sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Frederico Lourenço, Utopia setecentista em Jerusalém



«A literatura do século XVIII não é só punhos de renda e saias em balão. Também não é só o cinismo de Valmont nas “Ligações Perigosas” (1782) nem só a exaltação suicidária de Werther (1774). Para lá do mártir judeu António José da Silva ou do libertino Casanova (e diferentemente de Samuel Johnson ou de Voltaire) há um homem-mundo chamado Lessing. E não há melhor ponto de partida para se considerar esta fascinante figura do que a sua peça “Nathan o Sábio” (“Nathan der Weise”). Publicada em 1779 mas só representada, já depois da morte de Lessing, em 1783, este drama supremo do Humanismo, este apelo à reconciliação das três grande religiões monoteístas (Judaísmo, Cristianismo, Islão) não só estilhaça todos os lugares-comuns sobre a literatura setecentista como, em 2014, não podia ser mais actual.
A acção da peça desenrola-se em finais do século XII, na cidade das Três Religiões, Jerusalém, num momento histórico em que perfazia mais ou menos vinte anos que o Papa se dignara admitir a existência de um pequeno país chamado Portugal. Em Coimbra, na altura a capital portuguesa, reinava Sancho, primeiro de seu nome. Em Jerusalém reinava Saladino, o feroz déspota muçulmano, que a tradição romanesca sempre gostou de pintar com cores de nobreza sanguinária.
Mas Saladino, antes mesmo de começar a peça “Nathan o Sábio”, acabara de ter um gesto não-sanguinário que deixara a cidade de Jerusalém estupefacta. Salvou da pena de morte um jovem cavaleiro templário cuja cabeça já estava no cepo. Jovem templário esse cuja primeira acção, após o indulto inesperado do sultão, é salvar das chamas uma jovem judia – a filha adoptiva de Nathan, o sábio judeu protagonista da peça. Logo antes, portanto, de a trama da peça começar, temos estes gestos inusitados de compreensão e de tolerância da parte de um muçulmano para com um cristão e da parte de um cristão para com uma (alegada) judia.
Seria pena contar aqui o enredo desta obra dramática fascinante; não quero estragar a leitura a quem não a tenha lido ainda. Não deslustrarei, contudo, a teia de ingredientes bem aristotélicos (peripécia, catástrofe, anagnórise) se referir aqui o momento-chave deste drama, que ocorre quando o judeu Nathan conta ao sultão a História dos Três Anéis.
Havia outrora um anel que detinha o poder de tornar quem o usava amado à vista de Deus e dos homens. Este anel foi passando de geração em geração, até que um pai de três filhos quis deixá-lo àquele dos três a quem ele mais amava. No entanto, apercebeu-se antes de morrer que amava os três filhos de forma igual. Assim, mandou fazer em segredo duas cópias do anel sagrado e, no leito de morte, deu um anel a cada filho, já insciente de qual era o verdadeiro anel. Os próprios filhos, incompatibilizados entre si, esforçam-se por descobrir qual dos três anéis é o verdadeiro – aquele que daria ao seu possuidor o poder mais legítimo. Mas as cópias estavam tão bem feitas que era impossível distinguir os anéis entre si. Por fim, litigando uns contra os outros perante um sábio juiz, ouvem da boca deste a sentença, segundo a qual o que conta é o amor com que o pai legou os anéis aos três filhos amados, pelo que das duas uma: ou os três anéis têm de ser considerados falsos; ou então são os três verdadeiros.
Esta belíssima parábola tem como referente óbvio as três religiões: Judaísmo, Cristianismo e Islão. Nenhuma das três é “a verdadeira”, porque cada uma das três é verdadeira. Mais: nas palavras do juiz, as três religiões são necessárias e requeridas por Deus. “É possível que o Pai já não quisesse em sua casa a tirania do único anel”.
Muito à frente do seu tempo e – como as tensões persistentes entre judeus, muçulmanos e cristãos ainda hoje provam – muito à frente do nosso, este extraordinário texto de Lessing constitui um convite à reflexão e desafia-nos a considerar o fenómeno religioso sob o prisma das Luzes. Prisma de que continuamos ainda tão precisados hoje no mundo inteiro.
Ao mesmo tempo, o enredo da peça pretende confirmar a importância da consciência individual; a importância da escolha que cada um faz e que os outros têm de respeitar. No meio de tantos pensamentos ousados e de tantas frases arrojadas com que nos deparamos em “Nathan o Sábio”, há uma expressão que me parece constituir o arrojo supremo: “ninguém deve ser obrigado a nada” (“niemand muss müssen”). Em 2014, temos tanto a aprender com este texto de 1779.»

Frederico Lourenço (texto publicado hoje no Facebook)

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Rui Ramos, Se eu fosse mesmo um neo-liberal



«Se eu fosse mesmo um “neo-liberal”, um daqueles sicários sem escrúpulos do “capitalismo selvagem”, como as esquerdas gostam de dizer, que queria eu? Segundo as esquerdas anti-capitalistas, a minha lista para o Pai Natal seria a seguinte: acabar com o Estado social, baixar os salários de toda a gente menos dos executivos ricos, e, já agora, instaurar uma ditadura. Vamos então admitir que, enquanto “neo-liberal” selvagem, eram esses os meus desejos. Acontece que, depois, as esquerdas acrescentam que eu também quero a troika, a austeridade, e a dívida. E é aqui que as esquerdas não fazem sentido.

Não, meus caros amigos anti-capitalistas, estão muito, mas mesmo muito enganados. Se eu fosse um neo-liberal desalmado, com os objectivos que a esquerda atribui a essa espécie biológica, eu não queria a troika, nem aceitaria a austeridade, nem estaria disposto a pagar a dívida. Muito pelo contrário. Se eu fosse mesmo, mas mesmo, um neo-liberal desses que vos assustam tanto, o que eu queria era a bancarrota, a saída do euro, a desvalorização e a inflação, que foi aquilo que a troika e a austeridade preveniram até agora.

