domingo, 29 de julho de 2012

A monja e o capitalismo não ético


Li com muito interesse a crónica de ontem de Anselmo Borges, publicada no DN, onde expõe algum do pensamento de Teresa Forcades sobre algumas facetas do capitalismo não ético e as consequências que o mesmo acarreta para a vida da maioria dos cidadãos, bem como a sua recusa em aceitar que não há alternativas ao mesmo. Pela sua pertinência, deixo aqui o texto na íntegra:

«Nasceu em Barcelona em 1966. É doutorada em Medicina e em Teologia. Muito conhecida pelas suas posições feministas e pelas críticas às multinacionais farmacêuticas, Teresa Forcades é uma monja beneditina do Mosteiro de Sant Benet de Monserrat.
Conheci-a em Julho de 2011, em Santander, num Congresso de Teologia e Ética, e a impressão que me ficou foi a de uma mulher séria e agradável, descontraidamente inteligente e interventiva.
Foi recentemente convidada para a conferência inaugural de um encontro de empresários, talvez o mais importante da Catalunha, com a presença de umas seiscentas pessoas.
Ela é absolutamente favorável ao empreendedorismo. Quereria que isso fosse uma possibilidade para todos, pois isso significa realizar possibilidades e ter iniciativas próprias. Mas põe em causa o empresariado baseado numa relação contratual num quadro capitalista sem ética. Por três motivos.
É uma mentira o mercado que se diz livre. De facto, ao longo da história, o mercado nunca foi livre. "Foi sempre regulado a favor de certos interesses: da realeza, interesses proteccionistas, da classe dominante, do parente dos governantes de turno." Mercado livre é "uma hipocrisia, uma falácia".
Depois, a lógica do capitalismo, no quadro do mercado global, quer "o máximo lucro". Ora, é aberrante, do ponto de vista antropológico e humano, pensar que a melhor maneira de incentivar as pessoas, a sua criatividade, a actividade económica e, em última análise, o crescimento, seja o lucro máximo. Satisfeitas as necessidades básicas, "o que me estimula não é o dinheiro", mas a curiosidade intelectual, o desafio de descobrir potencialidades e encontrar quem ajude a realizá-las, o apreço dos colegas, a valorização do trabalho que faço, ver que o trabalho das pessoas transforma de modo positivo as suas vidas. Porque não criar uma sociedade fundada no que verdadeiramente nos dá gosto e nos realiza? E o direito à alimentação, à educação, à saúde, à reforma tem de estar acima do mercado e do lucro.
Portanto, o capitalismo não lhe parece ético. E assume a crítica marxista da mais-valia, dando um exemplo: no mosteiro, temos uma pequena empresa de cerâmica e há uma pessoa de fora que lá trabalha; se lhe pagarmos um euro e ganharmos mil, o capitalismo dirá: que bem! "Mas isto é indigno, pois vai contra a dignidade do trabalho." Há diferenças aberrantes: num contrato, "talvez esteja bem que eu ganhe um e tu ganhes quatro ou até dez, mas mil não pode ser de modo nenhum".

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Para bom entendedor...

«O homem, animal multiplamente mentiroso, artificial e impenetrável, inquietante para os outros animais, menos pela força do que pela manha e esperteza, inventou a boa consciência para gozar, pelo menos uma vez, a sua alma como uma coisa simples; e toda a moral é uma longa e audaciosa falsificação, graças à qual se torna possível um gozo perante o espectáculo da alma. Consideradas sob este aspecto, há talvez mais coisas do que se julga em geral que cabem na ideia de "arte".»

F. Nietzsche

in Para além do bem e do mal

"Então a gente não diz, apenas sente"


sábado, 23 de junho de 2012

Conferência Rio +20


Tendo chegado ao fim a Conferência promovida pelas Nações Unidas, sobre Desenvolvimento Sustentável, que se realizou no Rio de Janeiro, Brasil – a Rio +20, e cujos resultados foram tão decepcionantes como os das que se efectuaram antes desta, particularmente por falta de vontade política para alterar a situação, deixo a declaração final da WWF (World Wide Fund for Nature) de 22 de Junho de 2012, onde, pelo menos, se constata a vontade de não baixar os braços, à semelhança de muitas outras ONG e de cidadãos empenhados por esse mundo fora:
«Com as negociações a chegarem ao fim, o director geral da WWF, Jim Leape, emitiu hoje a seguinte declaração final àcerca da Conferência Rio +20:
Esta foi uma conferência sobre a vida: sobre as gerações futuras; sobre as florestas, oceanos, rios e lagos de que todos nós dependemos para a nossa comida, água e energia. Foi uma conferência para abordar o desafio premente da construção de um futuro que nos pode sustentar.
Infelizmente, os líderes mundiais que se reuniram aqui perderam de vista esse objectivo urgente.
Com muito poucos países dispostos a pressionar para a acção, a presidente brasileira, Dilma Rousseff, escolheu conduzir um processo sem conteúdo sério – em detrimento do planeta.
O resultado é uma oportunidade desperdiçada – um acordo que não encaminha o mundo em direcção ao desenvolvimento sustentável.
A urgência de agir, no entanto, não mudou. E a boa notícia é que o desenvolvimento sustentável é uma planta que tem raízes, que irão crescer independentemente de liderança política fraca.
Ainda assim estão a surgir lideranças activas em comunidades, cidades, governos e empresas que estão a colocar o objectivo de proteger o nosso ambiente, reduzir a pobreza, e de nos mover em direcção a um planeta mais sustentável em lugar prioritário.
O que precisamos é de acções em todos os lugares, de pessoas individuais, vilas, cidades, países, pequenas e grandes empresas e organizações da sociedade civil e movimentos. Nós precisamos que todos assumam a responsabilidade que os líderes mundiais não conseguiram assumir na Conferência do Rio.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Dimítris Dimitriádis "Vivemos à luz de uma estrela morta"


Para “iluminar” o meu texto de ontem sobre a Grécia, não podia ter encontrado melhor do que esta entrevista feita a Dimítris Dimitriádis e que podem encontrar também aqui.

