sábado, 21 de agosto de 2010

Todos diferentes, todos diferentes - texto de Rodrigo Tavares

Quando nos questionamos sobre o destaque que algumas notícias e eventos têm e outros que se nos apresentam como de importância igual ou superior são omitidos, talvez este texto de Rodrigo Tavares, Todos diferentes, todos diferentes, publicado na passada quinta-feira na Visão, nos ajude a reflectir sobre as causas para que tal aconteça. Só é pena estar escrito num arremedo de português.

Rodrigo Tavares
11:53 Quinta feira, 19 de Ago de 2010

Quem lê diariamente vários jornais internacionais deteta com facilidade que são poucas as variações no texto. As manchetes são iguais no Japão ou na Islândia. Os românticos do jornalismo interventivo e empírico, como Ryszard Kapuscinski, deram lugar às agências internacionais. As notícias deram lugar aos press-releases. A informação que nos chega é muitas vezes granítica, fechada, e unilateral.
Isto tem várias consequências perniciosas. Como são poucos os produtores de notícias, existe uma tendência para dar prioridade aos mesmos assuntos. A agenda é monopolizada pelas mesmas vontades. A notícia de um avião que se despenhe no Botswana terá mais relevância no vizinho Zimbabué do que no Equador. Faz sentido. Mas porque é que um derramamento de petróleo no Golfo do México, nos EUA, tem que algemar as notícias ao longo dos últimos meses, enquanto um derramamento de petróleo no Delta do Níger, na Nigéria, é ignorado? O primeiro durou 4 meses e afetou algumas centenas de pessoas, o segundo, dura silenciosamente há 50 anos e afeta milhões.
Ao mesmo tempo que começamos a sentir um impulso pela nacionalização do outro, pela vontade de extravasarmos o nosso reduto cultural, são as notícias que ditam quem tem valor e quem não tem. Elas são os novos juízes do purgatório. Um africano tem menos valor do que um europeu. Um asiático tem menos valor do que um americano. Enquanto escrevo, as cheias no Paquistão já afetaram 20 milhões de pessoas. É a maior catástrofe do género. Mas a cobertura jornalística é incomparavelmente inferior às cheias em Nova Orleães em 2005.
Talvez o melhor exemplo do desequilíbrio na agenda da imprensa internacional seja o conflito israelo-palestiniano. Basta alguém lançar um cocktail molotov em Telavive para ser destaque a nível mundial. Mas todos os dias morrem centenas de pessoas em outros conflitos sem qualquer cobertura mediática. Como me disse um dia ao almoço, de forma sarcástica, um premiado correspondente de guerra indiano, a única razão porque ainda não há paz no Médio Oriente é porque demasiados jornalistas estão acreditados na região. Telavive é a segunda cidade do mundo com maior número de jornalistas estrangeiros (depois de Washington). E existe uma forte pressão para transformar "eventos" (mesmo que irrelevantes) em "notícias". Nas eleições palestinianas de 2006, testemunhei jornalistas estrangeiros manipulando crianças de forma a industrializar manchetes. Eu não descuro a complexidade do conflito no Médio Oriente. Mas é interessante reparar que esse conflito causa menos vítimas anuais do que os acidentes de viação em Portugal. A narrativa do conflito, alimentada pelas agências de notícias, torna irracional a nossa perceção da realidade.
Os desequilíbrios dos media também afetam a agenda política e humanitária. A disponibilidade de um país em ajudar uma nação atingida por uma catástrofe natural é proporcional à pressão mediática para o fazer. O problema é que as agências de notícias movem-se, muitas vezes, por interesses comerciais. Mas os estados é suposto regerem-se por outro tipo de princípios. É por isso importante estar atento à exceção, ao inoportuno, à alternativa. É aí que reside o novo jornalismo. E a nova política.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Dia Mundial da Ajuda Humanitária

No ano passado, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), proclamou o dia 19 de Agosto como Dia Mundial da Ajuda Humanitária para assinalar o ataque de 19 de Agosto de 2003 contra o Hotel Canal em Bagdade, o qual causou a morte a 22 membros do pessoal das Nações Unidas, incluindo o então chefe da sua missão no Iraque, Sérgio Vieira de Mello, e fez mais de 150 feridos.
Em 2009 foram mortos, sequestrados ou gravemente feridos, em consequência de ataques, 260 trabalhadores humanitários, o número mais elevado de sempre e, quando se fizerem as contas no final deste ano, certamente que o número continuará a ser inaceitável tanto para quem ajuda como para quem é ajudado,  já que os ataques, suicidas ou não, continuam a verificar-se quase todos os dias, quer no Iraque, quer no Afeganistão onde ontem, num  ataque suicida em Cabul, foram mortos dois funcionários afegãos da ONU juntamente com outras sete pessoas.
Sendo os trabalhadores humanitários também veículos de conhecimento, designadamente sobre os direitos humanos fundamentais, têm vindo a tornar-se, também por isso, em alvos a abater quando tentam ajudar em sociedades em que os cidadãos não têm quaisquer direitos.
Homenageio assim todos os trabalhadores humanitários, os que continuam no terreno e os que deram a vida tentando melhorar a vida dos outros.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Black Eyed Peas - Where is the love?

Publiquei há algum tempo no Fb mas ainda não tinha publicado aqui esta interessante canção-manifesto:

quinta-feira, 29 de julho de 2010

As contradições da UE sobre OGM - Não se cultivam, importam-se!