E porquê? Porque a bancarrota, a saída do euro, a desvalorização e a inflação, seriam a via mais segura para liquidar o Estado social, comprimir definitivamente os salários e talvez mesmo experimentar, com o país fora da UE, algum velho autoritarismo. Se eu fosse um neo-liberal como a esquerda os pinta, eu não queria ver Passos Coelho no governo a prever a reposição dos salários do Estado, nem Paulo Macedo a viabilizar o SNS, ou Nuno Crato a tentar corrigir o ensino público. Não, o que eu queria era ver António Costa (ou Seguro), Catarina Martins e Jerónimo de Sousa muito juntinhos num governo “verdadeiramente de esquerda”, a renegar a dívida pública, a recusar o tratado orçamental europeu, a adoptar uma nova moeda, e a sair da UE. Num país sem os petróleos do socialismo venezuelano, era meio caminho andado para a declaração de irrelevância do Estado social e para uma economia de salários cubanos.

As esquerdas anti-capitalistas atribuem todos os males do país ao ajustamento. Até o facto de não renovarmos gerações, como se isso já não acontecesse desde 1981. É verdade: a austeridade restringiu subsídios e carregou impostos. Sim, perdemos poder de compra, mas menos do que no ajustamento de 1983-1985, e muito menos do que se já estivéssemos a ser pagos em moeda desvalorizada. Sim, há menos beneficiários do Rendimento Social de Inserção. Mas sem a austeridade, não teria havido ajuda externa e não haveria hoje RSI, ou melhor, talvez houvesse, mas com valores equivalentes a não haver.

Se o neo-liberalismo pretende, como a esquerda diz, encerrar o Estado social, pôr os trabalhadores a pão e água, e impor uma ditadura, então o ajustamento frustrou os neo-liberais: manteve-nos na Europa democrática, ressalvou a maior parte do nosso poder de compra (segundo o INE, os nossos rendimentos estão agora ao nível de 2007, o que, convenhamos, não era o de 1975), e salvaguardou a estrutura do Estado social, com os seus programas principais. Mais: reforçou, até, o peso fiscal do Estado, o que, segundo os manuais, não é exactamente liberal. O programa de ajustamento negociado com a troika poupou assim a sociedade portuguesa a uma transição brusca, como a que teria ocorrido se tivesse faltado financiamento externo à economia. No entanto, os altifalantes do anti-capitalismo nacional não gostam. Pelos vistos, não lhes importa a democracia, o Estado social, e o poder de compra. Querem ver que são eles os neo-liberais?»

sábado, 7 de junho de 2014

Possidónio Cachapa (citação)



«Todos os jornais falam da política como falam da bola: por bitaites, quem joga, quem fica no banco, quem vai rematar os penaltis... Ninguém pensa para lá disso, globalmente, acima das tricas, acima do recreio em que os meninos trocam cromos. Os jornais não são a escola, de facto. E muitos dos que os fazem passaram por ela escorregando pelas paredes, ou pior, escutando apenas as vozes desesperadas de quem já só pede que fiquem sossegados.
Flash News: é possível pensar as sociedades para lá dos nomes que se esborracham contra as objectivas. Saber e dizer que estas baratas tontas que correm histericamente pelos corredores das sedes partidárias, das assembleias, de São Bento, são como Jesus, mas no mau sentido: caminham sobre a babugem das ondas achando que nadam as profundezas do Estado. Por uma vez, gostaria de ver escrito coisas que não fossem sobre as cuecas dos ronaldos de pacotilha que elegemos, vamos eleger, ou odiamos porque têm um cabelinho à mete-nojo ou o olhar teimoso de um metalúrgico que não acredita na bondade dos outros.
Por uma vez, ficaria contente, de ver o país que se expressa a fazê-lo levemente acima do esforço de postar um gatinho a tocar piano.
Por uma vez, gostaria de sentir que pertenço a um país que pensa de vez em quando...»

Possidónio Cachapa (texto publicado hoje no Facebook)

terça-feira, 6 de maio de 2014

Balanço cauteloso



Há três anos deixei aqui expressa a minha satisfação pelo conteúdo do memorando de entendimento entre a troika (UE, BCE e FMI) e o Estado português, que elencava pormenorizadamente os ajustamentos a efectuar na sua estrutura, e que eram condição para que a ajuda financeira fosse disponibilizada. Do mesmo modo, expressei agrado pelo conteúdo do programa do governo, uma vez que reflectia o conteúdo daquele. Deixei também alguns apontamentos sobre a minha incredulidade face a reacções colectivas de alguns cidadãos, porque me era, e continua a ser, difícil entender como estavam e estão completamente a leste da verdadeira situação do país. E como não gosto de me repetir, deixei de escrever sobre o assunto, interessando-me apenas em acompanhar e analisar se o governo estava a cumprir o estipulado no referido memorando e respectivas actualizações, e tanto me tem bastado, apesar dos obstáculos que foram surgindo nestes três anos de ajustamento que agora se completam. Aliás, muitos mais obstáculos surgirão, porque o que se fez não é nada comparado com o que o país precisa.

Não foi Gabriel García Marquez, homenageado recentemente devido à sua morte, quem disse, depois de ter estado em Portugal em 1975, que “Portugal não produzia nada, senão portugueses” (e actualmente, nem isso, digo eu)? E nem sei se ele sabia alguma coisa sobre a qualidade de muitos desses portugueses que ainda “produzíamos”, mas admito, dadas as características da sua literatura, que até tenha gostado do nosso lado fantasioso. Só que esse lado é incompatível com a construção diária de um país, de qualquer país, e mais ainda com a reconstrução de um país, e é isso que é necessário fazer com o nosso. Porque uma coisa é construir bem, seja o que for, desde o início, outra coisa é desfazer o que está errado e substituí-lo por algo melhor, dificuldade que se acentua se esse país tiver séculos de História, ao longo dos quais muitos dos seus cidadãos, imitando muitos dos seus dirigentes, o que acumularam foram vícios, que conduziram a dívidas, e foram estas que nos levaram, em poucas décadas, a três resgates de bancarrota iminente.

