sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Aristóteles - inveja, alegria malévola e justa indignação

«A justa indignação, em grego némesis, está entre a inveja, que se entristece ao ver a felicidade alheia, e a alegria malévola, que se regozija com os males de outro. Ambos são sentimentos repreensíveis, e apenas o homem que se indigna com razão deve merecer o nosso elogio. A justa indignação é a dor que se experimenta ao ver a sorte de alguém que não a merece; e o coração que se indigna justamente é o que sente as dores deste género. Reciprocamente, se indigna também ao ver sofrer alguém por uma desgraça não merecida. É isto a justa indignação e a situação daquele que se indigna justamente. O invejoso é o oposto porquanto está sempre pesaroso de ver a prosperidade de outro, quer a mereça ou não. Como o invejoso, o malévolo, que se regozija com o mal, se considera feliz ao ver as desgraças dos outros, sejam estas merecidas ou não. O homem que se indigna em nome da justiça não se parece em nada nem com um nem com outro, e situa-se no meio entre estes dois extremos.»
in La Gran Moral, cap. XXV
(tradução minha)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Muro de Berlim (1961-1989) - 20 anos depois

A construção do muro de Berlim, em 1961 (imagem de baixo) era eu ainda criança, e a sua destruição, em 1989, bem como estes últimos vinte anos, estão de tal maneira documentados e analisados do ponto de vista histórico, político, sociológico, ideológico e até psicológico, que me detenho no pormenor mais importante para mim, o aprofundamento da União Europeia, no seu aspecto político. Sem a queda desse muro não teria sido possível o Tratado de Maastricht, assinado em Fevereiro de 1992 e que entrou em vigor a 1 de Novembro de 1993, e que constituíu como que uma refundação do projecto Europeu iniciado com o Tratado de Roma.



domingo, 8 de novembro de 2009

Como está "o caso mental português", hoje?

«Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria "provincianismo". Como todas as definições simples esta, que é muito simples, precisa, depois de feita, de uma explicação complexa.
Darei essa explicação em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto é, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer país, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer país entende-se, sem dúvida, a mentalidade das três camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental - a camada baixa, a que é uso chamar povo; a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás, que sejam sempre erradas. Por natureza, forma o povo um bloco, onde não há mentalmente indivíduos; e o pensamento é individual.
O que caracteriza a segunda camada que não é a burguesia, é a capacidade de reflectir, porém, sem ideias próprias; de criticar, porém com ideias de outrem. Na classe média mental, o indivíduo, que mentalmente já existe, sabe já escolher - por ideias e não por instinto - entre duas ideias ou doutrinas que lhe apresentem; não sabe, porém, contrapor a ambas uma terceira, que seja própria. Quando, aqui e ali, neste ou naquele, fica uma opinião média entre duas doutrinas, isso não representa um cuidado crítico, mas uma hesitação mental.
O que caracteriza a terceira camada, o escol, é, como é de ver por contraste com as outras duas, a capacidade de criticar com ideias próprias. Importa, porém, notar que essas ideias próprias podem não ser fundamentais. O indivíduo do escol pode, por exemplo, aceitar inteiramente uma doutrina alheia; aceita-a, porém, criticamente, e, quando a defende, defende-a com argumentos seus - os que o levaram a aceitá-la - e não, como fará o mental da classe média, com os argumentos originais dos criadores ou expositores dessas doutrinas.
Esta divisão em camadas mentais, embora coincida em parte com a divisão em camadas sociais - económicas ou outras -, não se ajusta exactamente a essa. Muita gente das aristocracias de história e de dinheiro pertence mentalmente ao povo. Bastantes operários, sobretudo das cidades, pertencem à classe média mental. Um homem de génio ou de talento, ainda que nascido de camponeses, pertence de nascença ao escol.
Quando, portanto, digo que a palavra "provincianismo" define, sem outra que a condicione, o estado mental presente do povo português, digo que essa palavra "provincianismo" define a mentalidade do povo português em todas as três camadas que a compõem. Como, porém, a primeira e a segunda camadas mentais não podem por natureza ser superiores ao escol, basta que eu prove o provincianismo do nosso escol presente, para que fique provado o provincianismo mental da generalidade da nação.» (...)
Fernando Pessoa, «O caso mental português» (1932), in O Rosto e as Máscaras, Antologia organizada por David Mourão-Ferreira, Ática, Lisboa, 1979, pp 170-172