Numa reunião, no final do mês de Junho, os Ministros da Agricultura dos 27 Estados membros da União Europeia (UE) não conseguiram uma maioria de votos nem a favor nem contra a importação de seis espécies de milho geneticamente modificado (OGM) para alimentação humana e animal, o que, segundo os regulamentos da UE, impõe que seja a Comissão Europeia a decidir. E esta decidiu pela importação desses produtos, depois de ouvir a Agência Europeia de Segurança Alimentar (AESA ou EFSA) que avaliou positivamente os seis tipos de milho OGM.
Depois de anos de estudos e de lutas e em que se acordou, recentemente, que apenas poderiam ser cultivados na Europa a batata Amflora e o milho MON810, ambos OGM, a Comissão Europeia sai-se com esta autorização de importação de seis espécies de milho OGM e, ainda por cima, a autorização é válida por um período de dez anos!
Esta decisão foi já criticada pela França e pela Alemanha, que se opõem aos OGM, e por entenderem que este passo pode levar, no futuro, à cultura destes produtos na Europa. Tudo o que a Comissão propôs, foi a modificação destes regulamentos, para não ficar com toda a responsabilidade neste tipo de resoluções.
E pergunto eu: do mesmo modo que a Comissão decidiu pelo "sim" à importação destes produtos, não podia ter decidido pelo "não"? Se não havia uma posição maioritária dos Ministros da Agricultura nem para um lado nem para o outro!

Fonte: RFI

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Adesão da Islândia à UE - Sim!, Não!, Talvez...

Quem pensasse que os islandeses não tinham outra saída para a sua própria crise financeira de há um ano senão a adesão à União Europeia (UE), talvez seja tempo de conhecerem um pouco melhor a fibra dos 300.000 habitantes daquela ilha. Aliás, a adesão da Islândia à UE nem implica um processo muito complicado, uma vez que há mais de quinze anos que já participa no mercado comum, faz parte integrante do espaço Shengen de livre circulação de pessoas e aplica quase três quartos das leis que a UE julga necessárias a uma adesão.
Então por que é que a tendência do "sim", que se verificava há um ano, se transformou num "não" para 60% do islandeses questionados agora? É que tiveram oportunidade de ver o modo como a UE lidou com a crise global, em particular a zona euro, tendo a própria crise grega feito com que os islandeses começassem a duvidar da sua fé no euro. Fé essa completamente perdida quando a Grã-Bretanha e a Holanda exigiram aos contribuintes islandeses que indemnizassem os cidadãos britânicos e holandeses afectados pelo naufrágio da Banca islandesa Icesave, o que recusaram através de referendo por 93,3%. E é também este episódio que está na origem do actual "desamor" entre a Islândia e a UE.
Por outro lado, a Islândia tem, neste momento, um governo de coligação entre social-democratas e verdes, sendo os primeiros favoráveis à adesão e os segundos nem por isso. Assim, a maioria no Parlamento está de acordo com a continuação das negociações mas não sobre a adesão, o que torna a posição da primeira-ministra social-democrata Johanna Sigurdardottir, muito delicada.

Na foto: Johanna Sigurdardottir
Fonte: RFI

domingo, 25 de julho de 2010

Acessibilidade para todos = Inclusão

Com um dia de atraso, por motivos de força maior, junto-me à comunidade BloggersUnite no sentido de chamar a atenção para o muito que ainda há a fazer na educação para a cidadania, neste caso concreto para que se respeitem os direitos dos cidadãos com deficiência, permanente ou temporária, e cada um de nós não está livre de passar por essa experiência.
Como é habitual, a legislação portuguesa é boa, também nesta matéria, mas o seu problema é sempre o da sua implementação no terreno, e é aí, no dia-a-dia, que as pessoas com mobilidade reduzida, quer seja em cadeiras de rodas, com o auxílio de canadianas ou de bengala no caso dos invisuais e amblíopes, que a falta de rigor e de medidas expeditas mais se faz sentir, pois qualquer pequeno obstáculo pode representar um perigo ou mesmo algo de intransponível para esses cidadãos.
Por outro lado, o nosso Código da Estrada é já bastante severo no que respeita a coimas para os condutores que estacionem os veículos em cima dos passeios e nos lugares reservados a deficientes, estando sujeitos a reboque além da coima. No entanto, parecem não ser suficientemente dissuasoras desse comportamento de absoluta falta de respeito para com as pessoas com deficiência.
No Concelho onde vivo é com agrado que vejo os passeios rebaixados junto às passadeiras para peões, rampas amplas e com pouca inclinação para acesso a estabelecimentos comerciais, mas também existe ainda um Centro de Saúde com três pisos sem elevador para ninguém, há mais de trinta anos, e que só agora a Autarquia parece ter condições de construir um de raiz adequado à função e para substituir este.
Como não tenho um vídeo que possa ilustrar o que ainda há a fazer nesta matéria no meu Concelho, deixo um vídeo, muito bem feito, com a realidade de Guimarães, e como, nesta matéria, os problemas são todos iguais, e as dificuldades que os cidadãos deficientes enfrentam também, não importa a localidade, o que interessa é chamar a atenção a quem de direito para actuar em conformidade.
A partir do 6.º minuto deste vídeo poderão ver como um homem em cadeira de rodas resolveu ultrapassar o seu obstáculo - um veículo em cima do passeio. Deplorável a falta de civismo de alguns de nós.

domingo, 18 de julho de 2010

Dia Internacional de Nelson Mandela

Se há pessoa que mereça um Dia Internacional, pelo seu exemplo, é Nelson Mandela. E a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu isso mesmo ao decidir instituir este dia, em Novembro de 2009, "pela contribuição do ex-Presidente sul-africano para a cultura da paz e da liberdade", tendo sido o primeiro reconhecimento desse género que a ONU fez a um indivíduo. Por seu lado, o Conselho de Segurança da ONU também reconheceu a dedicação de Mandela "ao serviço da humanidade na resolução de conflitos, relações entre raças, promoção e protecção dos direitos humanos, reconciliação, igualdade entre os sexos e os direitos das crianças e de outros grupos vulneráveis".
E como este dia coincide com a data do seu aniversário de nascimento, que hoje perfaz  92 anos, está duplamente de parabéns, bem como todos os que o admiram e têm a noção de que o mundo seria diferente sem o seu contributo e exemplo.
Happy Birthday and Happy Nelson Mandela's Day, Mr. Nelson Mandela!
Também o contributo dos Simple Minds, que ainda não tinham passado por aqui:

sábado, 17 de julho de 2010

Aristóteles - Da Amizade

«A amizade sincera está no meio-termo entre a adulação e a hostilidade, e mostra-se nos actos e nas palavras. O adulador é o que concede aos outros mais do que convém e mais do que têm. O inimigo é o que nega os dotes evidentes que possui a pessoa de que não gosta. Escusado será dizer que nenhum destes dois caracteres merece elogio. O amigo sincero ocupa o verdadeiro centro; não acrescenta nada às boas qualidades que distinguem aquele de quem se fala, nem o elogia pelas que não tem, mas também não as rebaixa, nem se compraz jamais em contradizer a sua própria opinião. Assim é o amigo».