«A crise multifacetada que atinge os gregos é o resultado de séculos de decadência, marcados pela falência do Estado e perda do sentido moral, diz o dramaturgo Dimítris Dimitriádis. Para ele, o seu país está morto e deve aceitar-se isso para se poder dar o salto. Excertos.

Fabienne Darge: Em 1978, escreveu o texto "Morro como país". Fala-se nele no desaparecimento de uma nação que acaba sem nome nem história. O que sente que está a acontecer na Grécia?

Dimítris Dimitriádis: É obviamente uma sensação muito estranha. Escrevi o “Morro...” há trinta e cinco anos: o país acabava de sair da ditadura dos coronéis, era um período cheio de esperança, de promessas e de prosperidade. Foi uma situação pessoal de absoluta solidão que me levou a escrever esse texto, que assumiu a forma de uma parábola: falo de um país que morre porque não aceita o seu próprio fim, nem consegue aceitar o outro. Um país que se sente sitiado durante 1000 anos, que não aceita aquilo a que chama o inimigo, que não vê que o "inimigo" é a sua perspectiva de futuro. O que caracteriza a Grécia é uma espécie de estagnação, de imobilismo mental: fica-se agarrado aos hábitos, tanto psicológicos como sociais; vive-se com base numa tradição morta, que ninguém sonha em renovar.
É um problema gravíssimo: este país que é a Grécia, histórico por excelência, está preso no mecanismo da história. E assim chegámos a um beco sem saída: tudo de que se fala, essa grande herança grega de que nos valemos, petrificou-se sob a forma de ideias feitas, estereótipos. Isto não é novo: há muito tempo que, na Grécia, vivemos à luz de uma estrela morta. O que senti há 35 anos tornou-se hoje mais agudo: a "crise" não será resolvida sem uma verdadeira tomada de consciência histórica, que passa pelo reconhecimento de que algo morreu, para que possa ter lugar um novo nascimento. Como no verso de T. S. Eliot: "No meu fim está o meu começo." Falta-nos ainda aceitar o fim.

A crise é, então, principalmente histórica, não política nem económica?

Sim, embora eu não negue as dimensões económica e política. Deve ser repetido incessantemente que o sistema político em que vivemos, na Grécia, que data da ocupação otomana (e tem, portanto, vários séculos), é totalmente clientelista. Os grandes terratenentes do passado foram substituídos por partidos políticos, mas têm a mesma relação com as pessoas. O Estado pertence ao partido, que o utiliza e explora os recursos públicos para manter o seu sistema de clientela.

domingo, 17 de junho de 2012

"Desgrécia"


Só quem não conhece a actual sociedade grega não sorrirá ao ouvir alguns opinadores defenderem que, o melhor para a Grécia, depois das eleições parlamentares em curso, seria a constituição de um governo de coligação, de preferência de vários partidos políticos. Ora, sendo a sociedade grega assente, predominantemente, nas ligações familiares, ligações essas alargadas aos que estão mais próximos, como vizinhos, compadres, etc., privilegiando o compadrio, o favor, a cunha dentro destes seus pequenos círculos, e por uma desconfiança por tudo o que tenha a ver com o Estado, daí a fuga massiva ao pagamento de impostos, por um lado, e, por outro, o tentar extorquir do mesmo Estado todas as benesses a que se julgam ter direito mesmo que não tenham contribuído para tal (em abono da verdade, neste último aspecto nem são muito diferentes dos portugueses). Daqui só pode resultar que encaram o Estado como qualquer coisa que lhes é estranha, quase como um abcesso, e não como uma estrutura da qual todos fazem parte e em que cada um tem o seu papel a desempenhar, quer no campo político e social, quer no político-partidário. E é por essa maneira de ser, dessa desconfiança permanente que grassa também dentro e entre os partidos políticos, já que são formados por pessoas educadas da mesma maneira que os demais cidadãos, ou seja, dentro dos tais círculos restritos familiares e afins, que não há possibilidade de um compromisso sério e duradouro para uma governação em que se coloquem os interesses do país acima de todos os outros.

Poderia pensar-se que a entrada da Grécia para a União Europeia (UE) contribuísse para uma alteração desses hábitos ao verem, na prática, como muitos países governados por coligações são democracias estáveis e prósperas. Mas não. Entraram, até, com o pé esquerdo, ao forjarem os orçamentos e os défices. E é nesse pé que continuam e que continuarão. E se é certo que, numa fase inicial, a CEE, agora UE, teve um papel importantíssimo ao permitir a entrada a Estados mais débeis economicamente para que as suas democracias recentes se pudessem aprofundar, também é certo que a UE passaria muito bem sem estes casos patológicos que, neste momento difícil, só atrapalham o próprio aprofundamento da União, uma vez que não será feito em virtude de um pensamento devidamente estruturado, mas à medida que vão aparecendo “focos de incêndio”, quais bombeiros desprevenidos.

Aos que dizem que nem lhes passa pela cabeça a existência de uma UE sem a Grécia, o berço da democracia, da Filosofia, de parte da nossa preciosa cultura greco-latina, poderei contrapor que, a Grécia moderna, pelo que afirmei acima, nada tem a ver com esse período, nem ao nível de pensamento nem da prática. Do tempo dos Sábios e dos Filósofos, temos o mais importante, que são os livros que estão aí para todos, em muitas línguas. Só para citar um, leia-se a “Ética a Nicómaco”, a “Ética a Eudemo” ou “A Grande Moral”, de Aristóteles, e depois poderão tirar as vossas próprias conclusões sobre o que Aristóteles pensaria do comportamento dos gregos de hoje.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Itália e Portugal: intercâmbios musicais no século XVIII


É já neste Sábado, 2 de Junho, das 21:00 às 22.30h, que se realiza na Igreja de S. Julião, em Setúbal, o evento “Itália e Portugal: intercâmbios musicais no século XVIII”, organizado pela respectiva Câmara Municipal e pela Fundação Helen Hamlyn Trust. Nele se assistirá à estreia em Portugal do coro de câmara inglês Contrapunctus, conduzido pelo especialista em música antiga portuguesa Owen Rees, num concerto em que participa, também, Stephen Farr no órgão, e com obras de compositores que usufruíram do intercâmbio cultural entre Portugal e Itália no reinado de D. João V, entre eles Domenico Scarlatti.
 