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A investigação científica vai bem e recomenda-se

A cientista portuguesa Mónica Bettencourt Dias foi ontem incluída na lista anual dos mais talentosos jovens cientistas da Europa, distinção atribuída pela Organização Europeia de Biologia Molecular (EMBO).
Mónica Bettencourt Dias é licenciada em Bioquímica pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e fez o seu doutoramento em Biologia Celular no University College of London.
Esta investigadora dirige o Laboratório de Regulação do Ciclo Celular do Instituto Gulbenkian de Ciência.
Alguém viu esta notícia com o devido destaque nos jornais e telejornais?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss (1908-2009)

Creio que a melhor maneira de homenagear Claude Lévi-Strauss é ler ou reler a sua obra. Ele que dizia "não se interessar senão pelo que já não existe", deixou nos seus livros não só o seu pensamento como filósofo, que também foi, mas todos os seus estudos nas áreas da Antropologia, da Etnologia e da Mitologia, sobre o que, de facto, já não existe.
Da sua obra destaco:
Les Structures Elémentaires de la Pensée, 1949
Tristes Tropiques, 1955 (imagem em baixo)
Anthropologie Structurale, 1958
Mythologiques, 1964-1971, 4 volumes


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Jorge de Sena - 90.º aniversário (1919-1978)


Madrugada

Há que deixar no mundo as ervas e a tristeza,
e ao lume de águas o rancor da vida.
Levar connosco mortos o desejo
e o senso de existir que penetrando
além dos lobos sob as águas fundas
hão-de ser verdes como a velha esperança
nos prados de amargura já floridos.

Deixar no mundo as árvores erguidas,
e da tremente carne as vãs cavernas
aos outros destinados e às montanhas
que a neve cobrirá de álgida ausência.
Levar connosco em ossos que resistam
não sabemos o quê de paz tranquila.

E ao lume de águas o rancor da vida.
(4/9/1972)
Obras de Jorge de Sena, Poesia-III, pp. 207/8, Edições 70, 1989

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Restolhar para quê?

É esta pergunta que me tenho feito, e enquanto a reflexão vai e vem, a caneta não escreve (eu sou uma pessoa de rascunhos). Já o Direito e Avesso tem andado num frenesi delicioso, o que também pode ter contribuído para me alhear das minudências do quotidiano, tanto do país como da União Europeia, que mais parecem o mar da tranquilidade. Num, enquanto se espera pelo debate do Orçamento do Estado, na outra, enquanto se conferencia até à exaustão para escolher a personalidade que irá ocupar o cargo que poderemos designar como "Ministro das Relações Exteriores da União Europeia", isto, se pertencer à "família política" certa, porque aqui não interessa tanto o perfil ou a competência da pessoa, mas a área ideológica, o que, para uma independente, não faz sentido nenhum. E tudo isto só será possível se o Presidente da República Checa assinar o Tratado de Lisboa, o que só fará quando também lhe forem concedidas cláusulas de exclusão em determinados temas à semelhança do Reino Unido e da Polónia.
Quanto à preparação para a Conferência de Copenhaga sobre as alterações climáticas, lá chegaram a acordo quanto ao valor que a União Europeia deverá disponibilizar para ajudar os países mais pobres a atingir as metas necessárias para combater as alterações climáticas, e que é de 20.000 milhões de euros para o período de 2013 a 2020 (100.000 milhões a nível global), tendo como único critério de comparticipação a riqueza per capita de cada país da União, e que não poderia ser de outro modo, pois, como em tudo, cada um dá consoante as suas possibilidades.
(imagem: quadro de Picasso)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O Ambiente na Encruzilhada. Por um futuro sustentável - Conferência Gulbenkian 2009