Conhecendo-nos como nos conhecemos, ou, mais prosaicamente, sabendo-se o que a casa gasta, não li, nem ouvi uma única proposta séria para que a sociedade debatesse que país quer, quais as funções que o Estado deve desempenhar e quais os assuntos onde o Estado nem se deve meter, etc., etc. Do que se fala a toda a hora é sobre uma proposta de reforma do Estado a apresentar pelo governo, governo que, nos últimos três anos, tem estado imerso no memorando 24 horas por dia, tal a quantidade de itens que ele contém para cumprir nos prazos estipulados. Mas como é que isso seria possível? Além do mais, a reforma do Estado não é assunto de governos, mas de toda a sociedade, e estes três anos podiam ter servido também para se fazer esse debate e não estar à espera que um governo tome essa iniciativa. A única “iniciativa” de qualquer governo deverá ser a de gerir com parcimónia o dinheiro dos contribuintes sem nunca esquecer que o mundo em que vivemos é real e que todas as acções têm consequências. Quem gostar de fantasiar que fantasie, desde que não faça parte de governos ou de oposições responsáveis.

Não abordei o modo como vamos sair do programa de ajustamento, porque não lhe atribuo grande importância, dado que, e mais uma vez, sabendo o que a casa gasta, felizmente temos o tratado orçamental que nos obriga a mantermo-nos nos carris, além da vigilância dos nossos credores. Sobre a questão da perda ou recuperação da nossa soberania só me posso rir, já que a partilhámos quando aderimos à comunidade, agora União Europeia, e porque, como escrevi noutro texto, nenhuma pessoa ou país sobreendividado se pode considerar livre. A única coisa soberana que temos é a dívida – a dívida soberana, resultado de erros também soberanos.

© Maria Paias
______________

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Vasco Graça Moura, "Zeus e o destino"



porque ele tem a sua morte anunciada,
porque de pentesileia o trespassou
o olhar agonizante e eu o canto
fugaz e reiterado como um brilho no bronze,
porque este é um dos meus versos mais amados
da ilíada quando, no canto sexto, helena
de tróia exclama a lamentar-se "zeus
deu-nos um destino infeliz para que, mais tarde,
os homens nos cantassem", a desoras
não sei se estas certezas nos trarão
como as marés acasos hesitantes,
nocturnos objectos de desejo,
coisas nenhumas e pequenos nadas,
mas sei de captações contraditórias,
harpas de sombras íntimas tocando
o mais verbal da vida, o nervo dela.
é quando se transforma, quente e denso,
o coração num desafio ao mundo
e tudo leva a tudo e transfiguram-se
a memória, as imagens, o real inesperado.


1. Zeus e o destino, in Sombras com Aquiles e Pentesileia, Quetzal, 1999 

Vasco Graça Moura (3/1/1942 – 27/4/2014)

sábado, 26 de abril de 2014

Entrevista a Mendo Henriques



«Mendo Henriques: 40 years after April 25th the revolution still goes on – Interview
 By Carolina Matos, Editor (*)

Mendo Henriques is an associate professor at the Catholic University of Lisbon, Portugal. His many areas of interest include Political Philosophy, Philosophy of Consciousness, Applied Philosophy, Ethics, History, Citizenship, Literature, Governance, Religion and Education.

He has written extensively on Fernando Pessoa, Bernard Lonergan, and Eric Voegelin and is the author and co-author of many books, research, monographs and articles published in Portugal, Brazil, Spain and France.

A former advisor of the National Defense Institute and director of GEPOLIS (Gabinete de Estudos Ético-Político-Religiosos; UCP), Mendo Henriques is an opinion leader and political blogger devoted to issues of citizenship awareness, civic activism and volunteerism.

He is the founder and director of the Instituto da Democracia Portuguesa, a Portuguese think tank, and publishes in a variety of Internet sites dedicated to civics, namely Instituto da Democracia Portuguesa, Clubes da Cidadania, and  Colóquios Lonergan.

In 2013, he co-authored with Nazaré Barros Olá, Consciência!a “think-for-yourself” book devoted to the philosophy of conscience and critical thinking. The book, published in Portugal and Brazil, is now being adapted into English by Henrique Rodrigues for publication in the United States.

Mendo Henriques holds a Bachelor Degree and Master’s Degree in Philosophy from the University of Lisbon, a doctorate from by the Catholic University of Lisbon. He has done pre-doctorate studies at the Hoover Institution, CA/USA, and at Geschwister-Scholl Institut, Munich, FRG.

In this interview for the Portuguese American Journal, he reflects on contemporary Portugal, 40 years after the Carnation Revolution of 1974, on his thinking and his vision for the future.

Portugal is celebrating 40 years of freedom and democracy.  Looking back, was the 25th of April revolution worth it?

All indicators before and after April 25thpoint to this: the Portuguese state was perceived as being rich but we were poor and forced to migrate; the state was sovereign but we had no freedoms; we held a colonial empire but were not able to conquer the minds and hearts of those we colonized. Against this backdrop the revolution was well worth as it freed us to make new choices. What we have chosen, however, has been tested by capitalism. Capitalism is capable of creating the best life conditions when the wealth created better serves the collective welfare; or the worst when the created riches are abused by a minority, as explained by Thomas Piketty and illustrated by the Gini Coefficient about inequality. What we do in Portugal today is contingent to European and global answers. Yet, we should not accept bad policies forced on us due to the ignorance or greed of those in government.

The revolution had three objectives: decolonize, democratize and develop.  From your perspective, were the ideals of the revolution achieved?