Antes deste concerto, às 20:30h, actuará o coro de câmara do Conservatório Regional de Setúbal, com excertos de “Glória”, de Vivaldi.
 
Entretanto, e para abrir o apetite, deixo a Sonata in G (K108) de Domenico Scarlatti (1685-1757):

terça-feira, 22 de maio de 2012

Laurie Anderson


Laurie Anderson está em Portugal para apresentar o seu novo espectáculo “Dirtday”, com início hoje, dia 22 de Maio, no Centro Cultural Vila Flôr, em Guimarães, depois do que se seguirão o teatro Gil Vicente de Coimbra, quarta-feira, dia 23, o teatro Aveirense em Aveiro, quinta-feira, dia 24, o cineteatro de Torres Vedras, sexta-feira, dia 25, e o teatro Virgínia de Torres Novas, sábado, dia 26.

Mas como, de Laurie Anderson, me agrada particularmente a canção “Strange Angels”, que alguns recordarão do filme “The Doctor”, que recebeu o título português “Um golpe do destino”, é essa belíssima canção que aqui deixo, uma vez que, devo confessar, não gosto muito daqueles seus temas em ambientes electrónicos, com orquestrações dissonantes e voz robotizada, embora aprecie a sua posição crítica não só face aos EUA como ao mundo em geral no que à política diz respeito e que conduziram às crises económicas, financeiras e sociais que estamos a viver.
 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Congresso Internacional Vergílio Ferreira


O CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, divulgando o labor de investigação no âmbito do “Seminário Internacional sobre Vergílio Ferreira”, organiza, em Lisboa, nos dias 17, 18 e 19 de Maio, o Congresso Internacional “Da Ficção à Filosofia, no Cinquentenário de Estrela Polar e Da Fenomenologia a Sartre”, através do qual se possa reavivar a presença interpelante do infatigável escritor de “romances-problema”.
Num tempo de desnorte e de vazio antropológico, trazer uma vez mais ao debate um autor que não se cansa de procurar o “homem fundamental”, afigura-se tarefa urgente e necessária. O CEFi endereça o convite à participação neste Congresso a todos os que se inquietam com o destino do ser humano. Outros contactos: 217 214 127 e cefi@fch.lisboa.ucp.pt

Programa:

Dia 17 de Maio – UCP (Lisboa) – Anfiteatro 2

14:00 – Recepção dos participantes
14:30 – Sessão de Abertura / Autoridades
Conferência de Abertura:

Manuel Ferreira Patrício – «Vergílio Ferreira: em busca do sentido que faz ou não faz o existente e a vida humana»

15:15 – 1º Painel — Vergílio Ferreira e o Romance

Moderador: Américo Pereira
Lídia Jorge – «Vergílio Ferreira: uma invocação ao seu corpo – o ficcionismo habitado pelo filósofo»
Jorge Maximino – «Linguagem, experiência e tempo na obra narrativa de Vergílio Ferreira»
Vanda de La Salete – «Fusão Vergílio-Escrita»
Celeste Natário – «Luz e solidão em Estrela Polar»
16:45 – Pausa para café

17:00 – Conferências

Fernanda Irene Fonseca – «Tempo e narração em Vergílio Ferreira:  questionação filosófica e realização ficcional»
Rosa Maria Goulart – «Vergílio Ferreira: o romance do fim»

18.00 – 2º Painel — Vergílio Ferreira: o corpo e os corpos

Moderador: Jorge Maximino
Vitor Ló – «Vergílio Ferreira e a motricidade humana»
Isabel Cristina Rodrigues – «A câmara clara: Vergílio Ferreira e a arte da imagem»

18:45 – Fim dos trabalhos do 1º dia
Dia 18 de Maio – UCP (Lisboa) – Anfiteatro 2

09:30 – Conferência

Hélder Godinho – «A diferença de uma letra no nome das gémeas de Estrela Polar»
10:30 – Pausa para café

10:45 – 3º Painel — Estrela Polar: romance da solidão?
Moderador: Samuel Dimas
Maria de Lurdes Sigardo Ganho – «O universo existencial da obra Estrela Polar»
Florinda Martins – «Estrela Polar: sementes de o fenómeno erótico»
Eunice Cabral – «O Amor como entidade impossível em Estrela Polar de Vergílio Ferreira»
12:45 – Almoço
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14:30 – 4º Painel — A dimensão trágica do protagonista vergiliano

Moderadora: Maria de Lourdes Sirgado Ganho
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Nuno Júdice – «O esquema mítico em «Aparição» de Vergílio Ferreira»
Bruno Béu de Carvalho – «A imanifestável decepção do conceito: silêncio e  apofatismo interrogativo em Vergílio Ferreira»
Américo Pereira – «Solidão e tragédia. A irrelação inter-humana como lugar próprio da tragédia»
Mariana Cascais -  «Da Aparição à Revelação»
16.00 – Pausa para café

16:15 – 5º Painel — Da fenomenologia a Sartre
Moderadora: Vanda de La Salete
Manuel Cândido Pimentel – «O enigma da transcendência do eu em Vergílio Ferreira»
Pedro Cabrera – «Patologia da liberdade:  Anders (Stern), Sartre, Vergílio Ferreira»
Cassiano Reimão – «Ética e Liberdade – De Vergílio Ferreira a Sartre»
18.00 – Fim dos trabalhos do 2º dia