Nos próximos dias 27 e 28 de Outubro, entre as 9.00h e as 18.00h, no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, com entrada livre, realizar-se-à uma conferência internacional sobre o tema em título, que poderá ser acompanhada em directo "online" em http://live.fccn.pt/fcg/.
Dia 27:
9.30h - As alterações climáticas como força decisiva de mudança global, por David King, Director da Smith School for Enterprise and the Environment, Oxford.
14.30 - O estado do ambiente e as suas dimensões sociais. Moderador: George Polk, Soros Climate Fund Management, Londres.
- Terá a biodiversidade futuro?, por Miguel B. Araújo, Universidade de Évora.
- O imperativo ético da sustentabilidade na gestão da água, por Pedro Arrojo-Agudo, Universidade de Saragoça.
- A crise do ambiente e o futuro da agricultura, por José Lima Santos, Universidade Técnica de Lisboa.
17.00h - Programa Gulbenkian "Próximo Futuro", Presidente: António Pinto Ribeiro
- A felicidade na sociedade de hiperconsumo, por Gilles Lipovetsky, Universidade de Grenoble.
Dia 28:
9.30h - O estado do ambiente e as suas dimensões económicas. Moderadora: Susana Fonseca, Quercus.
- A Europa, Os E.U.A. e a China depois da crise: à procura de novos modelos de crescimento sustentável?, por Allan Larson, Universidade de Lund, Suécia.
- Os cidadãos como actores do desenvolvimento sustentável, por Malini Mehra, Directora-Executiva do Centre for Social Markets, Delhi.
- O mercado de emissões e o futuro da economia do carbono, por Pedro Martins Barata, Centre for Clean Air Policy, Washington.
11.30h - Definindo um rumo para o futuro dos oceanos: a situação actual e as perspectivas futuras, por Julie Packard, Directora-Executiva do Monterey Bay Aquarium.
14.30h - A governança para o desenvolvimento sustentável: uma perspectiva, por Nitin Desai, Ex-Subsecretário-Geral das Nações Unidas, Distinguished Fellow, The Energy & Resources Institute, Índia.
- Alterações climáticas: a perspectiva Europeia, por Alex Ellis, Embaixador do Reino Unido em Portugal.
- Uma nova política de sustentabilidade com a Administração Obama: progressos e obstáculos, por Miranda Schreurs, Environmental Policy Research Centre, Freie Universität, Berlim.
17.00h - Será possível um futuro sustentável?, por Jonathan Porritt, Presidente do Forum for the Future, Londres.
18.00h - Encerramento por Viriato Soromenho-Marques, Coordenador Científico do Programa Gulbenkian Ambiente.
Nota: todas as intervenções estão disponíveis em pdf no endereço acima da Fundação Calouste Gulbenkian, Agenda, Eventos.

sábado, 24 de outubro de 2009

Esse blog é VIP

O Miguel Coelho (T.Mike) do blogue Vermelho Côr de Alface e a Manuela Araújo do blogue Sustentabilidade É Acção, distinguiram o Restolhando com o selo "esse blog é VIP - just perfect!", que muito agradeço e é também uma honra considerarem que "your blog is just perfect to learn something every day".
É com muito prazer que o atribuo aos seguintes blogues:
Sustentabilidade É Acção (because your blog is just perfect to learn something every day)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Blog Action Day 2009 - Climate Change

O dia 15 de Outubro foi escolhido, a nível mundial, como o dia em que os autores de blogues são desafiados pela organização Blog Action Day a abordarem o problema das alterações climáticas que já se fazem notar no nosso Planeta, e para as quais têm contribuído as mais diversas actividades humanas, como os excessos no abate de árvores nas florestas tropicais, reduzindo assim a nossa fonte de oxigénio, bem como o problema da emissão de gases poluentes para a atmosfera, entre outras.
No próximo mês de Dezembro, este assunto será debatido em Copenhaga, numa cimeira internacional, e é bom que saibam que todos os bloguistas estarão atentos ao que lá se vai passar e às resoluções que venham a ser tomadas no sentido de se retroceder no processo de degradação do meio-ambiente que tem tido como consequência a alteração do clima.
Para nos lembrarmos do tempo em que havia estações do ano definidas, aqui fica um poema de Alberto Caeiro (F.Pessoa):
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno -
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar -
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma totalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito com os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o Mundo.