The ideals of the revolution were achieved. Yet, the world has changed greatly in the last 40 years and new challenges have emerged. Decolonization: despite the long civil wars in Angola and Mozambique, after 1974, these African nations have remained linked to Portugal by affection and economic interests.  What we now call “Lusofonia” has been the appropriate answer to current challenges.  Democratization: a “formal” democracy has been established and guaranteed.  However, to achieve a “real” democracy we are in need of new political parties in order to counteract the oligarchic impositions that impoverished us.  Development: the country was finally provided with progress tools. However, we need to support those who use these resources but have been penalized by austerity policies.  I think that the civil society will produce new rulers with the ability to face our current problems.  The revolution still goes on.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Fernando Pessoa/ Bernardo Soares, Há dois dias que chove...



Há dois dias que chove e que cai do céu cinzento e frio uma certa chuva, da cor que tem, que aflige a alma. Há dois dias... Estou triste de sentir, e reflicto-o à janela ao som da água que pinga e da chuva que cai. Tenho o coração opresso e as recordações transformadas em angústias.
Sem sono, nem razão para o ter, há em mim uma grande vontade de dormir. Outrora, quando eu era criança e feliz, vivia numa casa do pátio ao lado a voz de um papagaio verde a cores. Nunca, nos dias de chuva, se lhe entristecia o dizer, e clamava, sem dúvida do abrigo, um qualquer sentimento constante, que pairava na tristeza como um gramofone antecipado.  
Pensei neste papagaio porque estou triste, e a infância longínqua o lembra? Não, pensei nele realmente, porque do pátio fronteiro de agora, uma voz de papagaio grita arrevesadamente.  
Tudo se me confunde. Quando julgo que recordo, é outra coisa que penso; se vejo, ignoro, e quando me distraio, nitidamente vejo.  
Viro as costas à janela cinzenta, de vidros frios às mãos que lhes tocam. E levo comigo, por um sortilégio da penumbra, de repente, o interior da casa antiga, fora da qual, no pátio ao lado, o papagaio gritava; e os meus olhos adormecem-se-me de toda a irreparabilidade de ter efectivamente vivido.


in Livro do Desassossego

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A pedido das Escolas iPad, ou "Steve Jobs", da Holanda



Depois de, a 6 de Julho p.p., ter publicado aqui um artigo sobre as Escolas iPad na Holanda, tenho recebido correio assinado pelo Sr. Maurice de Hond, o mentor deste projecto, que achou por bem informar-me do desenrolar das actividades dos pais e alunos até à abertura das referidas escolas, que se verificou a 21 de Agosto p.p. (e não a 13 de Agosto, como constava do artigo mencionado).

Informou-me também que tinham elaborado um extenso e pormenorizado comunicado de imprensa sobre o funcionamento das escolas “Steve Jobs”, que me enviou, em neerlandês, inglês, castelhano e chinês (a mim coube-me a versão castelhana, o que é compreensível), tendo-me solicitado que desse conta aqui no blogue do endereço onde podem ser vistos cinco vídeos (vimeo) sobre as actividades das crianças e das escolas, e que é este: www.educationforanewera.com/es (também a versão castelhana, claro).

Satisfeito o pedido, não deixo, todavia, de reafirmar a apreensão que manifestei na introdução à publicação de 6 de Julho.

© Maria Paias

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A alucinação já passou



Mais uma vez, o povo suicidário (nós, segundo Unamuno) foi impedido de tal acto porque a “mãe” (a razão) guardou e trancou muito bem os venenos. Mas alguns suicidários estão furiosos porque só se sentem bem no mundo da fantasia, dada a sua incapacidade para lidarem com as dificuldades do mundo real. É certo que o Presidente da República (PR) atravessou uma fase de alucinação ao ver uma impossibilidade, e que era a concretização de um compromisso de médio prazo entre o PS, o PSD e o CDS-PP, de modo a salvaguardar a estabilidade no país e para garantir que os compromissos decorrentes da assistência financeira da troika seriam cumpridos, mesmo depois da data prevista para a conclusão do resgate, Junho de 2014. Mas o PR esqueceu-se, também, de que não vive num país civilizado, como aqueles a que se referiu na comunicação de 21 de Julho e que, salvo erro, se encontram no centro e norte da Europa. Aqui, no sul da Europa, creio que muitos políticos mais facilmente dariam a vida pelos partidos do que pelos seus países, embora não se coíbam de afirmar que são grandes patriotas.

Recuperado da alucinação e recuperado o bom-senso que a razão comanda, e tiradas as ilações da sua tentativa infeliz, o PR decidiu-se pelo interesse do país, neste momento difícil, e isso é o que lhe compete. De resto, espero que seja mais paciente do que eu para as gritarias e demagogias.

© Maria Paias

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Na parvónia, nada de novo



Mas o que é que o Presidente da República (PR) não entende da cassete do secretário-geral do Partido Socialista (PS) [se ouvir as cassetes do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista também serve, porque o conteúdo é parecido]? O homem não se cansa de dizer que quer eleições antecipadas já, pouco se importando com a situação catastrófica em que o país se encontra, nem com o facto de estarmos sob assistência financeira, cujo memorando o governo do seu partido negociou e assinou com a troika em 2011. E é uma pessoa com esta atitude que o PR quer agora trazer para um diálogo alargado com os outros partidos que também se comprometeram com o conteúdo do memorando, o Partido Social-Democrata (PSD) e o Centro Democrático e Social - Partido Popular (CDS-PP), que actualmente formam a coligação que governa o país, e que, pelo menos, tem cumprido esse mesmo memorando, ultrapassadas que estão sete avaliações, com os correspondentes ajustamentos ao memorando inicial. E não era esse o principal desiderato de qualquer governo? Ou, então, desconhecerá o PR a lógica interna dos partidos políticos que temos, e pensa que pode facilmente demover António José Seguro dos seus discursos demagógicos? Claro que não. A comunicação ao país do PR, a 10 de Julho, foi mais uma amostra da idiossincrasia do povo português, onde se denota o apego à pequenez, à vingançazinha, ao “cá se fazem, cá se pagam”, à mesquinhez.