Dia 19 de Maio – UCP (Lisboa) – Anfiteatro 2

09:30 – 6º Painel — Vergílio Ferreira hoje: que lugar para a esperança?
Moderador: José Antunes de Sousa
Paula Pina – «”Aí é que sim”: tema e variações»
Samuel Dimas – «A questão de Deus em Vergílio Ferreira»
Isabel Soler – «Assédios à identidade esquiva: ler hoje Vergílio Ferreira»
11:00 – Pausa para café
11:15 – Conferência
António Braz Teixeira – «A reflexão estética de Vergílio Ferreira»
12:15 – Sessão de Encerramento:
Resumo do Congresso: José Antunes de Sousa
Alocução final: Manuel Cândido Pimentel
13:00 – Fim dos trabalhos do Congresso

sábado, 5 de maio de 2012

Kierkegaard: 199.º aniversário de nascimento


Ainda não tinha prestado homenagem, neste espaço, a Kierkegaard que, em conjunto com Schopenhauer e Nietzsche, costumo designar como o meu trio de desassossegadores, porque, com argumentos diferentes, nos deixam sempre sozinhos perante nós mesmos e perante o mundo e a vida, num processo de auto-análise quase ininterrupto, em busca de respostas dentro de nós mesmos, numa observação microscópica e contínua do nosso “eu”, tarefa muito exigente, solitária e desgastante, ou, para utilizar os conceitos de Kierkegaard, de angústia e desespero.

Ao contrário do que fiz com Schopenhauer e Nietzsche, de que já deixei vários excertos de obras e máximas em ambos os blogues, não o faço com Kierkegaard, cujas obras principais, como O Conceito de Angústia, Temor e Tremor, “Either-Or”, etc., necessitam de uma leitura e de uma abordagem muito atenta para a sua total compreensão, e não são propiciadoras a que se recortem parágrafos ou frases sem se correr o risco da descontextualização. Deixo, no entanto, a 2.ª parte de um documentário sobre ele, realizado pela BBC, que intitularam de “Sea of Faith” (com este mesmo título também fizeram 2 sobre Schopenhauer).

Kierkegaard [Copenhaga, 5/5/1813 – 11/11/1855]


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Democracia e Liberdade

Diz Jean-Jacques Rousseau, no Livro III, capítulo IV do livro O Contrato Social, que «se houvesse um povo de deuses, governar-se-ia democraticamente», afirmação que pode levar-nos a concluir que só entre iguais e com o mesmo estatuto seria possível uma democracia perfeita, e que, portanto, esse sistema dificilmente poderia ser mantido por simples mortais, como nós, vivendo em sociedades tão estratificadas. E é nesta base de raciocínio que entendo as afirmações seguintes, que já reproduzi noutro lugar, e que partilho aqui, porque transmitem não só as vicissitudes de qualquer democracia actual, como nos lembram o que é de facto importante e que se deve preservar a todo o custo: a liberdade.
«(...) não há governo tão sujeito às guerras civis e às agitações intestinas como o democrático ou popular, porque não há nenhum que tenda tão forte e continuamente para mudar de forma, nem que exija mais vigilância e coragem para ser mantido na sua. É sobretudo nesta constituição que o cidadão tem de se armar de força e constância e dizer em cada dia da sua vida no fundo do coração o que dizia um virtuoso Palatino (*) na Dieta da Polónia: "Malo periculosam libertatem quam quietum servitium." ("Prefiro os perigos da liberdade ao sossego da servidão.”)

(*) O Palatino da Polónia, pai do rei da Polónia, duque da Lorena.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), O Contrato Social, Livro III, capítulo IV

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Fernando Alves: Da frivolidade (Llosa e Camus)


Tendo relido recentemente os "Discursos da Suécia" que Albert Camus proferiu em 1957, designadamente o que tem por título "O artista e o seu tempo", foi com muita curiosidade que li hoje a crónica de Fernando Alves, na TSF, que o trouxe a lume, bem como algumas afirmações de Vargas Llosa, neste tempo em que parece que tudo é cultura e nada o é, a propósito de comportamentos políticos e sociais com que somos brindados diariamente e que mais parecem pertencer às "artes" de entretenimento. Mas o melhor é ler a crónica:

 

«A palavra "frivolidade" corre o noticiário destes dias. Ainda nos lembramos da recente capa do "Economist" sobre "a eleição mais frívola do Ocidente", com Hollande e Sarkozy sentados na relva, numa curiosa recriação de um célebre quadro de Manet.
E agora vários dirigentes partidários espanhóis se referem, indignados, à frivolidade de um rei que, em plena crise, foi caçar elefantes para o Botswana. O jornal "El Mundo" considerou que o triste espectáculo dado pelo monarca espanhol "transmite uma imagem de indiferença e frivolidade que o Chefe de Estado jamais deveria dar".
É um exercício a que nos deveríamos entregar com mais frequência: o da percepção dessa frivolidade que se impôs como regra, como "ar do tempo". Esse exercício deveria assustar-nos, porque fomos cedendo a essa evanescência doce, a essa pauta leviana e fácil. Em todos os domínios, na política, no jornalismo, na convivialidade quotidiana.
Uma importante entrevista de Vargas Llosa ao jornal "El Pais" veio, este fim-de-semana, desafiar-nos a que encetemos esse exercício. A entrevista toma como pretexto a recente publicação pela Alfaguara do novo ensaio de Vargas Llosa, "A civilização do espectáculo". Ele fala deste tempo em que, "como não há maneira de saber o que é a cultura, tudo é cultura e já não o é". Essa "dissolução de hierarquias e referentes" é, para o autor de "Conversa na Catedral", uma clara consequência do "triunfo da frivolidade, do reinado universal do entretenimento".
Vale a pena mergulhar nesta longa entrevista, enquanto não chega o ensaio de Vargas Llosa. Ela contém avisos muito sérios sobre os perigos que ameaçam a cultura democrática. Sobre os perigos que advêm da frivolidade que é a marca destes dias. Ela manifesta-se, lembra o peruano, por um quadro de valores "completamente confundido, pelo sacrifício da visão a longo prazo em benefício do imediato".
Por causa desta entrevista, a que voltarei, fui procurar um dos discursos de Camus, por ocasião da atribuição do Nobel, em 57, aquele que tem por titulo "O Artista e o seu tempo". Lá está a referência ao modo como a arte se afirma "numa perpétua tensão entre a beleza e a dor, o amor dos homens e a loucura da criação, a solidão mais insuportável e o assédio da multidão, a recusa e o consentimento". Nesse discurso, proferido no grande anfiteatro da universidade de Upsala, Camus lembra-nos que a arte "caminha entre dois abismos que são a frivolidade e a propaganda".»