De «POEMAS INCONJUNTOS», Fernando Pessoa/Alberto Caeiro, 1917

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Fernando Pessoa - citação

«O governo do mundo começa em nós mesmos. Não são os sinceros que governam o mundo, mas também não são os insinceros. São os que fabricam em si uma sinceridade real por meios artificiais e automáticos; essa sinceridade constitui a sua força, e é ela que irradia para a sinceridade menos falsa dos outros. Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista. Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir.»
in Livro do Desassossego (275), Fernando Pessoa/Bernardo Soares

domingo, 11 de outubro de 2009

Autárquicas manchadas de sangue

Não sei o que é mais perturbador, se o assassinato hoje do marido da Presidente da Junta de Freguesia de Ermelo, Distrito de Vila Real, Glória Nunes, numa assembleia de voto de Fervença, se o facto de eu não me admirar que coisas destas aconteçam.
Se parece haver uma ideia generalizada de uma certa aversão à "classe política" a nível nacional, essa ideia aparece difusa, sem um rosto-alvo, ou porque quem está no poder não pode agir de outro modo por razões conjunturais, ou porque tem directivas da União Europeia a cumprir.
A nível local, os ódios são diferentes, são concretos, têm rosto, são ódios de pessoa a pessoa, pessoas que se conhecem melhor umas às outras e, por isso mesmo, as melhores ideias políticas para a localidade não são importantes mas sim as empatias ou os ódios pessoais.
A nível ainda mais micro, que é a gestão de um condomínio, já tive a experiência de me pedirem para aceitar a administração em anos em que não me competia (cabia-me de 10 em 10 anos), ou porque havia obras a fazer que implicavam quotas extraordinárias, ou porque havia assuntos delicados a tratar, designadamente em Tribunal, e, segundo os outros condóminos, eu era a única pessoa com experiência do cargo que não tinha relações cortadas com ninguém. Então, nesses anos, passei horas em reuniões com uns e outros, em mediação contínua de conflitos pessoais, e tive oportunidade de ver nos olhos e nas palavras de uns e outros esse tal ódio que se encontra em pessoas mesquinhas, e que é totalmente incompreensível. Também aí, e face ao exposto, só faltou que alguém tivesse perdido a cabeça como hoje aconteceu ao candidato António Cunha. Depois da minha tarefa concluída, houve ainda um que me disse: "depois do trabalho que a senhora fez, todos os que vierem a seguir na gestão do condomínio vão parecer incompetentes". Dadas as circunstâncias, nem vi nisto um elogio, e quanto aos que viessem a seguir seriam sempre incompetentes ao nível das relações humanas civilizadas.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Um Nobel da Paz prospectivo?

Depois de ontem ter ficado muito satisfeita por ter sido premiada a qualidade literária e humana em vez da quantidade e da vaidade e, por isso, o Prémio Nobel da Literatura ter sido muito bem entregue a Herta Müller, estou, no entanto, ainda incrédula com a escolha de Barack Obama para o Prémio Nobel da Paz, que a Academia do Nobel reservava para distinguir pessoas ou organizações que lutaram, por vezes vidas inteiras, pela paz, através dos mais diversos caminhos, o que não é o caso de Obama, por enquanto.
Assim, só posso entender a atribuição deste prémio, não pelo que fez mas pelo que se espera que venha a fazer, e isso não é justo para quem está no terreno todos os dias, colocando a vida em risco, e já com trabalho feito e provas dadas ao longo de décadas, enquanto Obama lutou na última década pelas suas ideias e na preparação da sua ascenção política apenas e só nos E.U.A., ou seja, por uma sociedade mais justa para os seus concidadãos.
Quanto à melhoria das relações com o Irão e a Rússia, os entendimentos para a diminuição do armamento nuclear, a estabilização do Iraque ou do Afeganistão, a preservação da natureza, etc., são assuntos tão recentes para Obama como recente é a sua eleição como Presidente dos E.U.A.
A não ser que o Prémio Nobel da Paz já não sirva para destacar acções mas apenas intenções, e isso é absurdo.
(fotos: Obama e Herta Müller)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A velocidade como abstracção

