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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Dos vivos e dos mortos

Há algum tempo que andava a pensar em fazer uma experiência, cujo resultado pudesse ser-me útil na avaliação da preocupação real dos vizinhos face aos que vivem sozinhos no mesmo prédio ou rua, com ou sem familiares vivos ou conhecidos. Não tenho a certeza se essa ideia se manifestou pela primeira vez depois de ler o livro de José Saramago, “Todos os Nomes”, publicado em 1997, mas sempre que alguém é notícia por ter morrido sozinho em casa, é deste livro que me lembro, não por tratar deste assunto, mas por deixar aquela sensação de não sermos mais do que um simples nome, que nos deram, e que consta de um verbete na Conservatória, a não ser que alguém se interesse e resolva dar todos os passos necessários para saber a pessoa que somos ou fomos. A citação que José Saramago escolheu para este romance é do Livro das Evidências: «Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens».

Nesta experiência não tive qualquer preocupação com a idade ou estatuto social dos envolvidos, porque, quem vive sozinho, tenha a idade e a riqueza ou pobreza que tiver, não está excluído da chamada “morte súbita”, e, por conseguinte, sem possibilidade de pedir ajuda ou socorro médico. Também não estabeleço qualquer equivalência entre viver sozinho e solidão, porque há quem viva sozinho por escolha e não a sinta. Por fim, não tinha como objectivo analisar os serviços prestados pelo Estado, autarquias ou IPSS, mas as que me parecem mais importantes para avaliar a preocupação genuína e o carácter das pessoas, e que são as relações de vizinhança, permitindo avaliar também se o seu discurso correspondia à acção. Assim, o que havia a fazer era que cada um, nessa situação, em conversa com um vizinho, trouxesse para a mesma o facto de viver sozinho e demonstrar a preocupação de que, se a sua morte ocorresse, ninguém se aperceberia disso, uns porque não tinham família, outros porque, tendo-a, era como se não tivessem, pois todos sabemos que a família não se escolhe, tudo isto para ver qual a reacção dos vizinhos interlocutores. E os resultados foram, no mínimo, decepcionantes. Com as magníficas excepções que, felizmente, sempre há, em que houve troca de números de telefone e a promessa e concretização de contactos regulares, a maioria lembrou-se, a meio da conversa, do quanto estava atrasada para qualquer compromisso, não sem antes se despedir com aquelas frases-feitas, que, por o serem, não têm qualquer significado por não corresponderem a sentimentos genuínos, e alguns passaram mesmo a evitar esses vizinhos solitários, qual doença contagiosa, ou evitando partilhar o elevador, ou mudando de passeio na rua.

Não sei se é este tipo de pessoa que, quando a morte bate à porta de um desses vizinhos, e as televisões vão indagar do seu relacionamento com ele, mostra um sorriso idiota, que fico sem saber se é motivado por uma eventual alegria de aparecer na TV, ou se se trata de um esgar provocado por algum peso na consciência, se é que a tem, por não ter feito o que devia enquanto era tempo, não raro atribuindo mesmo à maneira de ser do defunto esse desfecho, defunto de que, muitas vezes, nem sabe o nome. Chamem-lhe insensibilidade, indiferença, egoísmo, desumanidade, aqui também valem todos os nomes.

«Temos mais força do que vontade; e é muitas vezes para nos desculparmos a nós mesmos que imaginamos que certas coisas são impossíveis.» (La Rochefoucauld)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

José Saramago, para recordar sempre

No próximo dia 18 de Junho completa-se um ano em que fiquei sem palavras, pela emoção e choque, ao saber da notícia da morte de José Saramago, embora ela fosse esperada, dado o seu estado de saúde.

Agora, com a serenidade que o passar do tempo ajuda a reencontrar, partilho convosco os convites que recebi da Fundação José Saramago, para os eventos que decorrerão nos dias 18 e 19 de Junho (Sábado e Domingo), em Lisboa.


A 18 de Junho, pelas 11:00 horas, no Campo das Cebolas, junto à Casa dos Bicos:

«A 18 de Junho, um ano depois da sua morte, as cinzas de José Saramago serão depositadas diante da Casa dos Bicos, frente ao rio Tejo, em Lisboa.

O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, a Junta de Freguesia de Azinhaga e a Fundação José Saramago convidam V. Exa. para um acto que não será de despedida, porque há pessoas a quem não se pode dizer adeus.

No acto intervirão o professor e cantor lírico Jorge Vaz de Carvalho, que lerá "Palavras para uma Cidade", de José Saramago, e a escritora Lídia Jorge. Actuará a Orquestra de Percussão Tocá Rufar.

O Presidente da Câmara Municipal de Lisboa António Costa encerrará a cerimónia.»