Fernando Alves (na crónica “Sinais”, hoje, na TSF)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Nietzsche: "O problema dos que esperam"

«São precisos muitos casos de sorte e muitas coisas incalculáveis para que um homem superior, em quem dorme a solução de um problema, chegue ainda a tempo para agir - "à explosão", como se poderia dizer. Em geral, tal não acontece, e em todos os recantos da Terra há os que esperam, que mal sabem em que sentido esperam, mas menos ainda sabem que esperam em vão. Por vezes, também, chega tarde demais o toque de alvorada, aquele acaso que dá a "licença" para agir - acontece quando a melhor juventude e força de agir estão gastas pelo estar-se sentado; e quantos não descobriram, com susto, ao levantarem-se "sobressaltados", que tinham os membros dormentes e o espírito já pesado demais! "É tarde demais", disse, tornado descrente de si próprio e, agora, inútil para sempre. Será que, no reino do génio, o "Rafael sem mãos", entendida a palavra no sentido mais lato, não é talvez a excepção, mas a regra? O génio talvez não seja tão raro: mas são-no as quinhentas mãos que são precisas para tiranizar o καιρós, o "tempo oportuno", para agarrar o acaso pelos cabelos!»

F. Nietzsche, in Para além do bem e do mal, Guimarães Editores, 1978, p. 208

Hoje deixo, também, um documentário sobre a vida e obra de Nietzsche, feito pela BBC, e que, curiosamente, tendo feito documentários sobre outros filósofos, atribuiu a todos o mesmo título "Human, all too human", que nos recorda o livro de Nietzsche "Humano, demasiado humano" e não o de qualquer outro.


 

quinta-feira, 29 de março de 2012

Leitura integral de "Requiem: uma alucinação", de Tabucchi


Na próxima segunda-feira, 2 de Abril, tem início às 10:30h, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, a leitura integral do livro de António TabucchiRequiem: uma alucinação”. Para os menos familiarizados com esta obra, deixo um texto que Carlos Vaz Marques escreveu em 2009 e que dá boas pistas sobre a mesma.

«O REQUIEM QUE RI
[texto para a revista Time Out, em Abril de 2009]

Mesmo os leitores mais distraídos saberão sem dificuldade, logo nas primeiras páginas do “Requiem”, de Antonio Tabucchi, que estão perante uma obra de ficção. O narrador senta-se no jardim de Santos a ler, no jornal A Bola, o relato de uma vitória do Benfica sobre o Real Madrid, na noite anterior. Ainda para mais uma vitória fora.
Num romance em que Lisboa é protagonista e em que vivos e mortos, sonho e realidade, fantasmas e gente convivem alegremente (sim, há no “Requiem” grandes momentos de comédia), está dado o tom. O subtítulo do romance é, muito apropriadamente, “uma alucinação”.
O estrangeiro, de quem nunca saberemos o nome ao longo do livro, alter-ego evidente do próprio autor, lê A Bola enquanto faz tempo à espera que chegue “o maior poeta do século vinte”. O nome de Fernando Pessoa também nunca será referido. Marcaram encontro às doze no Cais de Alcântara, “mas talvez (ele) quisesse dizer doze da noite, porque os fantasmas aparecem à meia-noite.”
“O meu Convidado” há-de aparecer, de facto, doze horas depois, para uma ceia hilariante, com um menu de que constam pratos como “cherne trágico-marítimo, linguado interseccionista, enguias da Gafeira à moda do Delfim e bacalhau escárnio e maldizer.”
Entretanto, nas doze horas de espera, percorremos alguns dos locais emblemáticos da cidade. É um domingo de Julho, de um calor sufocante. Encharcado em suor, o narrador precisa de comprar uma camisa. Mete-se num táxi mas terá de ser ele a indicar o caminho, rua por rua, ao “Chauffeur de Táxi”, um imigrante são-tomense que está cá há pouco tempo. Isto é Lisboa.
Passamos pelo Chiado, inevitavelmente, e dirigimo-nos ao cemitério dos Prazeres, ponto de paragem obrigatória. Estamos num requiem, é bom não esquecer. Um requiem, explica Tabucchi na nota introdutória, executado “numa gaita de beiços, que se pode levar no bolso, ou num realejo, que se pode levar pelas ruas.”
Havemos de passar, sucessivamente, pelo Museu de Arte Antiga, pela Casa do Alentejo, às Portas de Santo Antão, ou pelo Terreiro do Paço, sem tapumes, onde voltamos a ter consciência de que a literatura nos proporciona experiências que – pelo menos por enquanto – nós, os lisboetas de 2009, não podemos obter de outro modo: “o Terreiro do Paço estava solitário, um cacilheiro apitou antes de partir, as únicas luzes que se viam no Tejo eram as suas, tudo estava imóvel como num encantamento.”
“Requiem”, de António Tabucchi, é uma das mais belas cartas de amor a Lisboa das últimas décadas. Um romance que o escritor italiano compôs directamente em português. O que também, só por si, é já uma extraordinária declaração de amor.»
Carlos Vaz Marques
 

