terça-feira, 29 de outubro de 2024
«Ventura, Pedro Pinto e o meu tio reaccionário»
domingo, 30 de setembro de 2012
A minha TSU
domingo, 29 de julho de 2012
A monja e o capitalismo não ético
segunda-feira, 12 de março de 2012
Se Séneca o diz...
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Pode-se sempre responsabilizar Hegel
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Qual a melhor forma de governo?
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Paulinho, afinal o que é que o menino quer?
domingo, 6 de março de 2011
Fawzia Koofi e as mulheres no Afeganistão
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Bertolt Brecht - "A solução"
domingo, 16 de janeiro de 2011
Martin Luther King Jr - I Have a Dream
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Mendo Castro Henriques - Livro "Vencer ou Morrer" (entrevista)
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Não devíamos saber já as funções de um Presidente da República?
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Henrique Raposo - Sócrates dá razão a Ferreira Leite e a Passos
Também AQUI.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Esboço de mensagem a Pedro Passos Coelho
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Fernando Pessoa - A doença da disciplina
Tão regrada, regular e organizada é a vida social portuguesa que mais parece que somos um exército do que uma nação de gente com existências individuais. Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando, por um milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à Pátria de ter um gesto, um pensamento, ou um sentimento independente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção da sua crítica.
Parecemo-nos muito com os alemães. Como eles, agimos sempre em grupo, e cada um do grupo porque os outros agem.
Por isso aqui, como na Alemanha, nunca é possível determinar responsabilidades; elas são sempre da sexta pessoa num caso onde só agiram cinco. Como os alemães, nós esperamos sempre pela voz de comando. Como eles, sofremos da doença da Autoridade – acatar criaturas que ninguém sabe porque são acatadas, citar nomes que nenhuma valorização objectiva autentica como citáveis, seguir chefes que nenhum gesto de competência nomeou para as responsabilidades da acção. Como os alemães, nós compensamos a nossa rígida disciplina fundamental por uma indisciplina superficial, de crianças que brincam com a vida. Refilamos só de palavras. Dizemos mal só às escondidas. E somos invejosos, grosseiros e bárbaros, de nosso verdadeiro feitio, porque tais são as qualidades de toda a criatura que a disciplina moeu, em quem a individualidade se atrofiou.
Diferimos dos alemães, é certo, em certos pontos evidentes das realizações da vida. Mas a diferença é apenas aparente. Eles elevaram a disciplina social, temperamentalmente neles com em nós, a um sistema de estado e de governo; ao passo que nós, mais rigidamente disciplinados e coerentes, nunca infligimos a nossa rude disciplina social, especializando-a para um estado ou uma administração. Deixamo-la coerentemente entregue ao próprio vulto integral da sociedade. De aí a nossa decadência!
Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchamos essa revolução com a brandura com que tratamos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficamos miserandamente os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e fingimento.
Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles saem? As poucas figuras que de vez em quando têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira coisa que fazem? Organizam um partido… Caem na disciplina por uma fatalidade ancestral.
Trabalhemos ao menos – nós, os novos – por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa. Escrupulizemos no doentio e no dissolvente. E a nossa missão, a par de ser a mais civilizada e a mais moderna, será também a mais moral e a mais patriótica.»
Fernando Pessoa / Ideias Políticas
(sublinhados meus)