De La Gran Moral, Capítulo XXIX, 6.ª edición, Espasa-Calpe, S.A., Madrid, 1976
(tradução minha)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Os trabalhadores sazonais e a União Europeia

Para os cerca de cem mil trabalhadores sazonais oriundos de países fora da União Europeia (UE), que anualmente vêm trabalhar principalmente na agricultura e no turismo, a UE está a elaborar um cartão único de permanência e de trabalho, dispositivo que tem como finalidade fixar direitos básicos a esses trabalhadores, o acesso à segurança social e aos regimes de reforma, mas também para os impedir de permanecer na Europa e ocuparem postos de trabalho permanentes.
Para obter uma autorização de trabalho sazonal, o requerente deverá apresentar um contrato ou contrato-promessa de trabalho, que terá a duração máxima de seis meses por ano civil, bem como documentos que deverão explicitar as condições de trabalho, o nível de remuneração e a duração da actividade, no respeito pelas leis do país de acolhimento.
A proposta da UE recomenda aos Estados membros a elaboração de autorizações de permanência de três anos com entradas múltiplas (seis meses por cada ano civil), não se tratando, portanto, de conceder o direito de permanência aos trabalhadores sazonais, e cada país fixará o número de sazonais a acolher e os sectores de actividade respectivos.
Alguns países, como a Alemanha, mostram-se reticentes sobre a adopção de uma tal  directiva que, contudo, terá ainda de ser debatida no Parlamento Europeu e no Conselho dos 27 países da União, antes de entrar em vigor.
Será impressão minha, mas a quantidade de burocracia e de fiscalização que estas medidas bem intencionadas requerem, irão tornar esta directiva, se aprovada, inexequível.

Imagem por: Getty Images/ John Slater
Fonte: RFI

terça-feira, 13 de julho de 2010

Fui um filósofo nos séculos XVIII - XIX

De vez em quando ofereço-me um "fait divers" para manter alguma sanidade mental e não perder a capacidade de me rir de mim mesma.
Como a situação económica e financeira do país, da zona euro e da União Europeia em geral vai prosseguindo na senda do que já escrevi, e falar agora da decisão de hoje da Agência Moody, e da consequente desvalorização do euro, ou das asneiras do governo, seria estar a repetir-me, uma vez que tudo se tem vindo a desenrolar de acordo com o que já intuí (e aqui a "intuição" é a palavra-chave para o que se segue).
Estando a "arrumar" o correio do gmail, reparei numa mensagem de Setembro de 2009 a que, na altura, talvez por falta de tempo ou de disposição, não prestei atenção, mas que arquivei com uma estrelinha, o que quer dizer que ficou a aguardar melhores dias. Esse dia foi hoje e lá fui ver do que tratava o endereço que constava na mesma, e que é, nem mais nem menos, o diagnóstico do que fomos na nossa última incarnação terrena. E sobre mim, diz o seguinte:
"Não sei se lhe parece bem ou não, mas foi um homem na sua última incarnação terrena; nasceu no território que hoje conhecemos como Ucrânia, por volta do ano 1775. A sua profissão era a de filósofo e pensador. Foi uma pessoa tímida, contida, tranquila. Tinha talento criativo, mas que esperou até esta vida para ser libertado. Por vezes, os que o rodeavam consideravam-no uma pessoa estranha.
A lição que a sua vida passada lhe deu para a incarnação actual foi a de que a sua percepção do mundo sempre lhe pareceu, de certo modo, diferente da dos outros. A lição a aprender é que deve confiar na intuição como a sua melhor guia na sua vida actual".
Ora aqui está a intuição que mencionei atrás e que, na falta de formação em Economia e Finanças, me tem permitido avaliar as situações e o seu desfecho com acerto, até agora, e que herdei do tal filósofo que já fui nos séculos XVIII-XIX. Agora já só me falta descobrir quem foi (fui) e qual o contributo que deixou (deixei) para o pensamento contemporâneo. Mas isso parece-me uma tarefa um pouco mais complicada. Vamos ver se o "talento criativo que esperou por esta vida para ser libertado" me serve de alguma coisa nesta demanda. Sou mesmo uma pessoa "estranha", como já escrevi algures :))

domingo, 11 de julho de 2010

Fernando Pessoa/ Bernardo Soares (A ideia de viajar nauseia-me)

A ideia de viajar nauseia-me.
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.
O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vivo só de mexer-se está passando.
Paisagens são repetições. Numa simples viagem de comboio divido-me inútil e angustiadamente entre a inatenção à paisagem e a inatenção ao livro que me entreteria se eu fosse outro. Tenho da vida uma náusea vaga, e o movimento acentua-ma.
Só não há tédio nas paisagens que não existem, nos livros que nunca lerei. A vida, para mim, é uma sonolência que não chega ao cérebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.
Ah, viajem os que não existem! Para quem não é nada, como um rio, o correr deve ser vida. Mas aos que pensam e sentem, aos que estão despertos, a horrorosa histeria dos comboios, dos automóveis, dos navios não os deixa dormir nem acordar.
De qualquer viagem, ainda que pequena, regresso como de um sono cheio de sonhos - uma confusão tórpida, com as sensações coladas umas às outras, bêbado do que vi.
Para o repouso falta-me a saúde da alma. Para o movimento falta-me qualquer coisa que há entre a alma e o corpo; negam-se-me, não os movimentos, mas o desejo de os ter.
Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente demais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo.

De Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, 3.ª edição, Lisboa, 2008, p. 131 (texto 122)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Giorgio Agamben - "Collants Dim"


«No início dos anos setenta podia-se ver nas salas de cinema de Paris um spot publicitário de uma conhecida marca de collants. Nele era apresentado de frente um grupo de raparigas que dançavam juntas. Quem teve a oportunidade de observar, mesmo distraidamente, alguma dessas imagens, dificilmente terá esquecido a especial impressão de sincronia e de dissonância, de confusão e de singularidade, de comunicação e de estranheza que emanava do corpo das dançarinas sorridentes. Esta impressão resultava de um truque: cada rapariga era filmada sozinha e, em seguida, fazia-se a montagem com todas as peças, tendo como fundo uma única banda sonora. Mas deste truque fácil, de calculada assimetria nos movimentos das longas pernas revestidas pela mesma mercadoria barata, de uma diferença mínima nos gestos, exalava para os espectadores uma promessa de felicidade que dizia respeito, inequivocamente, ao corpo humano.
Nos anos vinte, quando o processo capitalista de mercantilização começou a investir na figura humana, observadores de modo nenhum favoráveis ao fenómeno não puderam deixar de destacar nele um aspecto positivo, como se tivessem sido postos perante o texto adulterado de uma profecia que estava para além dos limites do modo de produção capitalista e que se tratava, justamente, de decifrar. Assim nasceram as observações de Kracauer sobre as girls e as de Benjamin sobre a decadência da aura.
A mercantilização do corpo humano, ao mesmo tempo que o sujeitava às leis férreas da massificação e do valor de troca, parecia simultaneamente resgatá-lo do estigma de inefabilidade que o tinha marcado durante milénios. Libertando-se da dupla cadeia do destino biológico e da biografia individual, ele abandonava quer o grito inarticulado do corpo trágico quer o mutismo do corpo cómico e surgia pela primeira vez perfeitamente comunicável, integralmente iluminado. Nos ballets das girls, nas imagens da publicidade, nos desfiles dos manequins, cumpria-se assim o secular processo de emancipação da figura humana dos seus fundamentos teológicos, que já se tinha imposto em escala industrial quando, no início do século XIX, a invenção da litografia e da fotografia tinha encorajado a difusão a bom preço das imagens pornográficas: nem genérico nem individual, nem imagem da divindade nem forma animal, o corpo tornava-se agora verdadeiramente qualquer.
A mercadoria mostrava aqui a sua secreta solidariedade com as antinomias teológicas (que Marx tinha entrevisto). Já que o “à imagem e semelhança” do Génesis, que fazia radicar em Deus a figura humana, vinculava-a, no entanto, deste modo, a um arquétipo invisível e fundava, assim, o conceito paradoxal de uma semelhança absolutamente imaterial. A mercantilização, libertando o corpo do seu modelo teológico, salva-lhe porém a semelhança: qualquer é uma semelhança sem arquétipo, isto é, uma Ideia. Por isso, se a beleza perfeitamente substituível do corpo tecnicizado não tem já nada a ver com o aparecimento de um unicum que, perante Helena, perturba os velhos príncipes troianos, nas portas Ceias, vibra no entanto na beleza de Helena e no corpo tecnicizado algo como uma semelhança (“vendo-a, assemelha-se terrivelmente às deusas imortais”). Daí, também, o desaparecimento da figura humana das artes do nosso tempo e o declínio do retrato: apreender uma unicidade é tarefa do retrato, mas para apreender a “qualqueridade” é necessária a objectiva fotográfica.
Num certo sentido, o processo de emancipação era tão antigo quanto a invenção das artes. Já que, desde o primeiro momento em que uma mão delineou ou esculpiu uma figura humana, estava lá presente, a guiá-la, o sonho de Pigmalião: formar não simplesmente uma imagem para o corpo amado, mas um outro corpo para a imagem, quebrar as barreiras orgânicas que impedem a incondicionada pretensão humana à felicidade. Que se passa hoje, na idade do completo domínio da forma da mercadoria em todos os aspectos da vida social, com a submissa e insensata promessa de felicidade que vinha ao nosso encontro, na penumbra das salas cinematográficas, através das raparigas enfiadas nos collants Dim? Nunca como hoje o corpo humano – sobretudo o feminino – foi tão maciçamente manipulado e, por assim dizer, imaginado de alto a baixo pelas técnicas da publicidade e da produção mercantil: a opacidade das diferenças sexuais foi desmentida pelo corpo transsexual, a estranheza incomunicável da physis singular abolida pela sua mediatização espectacular, a mortalidade do corpo orgânico posta em dúvida pela promiscuidade com o corpo sem órgãos da mercadoria, a intimidade da vida erótica refutada pela pornografia. Todavia, o processo de tecnicização, em vez de investir materialmente no corpo, estava orientado para a construção de uma esfera separada que não tinha com ele praticamente nenhum ponto de contacto: não foi o corpo que foi tecnicizado, mas a sua imagem. Assim, o corpo glorioso da publicidade tornou-se a máscara por detrás da qual o frágil e minúsculo corpo humano continua a sua precária existência, e o geométrico esplendor das girls cobre as longas filas dos anónimos corpos nus conduzidos à morte nos Lager, ou os milhares de cadáveres martirizados na quotidiana carnificina das auto-estradas.
Apropriar-se das transformações históricas da natureza humana que o capitalismo quer confinar no espectáculo, fazer com que imagem e corpo se penetrem mutuamente num espaço em que não possam mais ser separados e obter assim, forjado nele, o corpo qualquer, cuja physis é a semelhança – tal é o bem que a humanidade deve saber arrancar à mercadoria no declínio. A publicidade e a pornografia, que a acompanham ao túmulo como carpideiras, são as inconscientes parteiras deste novo corpo da humanidade.»