sábado, 24 de março de 2012

Fernando Pessoa: Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal


«Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.
Outro é o português que o não é. Começou com a invasão mental estrangeira, que data, com verdade possível, do tempo do Marquês de Pombal. Esta invasão agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a República. Este português (que é o que forma grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) é o que governa o país. Está completamente divorciado do país que governa. É, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, é estúpido.
Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas, criou a civilização transoceânica moderna, e depois foi-se embora. Foi-se embora em Alcácer Quibir, mas deixou alguns parentes, que têm estado sempre, e continuam estando, à espera dele. Como o último verdadeiro Rei de Portugal foi aquele D. Sebastião que caiu em Alcácer Quibir, e presumivelmente ali morreu, é no símbolo do regresso de El-Rei D. Sebastião que os portugueses da saudade imperial projectam a sua fé de que a família se não extinguisse.
Estes três tipos do português têm uma mentalidade comum, pois são todos portugueses mas o uso que fazem dessa mentalidade diferencia-os entre si. O português, no seu fundo psíquico, define-se, com razoável aproximação, por três característicos: (1) o predomínio da imaginação sobre a inteligência; (2) o predomínio da emoção sobre a paixão; (3) a adaptabilidade instintiva. Pelo primeiro característico distingue-se, por contraste, do ego antigo, com quem se parece muito na rapidez da adaptação e na consequente inconstância e mobilidade. Pelo segundo característico distingue-se, por contraste, do espanhol médio, com quem se parece na intensidade e tipo do sentimento. Pelo terceiro distingue-se do alemão médio; parece-se com ele na adaptabilidade, mas a do alemão é racional e firme, a do português instintiva e instável.
A cada um destes tipos de português corresponde um tipo de literatura.
O português do primeiro tipo é exactamente isto, pois é ele o português normal e típico. O português do tipo oficial é a mesma coisa com água; a imaginação continuará a predominar sobre a inteligência, mas não existe; a emoção continua a predominar sobre a paixão, mas não tem força para predominar sobre coisa nenhuma; a adaptabilidade mantém-se, mas é puramente superficial — de assimilador, o português, neste caso, torna-se simplesmente mimético.
O português do tipo imperial absorve a inteligência com a imaginação — a imaginação é tão forte que, por assim dizer, integra a inteligência em si, formando uma espécie de nova qualidade mental. Daí os Descobrimentos, que são um emprego intelectual, até prático, da imaginação. Daí a falta de grande literatura nesse tempo (pois Camões, conquanto grande, não está, nas letras, à altura em que estão nos feitos o Infante D. Henrique e o imperador Afonso de Albuquerque, criadores respectivamente do mundo moderno e do imperialismo moderno) (?). E esta nova espécie de mentalidade influi nas outras duas qualidades mentais do português: por influência dela a adaptabilidade torna-se activa, em vez de passiva, e o que era habilidade para fazer tudo torna-se habilidade para ser tudo.» 

In Sobre Portugal – Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão) Lisboa, Ática, 1979.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Leonard Cohen: Going home

Ana Hatherly: O jogo é um itinerário


Na minha oficina herética
o labirinto contraria o linear:
percorre-me
como se fosse uma veia
segura em seus meandros

A não-necessidade, o que seria?
que nova desordem criaria?
que outras descobertas?

A fugaz eternidade das ideias-mestras
incessante refaz os jogos da racionalidade
mas o jogo é um itinerário
e a sedução do rigor
recoloca-nos incessantemente na senda do desejo.

Ana Hatherly

in Itinerários, Edições quasi, 2003

segunda-feira, 12 de março de 2012

Se Séneca o diz...


«Se não me engano, foi Cúrio Dentado que disse que preferia morrer do que viver morto: o pior dos males é sair do mundo dos vivos antes de morrer. Mas, se vivemos num tempo em que a vida pública é intratável, devemos dedicar-nos sobretudo ao ócio e às letras, tal como, numa perigosa travessia, se anseia constantemente alcançar o porto; nem esperes que os assuntos te abandonem, liberta-te deles por ti próprio.» (*)

Este conselho de Séneca deve ter ficado tão bem gravado no meu espírito que agora, ao relê-lo, me apercebo que é exactamente o que tenho feito ultimamente, ou seja, que não tenho esperado que os assuntos públicos, de entre os quais os da política diária, (ou talvez fosse mais apropriado dizer, da politiquice diária) me abandonem, mas que tenho sido eu a libertar-me deles, não acrescentando nem mais uma linha ao que escrevi há alguns meses sobre o que me parecia verdadeiramente importante para o nosso futuro enquanto país. E é o todo que continua a interessar-me, não os “fait divers”.


(*) Lúcio Aneu Séneca, in A Felicidade e a Tranquilidade da Alma, Ésquilo Edições, Lisboa, 1.ª edição, 2006, p. 78, V. 5.

sábado, 10 de março de 2012

José de Almada Negreiros: Panfleto Social


Eh comunistas! Eh fascistas!
Eu sei, eu sei:
«Não há esconderijo senão nas massas»!
Assim mesmo necessitais de inimigos.
Chamais construir: eliminar inimigos.

                       * * *
Volto à leviandade
a essa acrobata mágica
que realiza como a imaginação
volto ao meu poder
à minha colaboração terrena
volto às gaffes
ponho outra vez os meu olhos
inconvenientes como o amor
e tiro aliviado os óculos sociais
graduados de conveniência
e com os aros oficiais.
Desisto do escritor
prefiro o protagonista do livro do autor
fujo de casa e escondo-me na rua
fujo do nome e mais do renome
não há esconderijo senão nas massas.
A Arte só vale quando todos forem artistas
e não só os privilegiados
esses que responderam à chamada.
Morro farto de procurar semelhantes
só vejo chefes e secretários
mestres e discípulos
filhos e pais
secundários e principais
amos e servidores
criados e patrões
todos iguais.
Mais uma geração a cantar construção.
Conto quatro:
um, dois, três, quatro
Todos por bem.
Eu sei, eu sei:
«não há esconderijo senão nas massas!
Os ricos que paguem!
Os pobres que morram!
não seremos pobres nem ricos
todos iguais
iguais como os semelhantes
custa muito todos semelhantes
dá no mesmo todos iguais.»
Achei altas montanhas fora da geografia
longe da perseguição
mas o meu corpo vulnerável não passa
por onde me passa a alma.