«Para sentir a delícia e o terror da velocidade não preciso de automóveis velozes nem de comboios expressos. Basta-me um carro eléctrico e a espantosa faculdade de abstracção que tenho e cultivo.
Num carro eléctrico em marcha, eu sei, por uma atitude constante e instantânea de análise, separar a ideia de carro da ideia de velocidade, separá-las de todo, até serem coisas-reais diversas. Depois, posso sentir-me seguindo não dentro do carro mas dentro da Mera-Velocidade dele. E, cansado, se acaso quero o delírio da velocidade enorme, posso transportar a ideia para o Puro Imitar da Velocidade e a meu bom prazer aumentá-la ou diminuí-la, alargá-la para além de todas as velocidades possíveis de veículos comboios.
Correr riscos reais, além de me apavorar, não é por medo que eu sinta excessivamente - perturba-me a perfeita atenção às minhas sensações, o que me incomoda e me despersonaliza.
Nunca vou para onde há risco. Tenho medo a tédio dos perigos.
Um poente é um fenómeno intelectual.»
Fernando Pessoa/Bernardo Soares, Livro do Desassossego (75)
Nota: Na eventualidade de não se concretizar o projecto do Comboio de Alta Velocidade, podemos sempre fazer este exercício como Fernando Pessoa.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

República Portuguesa - 99 anos

«Sabes o que é a História? uma mulher sombria,
Giganta colossal que anda de noite e dia
A cavar sobre o chão dos vastos cemitérios,
Tirando do sepulcro a ossada dos impérios,
Erguendo panteões e derrocando altares.
Rasgam-se terra e céu, abrem-se os grandes mares.
E então não há fugir. A História vai achar
A alma do infame ao céu, à terra, ao mar,
Onde quer que ela durma, onde quer que ela esteja;
Não reconhece reis, nem reconhece igreja,
Reconhece a justiça, o grande dogma austero.
Glorifica Jesus e cospe sobre Nero.»

Guerra Junqueiro

domingo, 4 de outubro de 2009

"TÁ" Irlanda!

Porque é que a maioria dos irlandeses disse sim ao Tratado de Lisboa, um ano depois de dizer não? Os próprios irlandeses o justificam quando isso lhes foi perguntado.
Resposta de um irlandês: As pessoas que defendem o não, dizem não a tudo sem mostrar ou apontar alternativas. Durante este ano tivemos tempo para nos apercebermos disso e não confundir agora descontentamentos internos com o governo e assuntos da União Europeia.
Resposta de uma irlandesa: Quem vota não, que mensagem dá a outros países que queiram aderir à União Europeia? Que não o podem fazer porque são inferiores a nós, que não somos todos iguais?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O que diz Maquiavel