De A comunidade que vem, Editorial Presença, Lisboa, 1993, Cap. XII, pp. 40 a 43

terça-feira, 6 de julho de 2010

Giorgio Agamben - "Sem classes"


«Se tivéssemos mais uma vez de pensar o destino da humanidade em termos de classes, então deveríamos dizer que já não existem hoje classes sociais, mas apenas uma pequena burguesia planetária, em que as velhas classes se dissolveram: a pequena burguesia herdou o mundo, é a forma sob a qual a humanidade sobreviveu ao niilismo.
Mas isto é exactamente o que o fascismo e o nazismo tinham igualmente compreendido, e ter visto com clareza o irrevogável declínio dos velhos sujeitos sociais constitui de facto a sua insuperável patente de modernidade. (De um ponto de vista estritamente político, fascismo e nazismo não foram superados e é sob o seu signo que vivemos ainda.) Eles representavam, porém, uma pequena burguesia nacional, ainda ligada a uma falsa identidade popular, sobre a qual agiam sonhos burgueses de grandeza. A pequena burguesia planetária, em contrapartida, emancipou-se destes sonhos e fez sua a atitude do proletariado que consiste em declinar toda e qualquer identidade social reconhecível. Tudo aquilo que é, o pequeno burguês anula-o no próprio gesto com que parece obstinadamente aderir a ele: ele apenas conhece o impróprio e o inautêntico e recusa até a ideia de uma palavra própria. As diferenças de língua, de dialecto, de modos de vida, de carácter, de vestuário e, acima de tudo, as próprias particularidades físicas de cada um, que constituem a verdade e a mentira dos povos e das gerações que se sucederam na terra, tudo isto perdeu para ele todo o significado e toda a capacidade de expressão e de comunicação. Na pequena burguesia, as diversidades que marcaram a tragicomédia da história universal estão expostas e reunidas numa fantasmagórica vacuidade.
Mas a falta de sentido da existência individual, que ela herdou dos subsolos do niilismo, tornou-se entretanto tão insensata que perdeu todo o pathos e transformou-se, revelando-se abertamente, em exibição quotidiana: nada se assemelha mais à vida da nova humanidade quanto um filme publicitário do qual foi apagado qualquer sinal do produto publicitado. A contradição do pequeno burguês é que ele ainda procura, porém, neste filme o produto pelo qual sofreu uma decepção, insistindo apesar de tudo em se apropriar de uma identidade que, na realidade, se tornou para ele absolutamente imprópria e insignificante. Vergonha e arrogância, conformismo e marginalidade são assim os extremos polares de toda a sua tonalidade emotiva.
O facto é que a falta de sentido da sua existência se depara com uma última falta de sentido, onde naufraga toda a publicidade: a morte. Perante ela, o pequeno burguês é confrontado com a última expropriação, com a última frustração da individualidade: a vida na sua nudez, o puro incomunicável, onde a sua vergonha encontra finalmente a paz. Deste modo, ele cobre com a morte o segredo que deve no entanto resignar-se a confessar: que também a vida na sua nudez lhe é, na verdade, imprópria e puramente exterior, que não existe, para ele, nenhum abrigo na terra.
Isto significa que a pequena burguesia planetária é verosimilmente a forma sob a qual a humanidade está avançando para a sua destruição. Mas significa também que ela representa uma ocasião inaudita na história da humanidade, que esta não deve por nenhum preço deixar escapar. Porque se os homens, em vez de procurarem ainda uma identidade própria na forma agora imprópria e insensata da individualidade, conseguissem aderir a esta impropriedade como tal e fazer do seu ser-assim não uma identidade e uma propriedade individual mas uma singularidade sem identidade, uma singularidade comum e absolutamente exposta, se os homens pudessem não ser-assim, não terem esta ou aquela identidade particular, mas serem apenas o assim, a sua exterioridade singular e o seu rosto, então a humanidade acederia pela primeira vez a uma comunidade sem pressupostos e sem sujeitos, a uma comunicação que não conheceria já o incomunicável.
Seleccionar na nova humanidade planetária as características que lhe permitam a sobrevivência, afastar o subtil diafragma que separa a má publicidade mediática da perfeita exterioridade que não comunica outra coisa que não seja ela própria – esta é a missão política da nossa geração.»
De A comunidade que vem, Editorial Presença, Lisboa, 1993, tradução de António Guerreiro, pp. 50-52

Supertramp - The Logical Song

domingo, 4 de julho de 2010

Giorgio Agamben - "Maneries"

Com alguma frequência uso a expressão «a minha maneira de ser», e ao ler este excerto do livro de Giorgio Agamben, "A comunidade que vem", fiquei um pouco apreensiva com a ideia de que o que me gera é a minha maneira de ser e isso "é a única felicidade verdadeiramente possível".
«É um ser deste género que Plotino devia ter em mente quando, ao procurar pensar a liberdade e a vontade do uno, explicava que não se pode dizer dele que "aconteceu ser assim", mas apenas que "é como é, sem ser dono do próprio ser"; e que "não permanece na sua própria condição, enquanto tal, mas usa-se a si tal como é" e não é assim por necessidade, na medida em que não podia ser de outro modo, mas porque "assim é o melhor".
Talvez o único modo de compreender este livre uso de si, que não dispõe porém da existência como de uma propriedade, seja pensá-lo como um hábito, um ethos. Ser gerado pela própria maneira de ser é, de facto, a própria definição do hábito (por isso os gregos falavam de uma segunda natureza): ética é a maneira que não nos acontece nem nos funda, mas nos gera. E o serem gerados pela própria maneira é a única felicidade verdadeiramente possível para os homens».