Não me é tão desgastante lidar com os estados de alma de Paulo Portas, de que há muito conheço os sinais, nem com o seu carácter. Escrevi aqui, a 2 de Junho de 2011 – “Paulinho, afinal o que é que o menino quer?” e, já sei, que ele quer sempre tudo. Mas o que verdadeiramente me cansa são os que não sabem o que querem, ou aqueles para os quais “quanto pior, melhor”. Dos superiores interesses do país não sabem, nem querem saber.

© Maria Paias

sábado, 6 de julho de 2013

Escolas iPad na Holanda, uma reforma radical



Depois de ler este artigo fiquei a reflectir, tentando antever que tipo de cidadãos terá a Holanda daqui a dez ou quinze anos, se a maioria das crianças e jovens acederem a este modelo de “ensino”. Se hoje já se distanciam tanto dos problemas que afectam os seus parceiros da União Europeia mais dados a festas e romarias (de preferência, à borla), não será de admirar que, no futuro, e por este caminho, se sintam mais confortáveis a lidar com robôs do que com seres humanos. Mas como posso não estar a entender bem o alcance e as repercussões desta “reforma”, traduzi o artigo e publico-o aqui quase na totalidade, pois pode haver alguém que me indique o que tem de virtuoso.

«Muitas escolas usam iPads. Mas, e se toda a experiência educativa fosse oferecida via tablet? Isso é o que algumas novas escolas na Holanda estão a planear fazer. Não haverá o quadro negro nem programas escolares. Será o fim da sala de aula?

Pensem diferente. Isto foi mais do que um anúncio publicitário. Foi um manifesto e, com isso, o ex-presidente da Apple, Steve Jobs, revolucionou a indústria dos computadores, da música e o mundo dos telemóveis. O plano seguinte do visionário do digital era introduzir mudanças radicais nas escolas e nas editoras de manuais escolares, mas morreu de cancro antes de o conseguir executar.

Algumas das ideias que talvez tenham ocorrido a Jobs, estão agora a ser concretizadas na Holanda. Onze “Escolas Steve Jobs” abrirão em Agosto, estando Amesterdão entre as cidades que acolherão esse tipo de escola. Cerca de mil crianças, com idades entre os 4 e os 12 anos, irão a essas escolas, sem cadernos, livros ou mochilas. Cada uma delas, contudo, terá o seu próprio iPad. 

Não haverá quadros, giz ou salas de aula, salas de professores, aulas formais, planos de aulas, carteiras, canetas, professores a ensinar à frente da turma, horários, reuniões de pais com os professores, notas, toques para intervalo, nem dias de escola e de férias previamente estabelecidos. Se uma criança preferir jogar no seu iPad em vez de aprender, não haverá problema. E as crianças escolherão o que desejam aprender com base no que lhes desperta curiosidade.

As adaptações já estão a ser feitas em Breda, uma cidade perto de Roterdão, onde uma das escolas ficará instalada. Gertjan Kleinpaste, o reitor de 53 anos de idade, está consciente de que a sua escola iPad na Schorsmolenstraat poderá tornar-se, em breve, destino para invejosos – e também para indignados – reformistas da educação de todas as partes do mundo. (…)

O ano passado, ele era o reitor de uma escola que tinha três computadores, o que achava frustrante. “Já não estava a acompanhar os tempos”, diz ele. Em breve (13 de Agosto de 2013), Kleinpaste será um membro da era digital avançada. E está convencido de que “o que estão a fazer parecerá normalíssimo em 2020”.

As escolas Steve Jobs estarão abertas entre as 7:30 e as 18:30 de segunda a sexta-feira. As crianças entrarão e sairão quando quiserem, desde que estejam presentes no período principal, entre as 10:30 e as 15:00. As escolas encerrarão apenas pelo Natal e Ano Novo. As famílias das crianças poderão ir de férias quando lhes aprouver, e nenhuma criança terá de ficar preocupada se faltar às aulas por causa disso, uma vez que já não existirão aulas no sentido tradicional.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Ordem dos Professores



Nestas coisas dos “think tanks” para a reforma estrutural do Estado vem-nos à cabeça cada ideia para um determinado sector público, que, ao vermos a cara de espanto dos que nos rodeiam, ficamos na dúvida se nos saiu um disparate completo ou algo em que ninguém tinha pensado e que, porventura, seja uma ideia a considerar e a aprofundar.

A propósito da ainda excessiva concentração no Ministério da Educação das decisões que respeitam a todos os níveis de ensino, e que fazem dele aquele “monstro”, embora paulatinamente se tenha vindo a dar autonomia às escolas para a resolução de alguns problemas, e foi nesse sentido que entendi a afirmação de Nuno Crato de que seria necessário “implodi-lo”, fica aqui uma sugestão que poderá contribuir para o emagrecimento do “monstro”. Das muitas associações de professores, há uma que engloba os que são favoráveis à criação de uma Ordem dos Professores, não sei se é apenas porque acham chique a designação, ou se estão a pensar numa Ordem profissional a sério com tudo o que ela implica, tal como as Ordens dos Advogados, dos Médicos, dos Engenheiros, etc., que têm também como função acreditar os respectivos cursos, sem a qual não se pode exercer a profissão que cada qual representa, além da obediência aos estatutos internos. À partida, estas Ordens são maioritariamente representativas de profissionais liberais e não de funcionários públicos, como é o caso actual dos professores. Ora, se fosse constituída uma Ordem dos Professores com a mesma finalidade das que referi, e simultaneamente fosse dada muito mais autonomia às escolas, o Ministério da Educação poderia dedicar-se às outras funções que já tem e desempenhá-las muito melhor, enquanto a educação ficaria exclusivamente a cargo de profissionais inscritos na Ordem respectiva.