Nestes tempos de "trovoada institucional", recorri de novo ao livro O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, para esclarecimento sobre a natureza humana, designadamente de governantes e governados e das relações entre uns e outros, e encontrei algo interessante no capítulo XVIII, com o título:
Como os príncipes devem honrar a sua palavra
(Quomodo fides a principibus sit servanda)
«Todos concordam que é muito louvável um príncipe respeitar a sua palavra e viver com integridade, sem astúcias nem embustes. Contudo, a experiência do nosso tempo mostra-nos que se tornaram grandes príncipes os que não ligaram muita importância à fé dada e que souberam cativar, pela manha, o espírito dos homens e, no fim, ultrapassar aqueles que se basearam na lealdade.
Convém saber que existem duas maneiras de combater: pelas leis e pela força. A primeira é própria dos homens; a segunda é própria dos animais. Mas como, muitas vezes, aquela não chega, há que recorrer a esta, e, por isso, o príncipe precisa de saber ser animal e homem. Esta regra foi ensinada aos príncipes, em palavras veladas, pelos antigos autores que escreveram como Aquiles, e vários outros grandes senhores do tempo passado foram confiados ao centauro Quíron, para os educar sob a sua disciplina. Ter, assim, por preceptor um ser meio animal, meio homem, só significa que um príncipe precisa de saber utilizar uma e outra natureza e que uma sem a outra não é durável. Já que um príncipe deve saber utilizar bem a natureza animal, convém que escolha a raposa e o leão: como o leão não se sabe defender das armadilhas e a raposa não se sabe defender dos lobos, é necessário ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para meter medo aos lobos. Os que querem fazer apenas de leão não percebem nada do assunto. Por conseguinte, o senhor sensato não pode respeitar a fé dada se essa observância o prejudica e se as causas que o levaram a fazer promessas deixaram de existir. Se os homens fossem todos gente de bem, o meu preceito seria nulo, mas, como são maus e não respeitariam a palavra que te dessem, se não lhes conviesse, também não és obrigado a respeitar a que lhes deres. Nunca faltaram a um príncipe pretextos legítimos para justificar a sua falta de palavra, e seriam infinitos os exemplos, do tempo presente, demonstrativos de quantas pazes, quantas promessas, foram feitas em vão e reduzidas a nada pela infidelidade dos príncipes, e demonstrativos também de que as coisas correram melhor aos que melhor souberam representar o papel de raposa. Mas é indispensável saber ocultar este pendor, disfarçá-lo bem. Os homens são tão simples e tão obedientes às necessidades do momento, que quem engana encontra sempre quem se deixe enganar.
Há um exemplo, entre os novos, que não quero deixar de referir. Alexandre VI nunca fez outra coisa senão intrujar o mundo, nunca pensou noutra coisa, e encontrou sempre quem se deixasse enganar. Jamais existiu homem que desse garantias com tanta eficácia e que afirmasse uma coisa com tão grandes juramentos, mas que menos os respeitasse. No entanto, conhecia tão bem a matéria que os seus embustes resultavam sempre ad votum. Um príncipe não precisa, consequentemente, de ter todas as qualidades enumeradas, mas convém que pareça que as tem. Atrever-me-ei, até, a dizer que, se as tem e as respeita sempre, o prejudicam. Mas, se fingir bem que as tem, ser-lhe-ão proveitosas, assim como lhe será proveitoso fingir-se compassivo, fiel, humano, íntegro e religioso - e sê-lo, mas na condição de, se convier não o ser, saber e poder agir ao contrário. Convém também notar que um príncipe, sobretudo quando é novo, não pode respeitar singelamente todas as condições segundo as quais se é considerado homem de bem, pois, não raro, para conservar os seus Estados, se vê constrangido a agir contra a sua palavra, contra a caridade, a humanidade e a religião. É por isso que deve ter o entendimento treinado para virar conforme os ventos da fortuna e a mutabilidade das coisas lhe ordenem, e, como já disse, não se afastar do bem, se puder, mas enveredar pelo mal, se for necessário.
O príncipe deve ter o cuidado de evitar que lhe saiam da boca palavras que não possuam as cinco qualidades que mencionei atrás e de parecer, a quem o veja e ouça, todo misericórdia, todo fidelidade, todo integridade, todo religião. Não há, aliás, nada tão necessário como parecer possuir a última virtude. Os homens, em geral, julgam mais com os olhos do que com as mãos, porque todos podem ver facilmente, mas poucos podem sentir. Todos vêem bem o que pareces, mas poucos têm o sentimento do que és - e estes poucos não ousam contradizer a opinião da maioria, que tem do seu lado a majestade do Estado que os sustenta. Para avaliar as acções de todos os homens, e sobretudo as dos príncipes (pois neste caso não se pode apelar para outro juiz), mede-se o êxito. Se um príncipe tiver o propósito de vencer e de manter o Estado, os meios empregados serão sempre tidos por honrosos e louvados por todos, pois o vulgo só julga pelo que vê e pelos resultados. Ora, neste mundo só existe o vulgo, e a minoria não conta quando a maioria tem em que se apoiar.»(..)
(sublinhados meus)

Cavaquês


.
Alguém tem um descodificador de cavaquês?