A sociedade está podre
já fede
e não lhe cheira,
o mal só se vê nos outros
só cheira nos outros:
quando o mal é nosso
pegaram-nos
é um mal estranho.
Disseram que o homem é um animal social
aí o têm
arranjaram-na bonita.
E se calhar estão todos como eu.
Quem nos teria posto em sociedade?
Quem fez de «todos» uma realidade
ou estava a pensar na lua
ou doente de paranóia.
Que linda ideia: «Todos!»
E mais ainda: «o bem de todos!»
Serei parvo ou imbecil
só entendo cada um.
Vejo até por mor de todos
dar cabo de cada um.
Não quero mal a ninguém
mas já tenho raiva a todos.
Isto de levar cada um a ter raiva a todos
é igualzinho a desejar o bem comum
lindas maneiras de eliminar a cada um.
Porque a sociedade é de alguns
alguns daqui e alguns d’acolá
«alguns» não pode deixar de ser contra alguns
é a guerra de grupos de cá e de lá
bem diferente das batalhas de cada um.
E quando nós pertencemos a um grupo
ou contra ele ou não somos de nenhum
o mesmo dá
andam connosco às voltas
e nós a zero
no cabide
esquecemo-nos de nos levar connosco
fizeram-no-lo esquecer
falaram-nos no bem de todos.
Todos! Essa conta que ninguém sabe somar
e que nos faz suar
a nós, as suas parcelas
todos juntos para simplificar
mais simples que todos é impossível
quem foi o da ideia?
Lindas maneiras de eliminar a cada um.
Em qualquer sítio onde um seja apanhado
aí mesmo o fazem soldado
e dão-lhe o sítio p’ra defender
um pedaço de terra com significação
pois que chamam civilização
andarem os homens agrupados
e como há vários lados em toda a combinação
fazem-nos parte de todos os de um lado
e não entendemos todos
que nos matam um por um por todos os lados
em nome da sociedade.
Que nos mate a morte já o sabíamos
mas que ponham o ferro a explodir
para não escapar nem um
que outro sentido poderá agora ter a morte
do que o de um acidente provocado?
Isto tira valor à morte
como à vida lhe tiraram todo o sentido
foi a tal ideia de «todos»
que pôs isto neste estado.
Pode limpar as mãos à parede
o homem que teve a ideia de sociedade
e também aquele que disse
que éramos um animal social.

José de Almada Negreiros 

in Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001, pp. 158/162

sexta-feira, 2 de março de 2012

Giorgio Agamben em debate no Porto

Nos próximos dias 8 e 9 de Março, realiza-se um colóquio sobre o pensamento de Giorgio Agamben, no Centro Unesco do Porto, Rua José Falcão, 100, com entrada livre, de que transcrevo o programa completo:


Programa
Colóquio/ jornadas de estudo
sobre o pensador italiano contemporâneo
Giorgio Agamben (n. 1942)
 
Dias 8 e 9 de Março de 2012 – Centro Unesco do Porto – Rua José Falcão, 100 – colaboração da Fundação Eng.º António de Almeida, Porto – organização da SPAE e da ADECAP (associações científicas e culturais sem fins lucrativos sedeadas no Porto).
 
Entrada livre sem necessidade de inscrição prévia.
Coordenação conjunta de Vítor Oliveira Jorge e de
Luís Carneiro
____________________________________
Dia 8. Quinta-feira

9h00 Vítor Oliveira Jorge – Breve apresentação de Giorgio Agamben na perspectiva de uma pessoa sem formação em filosofia: por que interessa tanto a todos este pensador contemporâneo?

9h30 Luís Carneiro – Breve apresentação geral da obra/ perfil filosófico de Giorgio Agamben

10h00 Cíntia Gil – Considerações sobre o contemporâneo
10h30 Gonçalo Leite Velho - Indelével: Gesto, Memória e Cinema

Debate (11h00-13h00)

15h00 André Dias – Contra a vontade

15h30 Rossana Mendes Fonseca – Assinatura, Enunciado, Arquivo

16h00 Viriato Porto – A comunidade que vem, ou o pós-anarquismo de Agamben

Debate (16h30-18h00)
________________________________
Dia 9. Sexta-feira

9h00 Maria José Barbosa – A experiência como mistério – leitura da história segundo Agamben
9h30 Joana Alves Ferreira – Homo qua Homo. O lugar singular de um corpo aprisionado. A obra “O Aberto” de Giorgio Agamben no contexto da relação entre homem e natureza, entre homem e técnica e entre natureza e história
10h00 Ana Vale – Paradigma e emergência em Arqueologia. Uma leitura dos textos: O que é um paradigma e Arqueologia Filosófica de Giorgio Agamben
10h30 Sérgio Gomes – O Passado, os Indícios e as Pistas: um cruzamento da leitura de Giorgio Agamben, Michel de Certeau e Tim Ingold

Debate (11h00-13h00)

15h00 Pedro A.H. Paixão – A questão das «medialidades puras» em Giorgio Agamben
15h30 Jorge Leandro Rosa – O messiânico como crise do pacto arcaico
16h00 António Caselas – A vida indomável, para além da regra e do direito

Debate final (16h30-18h00)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A.Schopenhauer: 224.º aniversário de nascimento


Aproveitando a efeméride, escolhi este excerto por constatar a continuação da sua actualidade em muitos relacionamentos humanos, e porque, sendo assim, e faltando a alguns a capacidade para o insulto e para a rudeza, muito menos para “tiros e estocadas”, já se vê em que situação ficam os que optam pela via do direito, da razão e da verdade.