De "A comunidade que vem", Editorial Presença, Lisboa,1993, tradução de António Guerreiro,  Capítulo VII, pp. 29/30.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Esboço de mensagem a Pedro Passos Coelho


*Pedro,

Eu que continuo maravilhada com o modo como trata a língua portuguesa, através da qual veicula com clareza o seu pensamento, que também me tem agradado, senti nestas últimas semanas que essa clareza foi toldada por alguns matizes de cinzento que é necessário remover. Por exemplo, exige, e muito bem, que o PS apresente por escrito e em detalhe as suas iniciativas políticas em que necessite da colaboração do PSD para a sua aprovação, porque, todos sabemos, ou devíamos saber, que não se deve assinar qualquer contrato ou acordo sem o ler previamente, incluindo as letras miudinhas. Ora sendo o Pedro adepto das versões escritas dos compromissos, pactos, contratos, acordos, como queiramos chamar-lhes, ainda não vi a versão escrita do que acordou com José Sócrates para a colaboração na concretização das medidas dos PEC I e II, que fez para ajudar o país e não o governo, como já referiu várias vezes. Até pode estar no sítio do PSD na Internet mas, de facto, ainda não o vi em lado nenhum. Aquele senhor que está em Belém, muito seco em todos os aspectos, já disse que podíamos encontrar a VERDADE dele no sítio da Presidência da República. Depois de ter dito que o país estava numa situação insustentável, como se não o soubéssemos já, partiu do princípio de que todos os cidadãos desta “insustentabilidade” têm acesso à Internet, que sabem o que fazer com ela, que sabem ler e escrever e que até compreendem o que lêem e ouvem. Por isso, faça o favor de publicar e de publicitar o que quer que acordou com José Sócrates, através dos diversos modos de comunicação disponíveis para que um maior número de cidadãos tenha acesso, e para que possa demonstrar a sua coerência quanto a compromissos que devem ser escritos – o PSD exige ao PS, o PS exige ao PSD, e eu exijo a ambos (ía escrever nós, mas lembrei-me que só falo por mim).
Já agora, e para que não diga que quem critica nem sempre apresenta alternativas, nem ideias novas e refrescantes, aqui ficam as minhas:
1 – Quando formar governo (como vê não digo “se” mas “quando”), escolha todos os seus ministros de entre as pessoas mais competentes e honestas da sociedade, e não do seu Partido. E os ministros deverão fazer o mesmo na constituição dos seus gabinetes. (Isto demonstra o meu apreço por si e não tanto pelo seu Partido, ou por qualquer Partido de uma maneira geral. E também sei que, se procedesse assim, rapidamente seria corrido do PSD, o que só demonstraria que o que é melhor em si mesmo, ou melhor para o país, não interessa nada às “clientelas” partidárias).
2 – Como primeiro acto do seu governo, e é uma daquelas coisas que até não me importo que rasgue, – a revogação do Acordo Ortográfico. (Mesmo que o não faça, não me importarei de ser a única pessoa sobre a Terra a escrever segundo a norma actual).
3 – Alteração da Lei Eleitoral, e da Constituição se para tal for necessário, de modo a podermos ter, à semelhança dos Ingleses, campanha eleitoral, debates, eleições e tomada de posse do novo governo num período de três semanas. (Um autêntico sonho!)
4 – Que cumpra tudo o que já disse sobre os Institutos Públicos e as empresas do Estado, a duplicação de serviços e funções, ou seja, inteligência e racionalidade máxima na aplicação do dinheiro dos contribuintes.
Se por esta altura se questionar: mas quem é esta tonta? – direi apenas que esta tonta nunca teve filiação partidária e nunca faltou a qualquer acto eleitoral ou referendo, por outras palavras, sou o tipo de pessoa aberta às ideias de qualquer partido democrático que tenha o engenho e a arte de me convencer apelando ao meu intelecto e não ao estômago, e que coloque o interesse do país em primeiro lugar. Uma eleitora exigente, portanto.

* (como é um homem da era Facebook, não estranhará este tratamento)

terça-feira, 29 de junho de 2010

A empresa Cisco junta-se ao projecto português "smart city"

Na próxima segunda-feira, dia 5 de Julho, representantes das empresas Cisco e Living PlanIT apresentarão o conteúdo de uma carta de intenções para uma parceria estratégica, que assinaram, com o objectivo de criarem em Paredes, próximo da cidade do Porto, um centro de inovação tecnológica na área das telecomunicações. Este projecto tem vinte e cinco fases de desenvolvimento, estando previsto o arranque da primeira fase ainda este ano, com um investimento de 550 milhões de euros e concebido para criar 3000 postos de trabalho nas áreas tecnológicas, e cujo investimento total poderá rondar os dez mil milhões de euros.
Que venham em boa hora e, se possível, com a questão do financiamento já resolvida pois, por aqui e no resto da Europa, os bancos estão sem liquidez, infelizmente, e não queremos que a carta de intenções que assinaram fique por isso mesmo.

Fonte: FT

sábado, 19 de junho de 2010

Sobre José Saramago, a idiotia não vem de Espanha

Cansada de ouvir frases-feitas, de circunstância, de muitos que, muito possivelmente, não leram um único livro de José Saramago, e de ler um ou outro texto de pseudo-intelectuais que nada acrescentam que, a meu ver, tenha interesse, foi com verdadeiro deleite que li o que escreveram José Luis Rodríguez Zapatero, Primeiro Ministro espanhol, do PSOE (Partido Socialista Obrero Español) e Mariano Rajoy, do Partido Popular (PP) espanhol, de momento na oposição, textos publicados hoje na secção de Cultura do jornal El País e que se podem ler aqui no original:

JOSÉ LUIS RODRÍGUEZ ZAPATERO

EL PAÍS  -  Cultura - 19-06-2010
Tu abuelo, nos contaste, intuyendo el final de su existencia en la Tierra, fue diciendo adiós a los amigos, a su familia, a la naturaleza, porque quería estar lúcido y presente cuando la muerte llegara. Por eso, se abrazaba a los árboles que guardaban las páginas escritas de su vida.
Me llega la triste noticia de tu muerte y te evoco, el verano pasado, en la biblioteca de tu casa de Lanzarote. Vuelves a ser el perfecto anfitrión, el hombre cortés, inteligente, generoso, al que le gusta compartir la amistad. Me honra ser tu invitado. Pilar, tu compañera, tu cómplice, parece señalar en silencio a todos y cada uno de tus personajes en ti: al Ricardo Reis que se compadece de la soledad de los poetas y ayuda a no temer la memoria, a los inventores de artefactos angélicos que quieren enseñar a los seres humanos a volar "aunque les cueste la vida", a aquel alfarero que libra a los esclavos de una nueva caverna porque se niega a aceptar ciertas cegueras que imponen desigualdad y dolor.
Tú, que has sido también todos los nombres, no terminas aquí. 2010 es ya, para siempre, el año de la muerte de José Saramago, pero tus libros forman un maravilloso bosque de dignidad. Y yo me abrazo al árbol para mantener tu memoria.
MARIANO RAJOY