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A "lavoura" agradece

O "pessoal da lavoura" está, concerteza, muito feliz com os vinte e um deputados eleitos pelo CDS-PP de Paulo Portas, que se vai esfalfar a defender e a proteger os pequenos e médios agricultores portugueses, além de ter conseguido atingir a meta desejada que lhe permitirá, quem sabe, vir a ser um partido charneira na vigência do próximo Governo da República. E como é mais que provável que o futuro Ministro da Agricultura não seja Jaime Silva (Paulo Portas rebentaria de raiva), foi a foto deste homem charmoso que escolhi para este postal, à laia de despedida.

Amizade Internauta


A Manuela Araújo do blogue Sustentabilidade é Acção distinguiu-me com o selo Amizade Internauta, que tem como objectivo premiar autores de blogues que visitam e contribuem com comentários interessantes no Sustentabilidade é Acção e, ao mesmo tempo, demonstrem ser pessoas de acção mais do que de palavras no que respeita à sustentabilidade do planeta, distinção que muito agradeço.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Vox Populi

Hoje fui entregar uns livros à Biblioteca e resolvi passar pela livraria e, enquanto via os livros expostos na montra, numa mesa da esplanada do café ao lado, uma senhora dizia para outra: «Prefiro uma democracia musculada a uma parvoíce pegada». Como ouvimos, lemos e até escrevemos parvoíces, mesmo fora das campanhas eleitorais, pensei apenas que a senhora era dada a rimas. Mas quando a interlocutora lhe perguntou: «Então o seu voto vai para Manuela Ferreira Leite, não?». Vi que a senhora começou a mudar de cor, a abanar-se com um leque (e eu olhava para os livros mas já não os via, tal o interesse em ouvir a resposta à pergunta, causa daquela agonia) e ela disse por fim: «Nessa senhora? O meu netinho mais novo, assim que a vê na televisão, corre a esconder-se debaixo da mesa ou detrás da porta, tal é o medo que tem dela! Como é que eu ía fazer uma coisa dessas à criança?! Ele não entende nada de política, mas reage assim quando lhe fazem cara de poucos amigos, que ele entende como ameaçadores à sua integridade física. Já conversei com ele, para o acalmar, mas é mais forte do que ele e a reacção é sempre a mesma. É bem possível que consulte um psicólogo.» Entrei na livraria, a sorrir, para sair pouco depois com mais alguns livros e alguma fome, era hora de almoço.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Senhor Presidente, continuo à espera de ouvir o que tem para dizer

Não querendo ir pelo ditado simplista "diz-me com quem andas dir-te-ei quem és", convenhamos que Cavaco Silva é um fraco avaliador do caracter das pessoas, mesmo que com elas conviva dezenas de anos. E é também teimoso nas suas apreciações, prolongando no tempo situações insustentáveis, porque confia na palavra das pessoas que escolheu, mesmo quando a realidade dos factos lhe demonstra o contrário, porque as considera suas amigas e, num mundo ideal, um amigo não mente nem trai.
Mas não vivemos num mundo ideal e também não parece sensato confundir a amizade com a capacidade para desempenhar qualquer função. Aos amigos somos capazes de desculpar se nos decepcionam, e só nós somos atingidos. No caso de desempenharmos cargos públicos e políticos, os erros desses amigos que escolhemos não nos atingem apenas a nós mas a um país inteiro, aumentando o grau de desconfiança numa ou em várias classes profissionais.
Senhor Presidente da República estou à espera que diga de sua justiça, quer resigne ou não resigne. Pessoalmente, a primeira hipótese não me incomoda, mesmo com eleições no próximo Domingo, porque a Constituição prevê todas estas situações e "o poder não cairá na rua". Além disso, é ao governo que compete a gestão diária da res publica, não ao Presidente.
(na imagem: Cavaco Silva e Fernando Lima, assessor para a comunicação social demitido ontem)

sábado, 19 de setembro de 2009

Rogério Santos - citação (jornalistas e fontes)