Também ficaram com cara de espanto, ou estão a fazer contas ao número de funcionários públicos que deixariam de ter esse estatuto sem deixarem de exercer a sua profissão? Os professores/funcionários que querem a sua Ordem, calculo que não estivessem a pensar em nada disto, pois já estou a ouvir muito ranger de dentes. Mas, quando se defende uma ideia, há que analisar todas as suas implicações.

© Maria Paias

terça-feira, 19 de março de 2013

Chipre não é uma ilha encantada



Como a minha análise sobre o modo como a União Europeia e, dentro desta, o Eurogrupo, aceitou resgatar Chipre, difere do que tenho ouvido e lido, aqui vai o que penso da situação.

Como é sabido, Chipre é uma ilha dividida ao meio, em que uma parte foi ocupada pela Turquia (cipriotas turcos), e essa metade da ilha não pertence à União Europeia (UE), embora a própria Turquia queira, desde há muito, fazer parte do clube, e a outra metade é habitada maioritariamente por gregos (cipriotas gregos), e é esta parte que, em 2008, foi admitida no clube europeu e na zona euro, ou seja, com o pacote completo. Tratando-se de um dos muitos “paraísos fiscais” que existem por esse mundo, muitos cidadãos e empresas de outros países, residentes ou não na “meia-ilha”, como russos, ingleses, gregos da Grécia, alemães, etc., têm utilizado os seus bancos para beneficiarem da fiscalidade bem mais suave do que a que vigora nos respectivos países, e os seus pouco mais de 800.000 habitantes dedicam-se essencialmente aos serviços e ao turismo, além de guardarem o dinheiro alheio que, com tantos benefícios fiscais, pouco contribui para a sustentabilidade do país em termos financeiros e, daí, prever-se que, se nada for feito, entrar em bancarrota já em Maio.

Por outro lado, há alguns anos, Chipre já tinha contraído um empréstimo junto da Rússia, com quem agora tem estado a negociar para que o mesmo seja dilatado no tempo e com melhores condições, e foi, aliás, toda esta situação de dependência face à Rússia que fez com que a UE demorasse muitos meses a analisar a situação cipriota, cujo pedido de resgate apresentado orçava os 17 mil milhões de euros, tendo a UE, ou melhor, os países mais ricos da zona euro, aceitado emprestar 10 mil milhões, através do novo mecanismo de estabilização financeira, e que, como sabemos, esse empréstimo, nos países mais civilizados, está sujeito à aprovação dos respectivos parlamentos, uma vez que é do dinheiro dos respectivos cidadãos contribuintes que se trata. E então o resto do dinheiro que a “meia-ilha” parece necessitar? Pode muito bem ter passado pela cabeça dos ministros das finanças na última reunião do Eurogrupo, e tratando-se de um “paraíso fiscal”, que estaria na hora dos que ao longo dos anos beneficiaram fiscalmente das condições que lhes foram dadas, de contribuírem também para evitarem a morte da galinha dos ovos de ouro.

É claro que estas decisões “criativas” causam de imediato algum pânico, principalmente nos cipriotas gregos, cidadãos comuns, sem fortuna, e a quem a regra adoptada pela UE, também em 2008, de que qualquer cidadão teria os seus depósitos bancários garantidos até ao valor de cem mil euros parecia não se aplicar, dadas as percentagens progressivas a reter sobre os depósitos, anunciadas pelo Presidente cipriota. Quanto a isto, a ver vamos se as regras da UE também podem ser letra morta.

Não querendo ser agoirenta, e mesmo que este empréstimo venha a ser aprovado pelo parlamento alemão, não me parece que a “meia-ilha” consiga sair desta, tanto mais que a acumular com este tem também a dívida à Rússia.

Do que me questiono, em última análise, e vou sempre bater na mesma tecla, é se vale a pena, em nome de interesses geoestratégicos, que neste caso incluem a Rússia e a Turquia ocupante, admitir um país nesta situação, que não representa mais do que 0,2% no conjunto da UE, mas que na sua infinita pequenez pode desestabilizar ainda mais todo um continente que ainda não encontrou o rumo certo.

terça-feira, 5 de março de 2013

Para os desmemoriados



«Em Agosto de 1983, o Governo do Bloco Central PS-PSD, assinou um memorando de entendimento com o Fundo Monetário Internacional. Os impostos subiram, os preços dispararam, a moeda desvalorizou, o crédito acabou, o desemprego e os salários em atraso tornaram-se numa chaga social e havia bolsas de fome por todo o país. O primeiro-ministro era Mário Soares. Veja como o homem que hoje quer rasgar o acordo com a troika defendia os sacrifícios pedidos aos portugueses.

“Os problemas económicos em Portugal são fáceis de explicar e a única coisa a fazer é apertar o cinto”. DN, 27 de Maio de 1984

“Não se fazem omeletas sem ovos. Evidentemente teremos de partir alguns”. DN, 01 de Maio de 1984

“Quem vê, do estrangeiro, este esforço e a coragem com que estamos a aplicar as medidas impopulares aprecia e louva o esforço feito por este governo.” JN, 28 de Abril de 1984

“Quando nos reunimos com os macroeconomistas, todos reconhecem com gradações subtis ou simples nuances que a política que está a ser seguida é a necessária para Portugal”. Idem

“Fomos obrigados a fazer, sem contemplações, o diagnóstico dos nossos males colectivos e a indicar a terapêutica possível”. RTP, 1 de Junho de 1984. Idem, ibidem

“A terapêutica de choque não é diferente, aliás, da que estão a aplicar outros países da Europa bem mais ricos do que nós”. RTP, 1 de Junho de 1984

“Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos”. Idem

“O importante é saber se invertemos ou não a corrida para o abismo em que nos instalámos irresponsavelmente”. Idem, ibidem

“[O desemprego e os salário em atraso], isso é uma questão das empresas e não do Estado. Isso é uma questão que faz parte do livre jogo das empresas e dos trabalhadores (...). O Estado só deve garantir o subsídio de desemprego”. JN, 28 de Abril de 1984