EL PAÍS  -  Cultura - 19-06-2010
Con José Saramago desaparece un novelista enérgico, comprometido con la fuerza de la palabra. Sus libros son testimonio de ello. Intensos, arrebatados, desvelan la precisión visionaria de quien escribía desde dentro, invocando una pasión íntima que surgía de la imaginación, pero que no renunciaba a tener los pies en la tierra, palpando sus contradicciones y sus injusticias. Sé que no compartíamos el mismo horizonte político. Él creía en unos ideales que no son los míos, pero eso no impide que aprecie en su obra la convicción compartida de que la dignidad del hombre, más allá de las diferencias, siempre cuenta. Sus personajes mostraban esta forma de pensar. En ellos latía un aliento pesimista que dejaba abierta una puerta a la esperanza, a la espera de que el lector sacara sus propias conclusiones acerca de su conducta: de lo que hacía con su vida y de cómo lo hacía. El año de la muerte de Ricardo Reis, Memorial del convento o Ensayo sobre la ceguera son ejemplos de este proceder literario. Saramago fue uno de los grandes escritores del siglo XX y un gran amigo de España. El reconocimiento internacional que mereció su obra fue, también, un homenaje esperado al portugués: una lengua portentosa, bella y fértil desde sus orígenes; una lengua próxima, íntima, hermana, como el pueblo que la habla y que siente a través de ella.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010)

A notícia da morte de José Saramago é daquelas que, desde há um ano, quando se agravou o seu estado de saúde, me pareceu não iria apanhar-me desprevenida. Mas não aconteceu assim, e estou desolada e incapaz de explicitar um mínimo de pensamento articulado e coerente. Também não vou escolher qualquer passagem de um dos seus livros para transcrever aqui, vou apenas recolher-me.
À família, amigos e leitores expresso o meu profundo pesar.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A Grécia seduz investidores chineses

Apesar da crise que atravessa, a Grécia continua a ser um país atractivo para a China, que acaba de assinar treze contratos com empresas gregas, principalmente no sector marítimo.
O Vice-Primeiro Ministro chinês Zhang Dejiang chegou a Atenas a 15 de Junho para uma visita oficial de dois dias, acompanhado por uma delegação de empresários, no decorrer da qual foram assinados treze contratos no valor de várias centenas de milhões de euros, nos sectores aeroportuários, da construção naval e da logística.
Os dois países são complementares no sector marítimo. Enquanto a Grécia possui cerca de 3.000 navios mercantes, a China tem uma grande necessidade de fazer transportar os seus produtos para os países ocidentais. E dos treze contratos assinados, sete respeitam ao sector marítimo. A empresa Cosco, o gigante chinês especialista em transporte marítimo e na construção de barcos, aprovou os acordos com o armadores gregos para o comando de vários barcos de mercadorias, o fretamento de barcos e a criação de uma empresa comum.
O porto do Pireu, perto de Atenas, interessa muito aos chineses e o grupo de construção BCEGI vai construir nas imediações desse porto um centro hoteleiro em associação com a sociedade grega Helios Plaza.
O interesse dos chineses pelo porto do Pireu, um dos portos mais importantes do Mediterrâneo, já data de 2008, quando o grupo chinês de transportes Cosco desembolsou 3,4 mil milhões de dólares para obter uma concessão para a gestão dos contentores no porto, e com o objectivo de aumentar e de modernizar o Pireu. A capacidade de acolhimento actual, que se situa nos 1,6 milhões, deverá duplicar com as alterações previstas.
Por outro lado, a empresa chinesa Huawei Technologies assinou um acordo de cooperação com o grupo de Telecom grego OTE. Estes acordos poderão trazer um balão de oxigénio a um país em grave crise financeira e, embora constrangido a aplicar um plano drástico de austeridade, Atenas decidiu relançar a sua economia.
Aliás, outros países estão interessados em investir na Grécia. O Qatar já investiu numa fábrica de gás natural na zona oeste do país, e anunciou a intenção de prosseguir com os seus investimentos. E a Turquia, o inimigo jurado, pode vir a ser também um parceiro económico da Grécia, tendo o Primeiro Ministro turco assinado já uma vintena de acordos nos sectores do turismo, da energia e do ambiente.
Tudo isto fez-me lembrar o texto que publiquei há dias sobre a apreensão dos EUA com a desvalorização da moeda chinesa e do euro e que agora, com todos estes investimentos que os chineses estão a fazer na Grécia, imagino que estejam já a roer as unhas. E para nós, europeus, a China acaba por ser incontornável.
O que tudo isto também me mostra é que não há quem queira investir em Portugal, com a consequente criação de postos de trabalho, e embora a agência Moody tenha baixado ontem ainda mais a notação da Grécia e nos tenha deixado em paz.

Fonte: RFI 
Foto de George Papandreou e Zhang Dejiang por Reuters.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Discurso de um soldado americano sobre a guerra no Iraque, para reflexão

Nota: como não possuo a identificação deste soldado, não me foi possível confirmar a informação de que teria aparecido morto dois dias depois destas declarações e cuja autópsia revelou ter sido devido a ataque cardíaco.
Adenda: é com grande satisfação que hoje, 1 de Outubro de 2010, posso afirmar que este soldado, de nome Michael Prysner, está vivo e de saúde e, pesquisando, encontrei uma organização que fundou, com o nome March Forward  

Curso de Saúde e Voz em Comunicação Social na UCP

·        Curso de Saúde e Voz em Comunicação Social - 17 e 18 de Junho
  • Objectivos
  • Destinatários
  • Temas
  • Oradores
  • Inscrições
  • Calendário e horário
  • Local de Funcionamento
  • Contactos