«Assim como ser insultado é uma vergonha, insultar é uma honra. Por exemplo, mesmo que a verdade, o direito e a razão estejam do lado do meu adversário, não deixo de insultá-lo; desse modo, todas as suas qualidades passam a ser desconsideradas, e o direito e a honra passam a estar do meu lado. Ele, pelo contrário, perdeu provisoriamente a sua honra – até conseguir restabelecê-la, não mediante direito e razão, mas por tiros e estocadas. Logo, a rudeza é uma qualidade que, no ponto de honra, substitui ou se sobrepõe sobre as outras. O mais rude tem sempre razão: para quê tantas palavras? Qualquer estupidez, insolência, maldade que alguém possa ter feito, uma rudeza retira-lhes essa característica e elas são de imediato legitimadas. Se, numa discussão ou conversa, outro indivíduo mostra conhecimento mais correcto do assunto, um amor mais austero à verdade, um juízo mais saudável, mais entendimento que nós, ou se em geral exibe méritos intelectuais que nos deixam na sombra, então podemos de imediato suprimir semelhantes superioridades e a nossa própria mesquinhez por elas revelada e sermos, por nosso turno, superiores, tornando-nos ofensivos e rudes.

Pois uma rudeza derrota todo o argumento e eclipsa qualquer espírito; isso se o oponente não tomar parte nela e replicar com outra maior ainda. Não o fazendo, chegamos à vantagem no nobre desafio; desse modo, permanecemos vitoriosos e com a honra do nosso lado. Verdade, conhecimento, entendimento, inteligência e espírito têm de ser desconsiderados e acabam por ser reprimidos pela divina rudeza. Por conseguinte: as “pessoas de honra”, tão logo são confrontadas com uma opinião diferente da sua ou simplesmente com um entendimento mais arguto que pode contradizê-las, preparam-se imediatamente para montar no seu cavalo de batalha, e se, numa controvérsia, lhes faltar um contra-argumento, procurarão uma rudeza, que servirá para o mesmo fim e é mais fácil de encontrar. Em seguida, vão-se triunfantes. Nesse caso, já se vê o quão é justo dizer, em louvor do princípio da honra, que ele enobrece o tom em sociedade.»

A. Schopenhauer (22/02/1788 – 21/09/1860)

In Aforismos para a Sabedoria da Vida

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro: "Justiça"


Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.

Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles.
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!

Haver injustiça é como haver morte.
Eu nunca daria um passo para alterar
Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.
Mil passos que desse para isso
Eram só mil passos.
Aceito a injustiça como aceito uma pedra não ser redonda,
E um sobreiro não ter nascido pinheiro ou carvalho.

Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais.
Para qual fui injusto — eu, que as vou comer a ambas?

Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Pode-se sempre responsabilizar Hegel


Diz Keith Ward que há pessoas muito preocupadas com o que acontecerá daqui a cinco mil milhões de anos, como se, então, ainda cá estivessem. Acrescenta mesmo: «Algumas pessoas queixam-se por não viverem para sempre, mas não conseguem pensar em nada para fazer numa tarde chuvosa de Domingo.» Como a primeira parte da questão não se me aplica, vou ao que pude fazer, não numa tarde chuvosa mas numa tarde gélida de Domingo, e que foi a releitura do capítulo Marx e a dialéctica da História, do livro Deus e os Filósofos, do referido autor, que, de uma forma muito peculiar, aborda a história das ideias ocidentais. E como também estamos a viver numa época muito peculiar [Atenas já esteve a arder], nada melhor do que trazer à memória algumas ideias que estiveram subjacentes a alguns conflitos que se tornaram mundiais. O texto é longo mas, como fico horrorizada quando algo que li ou ouvi, na íntegra, apareça na comunicação social cirurgicamente cortado e descontextualizado, atribuindo-se-lhe um significado que não tinha à partida, não procedi a qualquer corte, pois, aqui, seria como cortar o raciocínio do autor.
No capítulo que mencionei, escreve: «Karl Marx (1818-83) usou a teoria de Hegel nos seus próprios escritos sobre comunismo. Mas, para o fazer, teve que virar Hegel de cabeça para baixo, nas palavras do próprio Marx. Virado de cabeça para baixo, Hegel já não consegue dizer “Espírito Absoluto”. Sempre que tenta fazê-lo, saem-lhe as palavras “materialismo dialéctico”.
Hegel tinha atribuído ao Espírito a prioridade causal em todas as coisas. É o Espírito, defendia ele, que gera o Universo, que concretiza a sua própria natureza nos acontecimentos da História, e que incorpora todas as coisas na sua própria experiência perfeita. Para Marx, a força motriz da História é a “matéria”, e por “matéria” ele não entendia os electrões ou pedaços de substância inanimada, mas antes as forças da produção e comércio económicos. A História não é conduzida a partir de cima, mas a partir de baixo, pelas forças da competição e da sobrevivência.
De acordo com a teoria da evolução de Darwin, publicada em 1859, onze anos depois do Manifesto Comunista, os animais sobrevivem porque competem pela sobrevivência num ambiente hostil, e algumas mutações afortunadas vencem essa competição por estarem melhor adaptadas ao seu ambiente. Da mesma forma, para Marx, a História é conduzida por forças de competição com o objectivo de produzir e comercializar bens. Não se trata de um progresso guiado pelo Espírito, rumo à paz e à justiça, mas um processo guiado pele ganância e caracterizado por uma implacável competição e eliminação.
Ainda assim, existe, supostamente, uma espécie de inevitabilidade no processo. Darwin, sem dúvida que influenciado pelas filosofias evolutivas que prevaleciam na época, pensava que os animais estavam destinados a adaptar-se cada vez melhor através da selecção natural, pelo que não havia nenhum limite para a sua perfeição. Assim, Marx pensou que a história económica estava destinada a desembocar numa espécie de sociedade utópica onde todos teriam o suficiente do que quisessem e todos seriam livres de fazer o que quisessem. Podem caçar de manhã, pescar durante a tarde e tratar do gado ao cair da noite, disse ele num dos seus raros momentos de feliz optimismo [a frase encontra-se na Ideologia Germânica].