe e superar os preconceitos que todos nós, em maior ou menor grau, trazemos a este debate. E tenho fé que milhões de americanos crentes querem que isso aconteça. Não importa o quão religiosos eles possam ser ou não ser, as pessoas estão cansadas de ver a fé ser utilizada como arma de arremesso. Elas não querem que a fé seja usada para as apoucar ou para as dividir porque, afinal, não é dessa forma que elas vêem a fé nas suas próprias vidas.
Barack Obama
Para quem prefira ver e ouvir no vídeo:
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Cristovam Buarque sobre a internacionalização da Amazónia
Na mesma altura em que as Nações Unidas realizaram o Forum do Milénio, Cristovam Buarque, M.N.E. do Brasil, estava numa conferência organizada por uma Universidade dos EUA, e, questionado por um jovem americano sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia, acrescentando que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro, Cristovam Buarque retorquiu:De facto, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que os nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também a de tudo o mais que tem importância para a humanidade.
Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro...O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não o seu preço. Da mesma forma o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono ou de um país. Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pretencer apenas à França. Cada museu é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar que esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito tempo, um milionário japonês decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Forum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com a sua beleza específica, a sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos dos brasileiros, internacionalizemos também todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de comer e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Conferência Internacional: Media & Desporto
Realiza-se nos próximos dias 22 e 23 de Janeiro uma Conferência Internacional sobre Media e Desporto, organizada pelo Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa, na Sala de Exposições, Edifício da Biblioteca, Palma de Cima, em Lisboa. Todas as informações sobre horários, temas, conferencistas, inscrições, estão disponíveis em http://mediaedesporto.blogspot.com/.
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domingo, 11 de janeiro de 2009
Bertolt Brecht - Dificuldade de Governar
1
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se-ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
2
É também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
3
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
É só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?
Bertolt Brecht (1898-1956)
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Goethe (Judeus, Cristãos, Pagãos...)
«Fora Judeus e Pagãos!» - clama a paciência cristã.
«Maldito o Cristão e o Pagão!» - murmura um barbudo Judeu.
«Os Cristãos ao espeto e os Judeus à fogueira»!
- Canta um Turquinho troçando Cristãos e Judeus.
Qual é o mais esperto? - Decide! Mas se loucos destes
Há no teu palácio, Divindade, eu passo de largo.
J.W.Goethe (1749-1832)
«Maldito o Cristão e o Pagão!» - murmura um barbudo Judeu.
«Os Cristãos ao espeto e os Judeus à fogueira»!
- Canta um Turquinho troçando Cristãos e Judeus.
Qual é o mais esperto? - Decide! Mas se loucos destes
Há no teu palácio, Divindade, eu passo de largo.
J.W.Goethe (1749-1832)
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Novo ano, as mesmas vidas
Enquanto se fazem balanços de anos passados e previsões para anos futuros, continuamos com as nossas duas vidas, a verdadeira e a falsa, dualismo que Fernando Pessoa abordou assim:
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
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Fernando Pessoa
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