Todas as informações sobre o curso AQUI

Telef: 21 721 41 47
saude@ics.lisboa.ucp.pt
www.ics.lisboa.ucp.pt

sábado, 12 de junho de 2010

EUA apreensivos com a desvalorização do yuan chinês e do euro

Na passada quinta-feira, 10 de Junho, o Secretário americano do Tesouro, Timothy Geithner, afirmou que iriam sancionar a China por esta manipular as taxas de câmbio da sua moeda «com vista a obter uma vantagem injusta no comércio internacional».
Na Comissão de Finanças do Senado americano, Timothy Geithner endureceu a sua posição, perante o aumento do volume comercial da China, calculado em 1,8 mil milhões em Abril e que atingiu os 19,5 mil milhões de dólares em Maio. Segundo Geithner, a China tira proveito de um yuan excessivamente fraco e «manipula o valor da sua moeda» com vista a aumentar as exportações. «As distorsões provocadas pela taxa de câmbio chinesa ultrapassa em muito as fronteiras chinesas e são um obstáculo ao reequilíbrio mundial de que necessitamos», insurgiu-se ele.
Mas a China não tem qualquer intenção de revalorizar a sua moeda. «Não é do interesse de ninguém, nem da China, nem dos EUA, nem de outros países, ver grandes subidas do yuan ou grandes descidas do dólar», declarou em Maio último o Vice-Ministro chinês do Comércio, Zhong Shan, num discurso na Câmara de Comércio americana. Mesmo assim, Timothy Geithner irá pressionar Pequim na próxima cimeira do G 20 para que o país altere a taxa de câmbio do yuan.
Por outro lado, a desvalorização do euro em 6% face ao dólar, está também a contribuir para que as trocas comerciais dos EUA com o resto do mundo tenham vindo a diminuir. Segundo os números publicados no dia 10 de Junho pelo Departamento do Comércio em Washington, a zona euro, primeira parceira comercial dos EUA, é responsável pela queda em 30% das trocas comerciais dos EUA, em Abril. Não só desceu o valor das importações de bens americanos a partir da zona euro em 3,1%, como também o das exportações para a zona euro em 5,7%, o que constitui um duplo golpe para a economia americana, uma vez que a China e a zona euro são os seus principais parceiros comerciais.
Então, em que é que isto nos afecta? Aparentemente em nada, se o euro não desvalorizar muito mais, pois, por enquanto, até tem beneficiado as nossas exportações e é disso que necessitamos mais do que nunca.
É claro que a China, ao incomodar deste modo os EUA, que até prevêem sanções pelas práticas referidas (não estou a ver como se impede um país soberano de desvalorizar a sua moeda), é também um concorrente muito forte da União Europeia e tem a possibilidade de desvalorizar a sua moeda sempre que o entenda, contrariamente ao que se passa com o euro, cuja desvalorização se deve a diversos factores bem conhecidos de todos nós.
 
Fonte: RFI
Foto de Timothy Geithner, por Reuters/ Jonathan Ernst

segunda-feira, 7 de junho de 2010

RFM - "tu-cá-tu-lá" a partir de hoje

A RFM começou hoje a tratar os ouvintes por "tu", por influência da sua página no Facebook. Como é a estação de rádio que tenho quase sempre sintonizada para viajar, qual não foi o meu espanto quando ouvi, de manhã: "já tens bilhetes para ires ver o Prince no Super Bock Super Rock?". Eu que, como se sabe, sou uma apreciadora da canção Purple Rain, e que, depois deste "tu-cá-tu-lá", eles resolvem pôr no ar, não sei explicar muito bem o que senti inicialmente com este "tutear" porque esta canção tem o dom de afastar qualquer outra interferência no meu cérebro. Assim, continuei sintonizada na RFM durante a tarde, e, na realidade, é-me tão estranho que me tratem por tu na rádio como no Facebook. Mas como isto não tem nada a ver com boa ou má educação, tem certamente a ver com a minha própria maneira de ser e, portanto, será uma questão de habituação, logo, de tempo, para chegar lá também. Vamos ver se não será já tarde demais para mim depois de todos os "vossemecê", "você", "vós", "V. Ex.ªs", e quejandos.

domingo, 6 de junho de 2010

Referendo na Eslovénia para resolver conflito territorial com a Croácia

Em direito marítimo, são as fronteiras litorais de um Estado que determinam o traçado das suas águas territoriais, calculado segundo uma linha meridiana a partir da costa. Com os seus 37 quilómetros de litoral a noroeste, sobre o Adriático, a Eslovénia não dispõe senão de um pequeno quadrado de soberania marítima, encravado entre as águas territoriais italianas a norte e croatas a sul.
Mas, e mais importante, a Eslovénia não dispõe de qualquer acesso a águas internacionais, principalmente a sul. E é esse corredor de acesso que a Eslovénia reclama, propondo-se para tanto a modificar as suas fronteiras terrestres em algumas centenas de metros, para que, por projecção, o traçado das suas águas territoriais atinja as águas internacionais.
Não tendo os dois Estados (Eslovénia e Croácia), em 18 anos, conseguido chegar a um acordo sobre este assunto, porque a Croácia sempre se mostrou reticente a qualquer concessão territorial, mas querendo aderir à União Europeia em 2012, de que a Eslovénia já faz parte e que tem usado essa questão para retardar a entrada da Croácia, os Primeiros-Ministros esloveno e croata resolveram, em Setembro último, aceitar em delegar a resolução desse conflito à arbitragem da União Europeia, resolução que está hoje a ser referendada na Eslovénia, ou seja, os eslovenos vão dizer se aceitam ou não que uma autoridade internacional tenha a última palavra na resolução deste conflito territorial com a Croácia.
O acesso a águas internacionais continua a ser, sem dúvida, de importância capital para qualquer Estado, já a adesão à União Europeia, nos dias que correm, poderá ter deixado de ser tão apelativo para quem, eventualmente, esteja a pensar apresentar relatórios e contas falseados sobre a situação económica e financeira do respectivo país. Mas como a Croácia quer tanto a sua adesão, certamente que terá todos os requisitos necessários e prontos a serem escrutinados à lupa pela Comissão que faz a avaliação, e, assim, este conflito territorial com a Eslovénia até poderá chegar a bom porto.

Fonte: RFI
Foto por AFP/ H. Polan