“O que sucede é que uma empresa quando entra em falência... deve pura e simplesmente falir. (...) Só uma concepção estatal e colectivista da sociedade é que atribui ao Estado essa responsabilidade". Idem

“Anunciámos medidas de rigor e dissemos em que consistia a política de austeridade, dura mas necessária, para readquirirmos o controlo da situação financeira, reduzirmos os défices e nos pormos ao abrigo de humilhantes dependências exteriores, sem que o pais caminharia, necessariamente para a bancarrota e o desastre”. RTP, 1 de Junho de 1984

“Pedi que com imaginação e capacidade criadora o Ministério das Finanças criasse um novo tipo de receitas, daí surgiram estes novos impostos”. 1ª Página, 6 de Dezembro de 1983

“Posso garantir que não irá faltar aos portugueses nem trabalho nem salários”. DN, 19 de Fevereiro de 1984

“A CGTP concentra-se em reivindicações políticas com menosprezo dos interesses dos trabalhadores que pretende representar”. RTP, 1 de Junho de1984

“A imprensa portuguesa ainda não se habituou suficientemente à democracia e é completamente irresponsável. Ela dá uma imagem completamente falsa”. Der Spiegel, 21 de Abril de 1984

“Basta circular pelo País e atentar nas inscrições nas paredes. Uma verdadeira agressão quotidiana que é intolerável que não seja punida na lei. Sê-lo-á”. RTP, 31 de Maio de 1984

“A Associação 25 de Abril é qualquer coisa que não devia ser permitida a militares em serviço”. La Republica, 28 de Abril de 1984

“As finanças públicas são como uma manta que, puxada para a cabeça deixa os pés de fora e, puxada para os pés deixa a cabeça descoberta”. Correio da Manhã, 29 de Outubro de 1984

“Não foi, de facto, com alegria no coração que aceitei ser primeiro-ministro. Não é agradável para a imagem de um político sê-lo nas condições actuais”. JN, 28 de Abril de 1984

“Temos pronta a Lei das Rendas, já depois de submetida a discussão pública, devidamente corrigida”. RTP, 1 de Junho de 1984

“Dentro de seis meses o país vai considerar-me um herói”. 6 de Junho de 1984»

Transcrevi daqui.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Olá, Consciência!



No próximo dia 12 de Março, terça-feira, pelas 19:00 h, terá lugar no Auditório do Alto dos Moinhos, Rua João de Freitas Branco, em Lisboa, o lançamento do livro Olá, Consciência! – Uma viagem pela filosofia, da autoria de Mendo Henriques e de Nazaré Barros e cuja apresentação estará a cargo de José Tolentino Mendonça. Como, naturalmente, ainda não tive acesso ao seu conteúdo, transcrevo um texto que acompanha o pequeno vídeo de apresentação da obra e que poderão ver mais abaixo.

«Olá, Consciência! é um convite a uma viagem apaixonante pelo mundo da filosofia. De leitura viva e acessível, com uma apresentação inovadora que conjuga rigor e linguagem atraente, esta obra de introdução à filosofia distingue-se das demais porque parte das experiências quotidianas para explicar conceitos filosóficos e mostrar como a vida faz mais sentido se for vista à luz da filosofia.
Mendo Henriques e Nazaré Barros trazem de novo a filosofia à praça pública - onde ela nasceu - e introduzem os leitores no mundo da consciência como chave de compreensão do que nos rodeia, na ciência e na política, na arte e na religião, na economia e na metafísica, na comunicação e na ética. Olá Consciência! destina-se a todos os que não se conformam com a norma instituída, com o politicamente correcto, com a superficialidade e o comodismo do pensamento único. Porque a filosofia é de todos os que ousam pensar por si próprios.
Este livro é um espaço para reflectir, como quem passeia num jardim, sem pressas nem compromissos. Ou, para os mais apressados, um mapa de metro, em que o leitor pode escolher a linha que quer seguir. Num caso como noutro, o destino da viagem é uma existência mais consciente e necessariamente mais rica.
No site www.olaconsciencia.com encontrará informações complementares nesta viagem pela filosofia, editada em Portugal e no Brasil.
Boa viagem!»

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Colóquio Lonergan, Perspectivas actuais da Filosofia Aplicada



O CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, no âmbito da linha de investigação em Filosofia Política e Ética promove, no próximo dia 5 de Fevereiro, terça-feira, em Lisboa, o Colóquio Lonergan 2013, sobre Perspectivas Actuais da Filosofia Aplicada, que decorrerá no Edifício da Biblioteca João Paulo II, 2.º piso, sala de exposições, a partir das 9:15h. Entrada livre.

Para debater estas perspectivas, o Colóquio reúne especialistas de diferentes áreas e escolas. Além de docentes e investigadores das Universidades de Évora, Coimbra, Nova de Lisboa e Católica, estarão também presentes organizações como a Associação Portuguesa para o Aconselhamento Ético e Filosófico, o Consultório do Eu, além de pedagogos e psicoterapeutas.

Se o programa não estiver totalmente legível no documento em baixo, pode ser consultado e guardado a partir desta página do CEFi




sábado, 12 de janeiro de 2013

O relatório - diagnóstico do FMI



Concluída a leitura do relatório do FMI, noto que nada do que consta do seu diagnóstico me é desconhecido, e, se assim é, menos o será para os que, ao longo dos anos, foram os responsáveis pela criação de todas aquelas situações de desigualdade dentro da própria função pública “permanente”, ou em “exercício de funções públicas”, pelo que me é incompreensível a algazarra sobre o texto que nada mais faz do que explicitar em letra de forma o que muitos sabemos. A única falha que lhe encontro é o não ter sido mais abrangente, uma vez que se debruça apenas sobre alguns dos serviços prestados pelo Estado, deixando de fora muitos outros que, a meu ver, são mais perniciosos no que se refere a gastos dos dinheiros públicos, diga-se dos contribuintes, e cuja existência/necessidade é muito discutível.