«Jornalistas e fontes de informação têm interesses específicos. A fonte noticiosa, através de informação, contra-informação, lóbis e fugas de informação, pretende "conduzir" o jornalista a um objectivo definido - publicitar as suas realizações. Os jornalistas, que investigam, seleccionam e produzem informação têm critérios pessoais e sociais, com rotinas de trabalho e normas profissionais que os regem, para validar ou não a publicitação dos acontecimentos organizados pelas fontes de informação.» (...)
«As fontes de menores recursos apostam na intriga, desvendam as rivalidades de organizações maiores e adequam-se às necessidades dos jornalistas (rapidez nas respostas, enquadramentos noticiosos). Com frequência, as fontes rivais saem do interior de organizações e, através de fugas de informação ou balões de ensaio, boicotam os projectos das organizações a que pertencem. Graças a redes de contactos informais com jornalistas, há uma significativa porosidade nas estruturas das organizações, o que as vulnerabiliza. Uma multiplicidade de interesses - que, no extremo, leva a que qualquer pessoa possa ser fonte de informação - serve os objectivos dos jornalistas, que procuram novas notícias sem cessar.» (...)
«Muitas delas, que trabalham e fornecem informação empacotada, destinada a consumo jornalístico, mostram uma componente proactiva indispensável para a sua colocação nas notícias. A estratégia seguida pela fonte é fazer chegar aos jornalistas informação julgada útil para a sua organização. Apesar de as regras habituais indicarem que as fontes devem prestar informação correcta, muitas vezes trabalham com dados falsos, produzem fugas de informação e lançam "balões de ensaio", na tentativa de antecipar resultados ou previsões e estudar reacções de adversários ou de um grupo social completo.» (...)
«O jornalista aceita melhor as fontes oficiais, categoria fundamental nas notícias. Estas nem sempre dão a resposta pretendida, de imediato. Primeiro, porque há que ponderar a altura certa para divulgar a resposta. Segundo, porque não se tem a certeza total da eficácia da informação e se espera que outros agentes se pronunciem sobre o assunto. Terceiro, porque à fonte oficial nem todos os jornalistas ou meios noticiosos interessam. A escolha destes é feita com critério, tendo em conta o prestígio do jornalista ou do jornal.
À fonte oficial interessa que corra tudo bem; por isso, preocupa-se com a escolha do meio noticioso e do jornalista, fornece a informação de acordo com os seus objectivos, faz um acompanhamento da acção, está atenta ao que se passa em volta. Com frequência, os jornalistas operam mais no domínio da obtenção de declarações e opiniões de fontes poderosas e interessadas na sua divulgação e menos na busca de factos novos e correlação com outros factos (Wemans, 1999:66). Outras vezes, ficam-se pelas expressões "tentámos apurar sem êxito", "a fonte não quis revelar", "a fonte preferiu não adiantar", o que encobre dificuldades dos jornalistas em obter a informação necessária» (...)
«Por seu lado, as fontes não oficiais (associações, empresas de menor dimensão, grupos cívicos, organizações não-governamentais) lutam pela divulgação dos seus acontecimentos.»(...)
«As empresas poderosas têm maior capacidade de controlar os seus contactos com o exterior, ao criarem barreiras formais e informais que inibem qualquer representante de falar abertamente dos problemas internos da organização. Além disso, as organizações de estruturas mais frágeis - como sindicatos, associações ambientais, de saúde ou de apoio social -, de estruturas abertas e com níveis hierárquicos fracos revelam mais facilmente as dissensões e os problemas internos.»
in A fonte não quis revelar, pp. 32, 35/6, 75, 77/8/9