A 19 de Junho, pelas 18:30 horas, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém:

«A Ministra da Cultura e a Fundação José Saramago convidam V. Exa. para o espectáculo "As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz", com música de Joseph Haydn e textos de José Saramago.

Concepção de cena: Teresa Villaverde
Interpretação: Orquestra Sinfónica Portuguesa

Entrada livre sujeita à lotação da sala.
Os bilhetes podem ser levantados nos seguintes locais:
- Centro Cultural de Belém, diariamente, das 11 às 20 Horas;
- Cinema São Jorge, de Segunda a Sábado, das 13 às 19 Horas, até ao dia 18 de Junho.

PARA LEVANTAR BILHETES NÃO É NECESSÁRIO TER CONVITE.»

«Mas não subiu para as estrelas se à terra pertencia.»
José Saramago
1922-2010

sábado, 19 de junho de 2010

Sobre José Saramago, a idiotia não vem de Espanha

Cansada de ouvir frases-feitas, de circunstância, de muitos que, muito possivelmente, não leram um único livro de José Saramago, e de ler um ou outro texto de pseudo-intelectuais que nada acrescentam que, a meu ver, tenha interesse, foi com verdadeiro deleite que li o que escreveram José Luis Rodríguez Zapatero, Primeiro Ministro espanhol, do PSOE (Partido Socialista Obrero Español) e Mariano Rajoy, do Partido Popular (PP) espanhol, de momento na oposição, textos publicados hoje na secção de Cultura do jornal El País e que se podem ler aqui no original:

JOSÉ LUIS RODRÍGUEZ ZAPATERO

EL PAÍS  -  Cultura - 19-06-2010
Tu abuelo, nos contaste, intuyendo el final de su existencia en la Tierra, fue diciendo adiós a los amigos, a su familia, a la naturaleza, porque quería estar lúcido y presente cuando la muerte llegara. Por eso, se abrazaba a los árboles que guardaban las páginas escritas de su vida.
Me llega la triste noticia de tu muerte y te evoco, el verano pasado, en la biblioteca de tu casa de Lanzarote. Vuelves a ser el perfecto anfitrión, el hombre cortés, inteligente, generoso, al que le gusta compartir la amistad. Me honra ser tu invitado. Pilar, tu compañera, tu cómplice, parece señalar en silencio a todos y cada uno de tus personajes en ti: al Ricardo Reis que se compadece de la soledad de los poetas y ayuda a no temer la memoria, a los inventores de artefactos angélicos que quieren enseñar a los seres humanos a volar "aunque les cueste la vida", a aquel alfarero que libra a los esclavos de una nueva caverna porque se niega a aceptar ciertas cegueras que imponen desigualdad y dolor.
Tú, que has sido también todos los nombres, no terminas aquí. 2010 es ya, para siempre, el año de la muerte de José Saramago, pero tus libros forman un maravilloso bosque de dignidad. Y yo me abrazo al árbol para mantener tu memoria.
MARIANO RAJOY

EL PAÍS  -  Cultura - 19-06-2010
Con José Saramago desaparece un novelista enérgico, comprometido con la fuerza de la palabra. Sus libros son testimonio de ello. Intensos, arrebatados, desvelan la precisión visionaria de quien escribía desde dentro, invocando una pasión íntima que surgía de la imaginación, pero que no renunciaba a tener los pies en la tierra, palpando sus contradicciones y sus injusticias. Sé que no compartíamos el mismo horizonte político. Él creía en unos ideales que no son los míos, pero eso no impide que aprecie en su obra la convicción compartida de que la dignidad del hombre, más allá de las diferencias, siempre cuenta. Sus personajes mostraban esta forma de pensar. En ellos latía un aliento pesimista que dejaba abierta una puerta a la esperanza, a la espera de que el lector sacara sus propias conclusiones acerca de su conducta: de lo que hacía con su vida y de cómo lo hacía. El año de la muerte de Ricardo Reis, Memorial del convento o Ensayo sobre la ceguera son ejemplos de este proceder literario. Saramago fue uno de los grandes escritores del siglo XX y un gran amigo de España. El reconocimiento internacional que mereció su obra fue, también, un homenaje esperado al portugués: una lengua portentosa, bella y fértil desde sus orígenes; una lengua próxima, íntima, hermana, como el pueblo que la habla y que siente a través de ella.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010)

A notícia da morte de José Saramago é daquelas que, desde há um ano, quando se agravou o seu estado de saúde, me pareceu não iria apanhar-me desprevenida. Mas não aconteceu assim, e estou desolada e incapaz de explicitar um mínimo de pensamento articulado e coerente. Também não vou escolher qualquer passagem de um dos seus livros para transcrever aqui, vou apenas recolher-me.
À família, amigos e leitores expresso o meu profundo pesar.