Quanto às sugestões que o FMI deixa para superar muitas das incongruências diagnosticadas, algumas são interessantes, se bem que só possíveis, infelizmente, com o decorrer dos anos, e outras são evidentes, como a da insustentabilidade da multiplicidade de sistemas e subsistemas de saúde, de excepções e mais excepções, parecendo que cada trabalhador é titular de uma excepção qualquer no decorrer da sua vida de trabalho, e, isso sim, contribuiu para a construção deste “novelo” difícil de desenredar, e, quanto a mim, nada constitucional, pois põe a nu a desigualdade de tratamento entre trabalhadores da própria função pública, já para não falar das desigualdades entre estes e os do sector privado. Por acaso as leis que lhes dão suporte foram consideradas inconstitucionais? É evidente que não foram. E agora que se pretende minimizar as desigualdades entre trabalhadores do sector público e do privado, porque em ambos trabalham cidadãos do mesmo país, e a que o Tribunal Constitucional esteve tão atento no Orçamento do Estado de 2012 por serem tratados de modo desigual no que se refere aos respectivos contributos para atenuar a difícil situação financeira em que nos encontramos, só posso esperar que, pelo menos, os senhores juízes sejam coerentes.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Reforma do Estado



Fui desafiada a apresentar ideias para melhorar a eficiência dos serviços prestados pelo Estado, bem como a fazer uma listagem de serviços que este presta através de empresas que detém e em que os mesmos não justifiquem que tenham que ser prestados por empresas públicas. Numa primeira avaliação vieram-me tantas à mente que me pareceu que, se todas elas fossem privatizadas de imediato, ficaria resolvida uma parte, embora pequena, dos problemas financeiros do país. Depois, num outro grau de reflexão, dei-me conta de que só um louco as compraria, mesmo que fossem vendidas pelo valor simbólico de um euro, tal o caos financeiro e laboral em que se encontram.

Foi muita irresponsabilidade terem-se mantido as estruturas do Estado Novo, às quais se acrescentaram as loucuras de sucessivos governos, que culminaram nesta “coisa” que parece não ter ponta por onde se lhe pegue, de modo a que, paulatinamente, se conseguisse transformá-lo em algo simples, transparente, eficiente e sem os custos brutais da sua manutenção para os contribuintes. E o que não é feito em devido tempo, movido pela vontade, com ponderação e bom senso, mais cedo ou mais tarde tem de ser feito, mas por necessidade, como é o caso presente.

Propositadamente não referi a reforma do Estado social, mas a reforma do Estado como um todo, pois é esta que vai ser debatida antes do próximo Verão, e também porque não conheço nenhum partido ou organização cívica que defenda a extinção da função social do Estado, como, muitas vezes, se quer fazer crer. Aliás, creio que essa função é de todas a mais nobre e cuja importância se torna ainda mais evidente em tempos difíceis, e em que os custos para o contribuinte estão sujeitos a menos polémica por parte da sociedade, pela sua universalidade, não se devendo perder a sua orientação de base e que deverá ser sempre a dos mais elementares direitos humanos.

Posto isto, volto à reflexão, que está a tornar-se numa tremenda dor de cabeça.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Rilke - Cartas a um jovem poeta (8.ª)


Quero falar consigo um pouco mais, caro Senhor Kappus, ainda que praticamente não tenha nada a dizer que o possa ajudar, que lhe possa ser útil. Viveu muitas e grandes tristezas que passaram. E que elas passassem, diz-me, também o magoou e deixou amargurado. Mas peço-lhe que reflicta: estas grandes tristezas não terão antes passado por si, por dentro de si? Não terão dado nova forma a muitas coisas em si, não terão mudado um qualquer aspecto do seu ser? Perigosas e daninhas são apenas aquelas tristezas que exibimos diante dos outros para que pareçam maiores do que são; como doenças levianamente tratadas apenas nos seus sintomas, entram em remissão por um breve lapso de tempo para depois regressarem tanto mais terrivelmente; e acumulam-se no interior e são vida… são vida não vivida, desdenhada, perdida, e quase nos matam. Se pudéssemos ver mais longe do que o nosso conhecimento alcança e olhássemos para além das ameias dos nossos pressentimentos, talvez suportássemos então as nossas tristezas com mais confiança do que as nossas alegrias. Pois as tristezas são momentos em que qualquer coisa nova e desconhecida entra dentro de nós; as nossas emoções emudecem, perturbadas e tímidas, tudo em nós se recolhe, instaura-se o silêncio, e o novo, que ninguém conhece, desloca-se para o seu centro e cala-se.
Penso que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão, e se sentimos que nos tolhem é apenas porque já não ouvimos a vida das nossas emoções que se tornaram estranhas. Porque estamos a sós com a estranheza que entrou dentro de nós; porque por um momento tudo o que nos é conhecido e familiar desapareceu; porque estamos em plena transição e não podemos parar. É por isso que também a tristeza passa: o que é novo em nós, o que nos foi acrescentado, entrou no coração, na sua câmara mais interior, mas também não está nele – está já no sangue. E não chegamos a saber o que era. Facilmente nos levariam a crer que nada acontecera, e no entanto mudámos, como muda uma casa quando entra um hóspede. Não sabemos dizer quem entrou, talvez nunca venhamos a saber, mas vários sinais indicam que foi o futuro que assim entrou, para se metamorfosear dentro de nós muito antes de acontecer. E por esta razão é tão importante estarmos sós e atentos quando nos sentimos tristes: porque o momento aparentemente inerte e sem eventos em que o nosso futuro entra em nós está muito mais perto da vida do que qualquer outro momento ruidoso e acidental em que ele acontece como se viesse de fora. Quanto mais silenciosos, pacientes e abertos formos enquanto pessoas tristes, tão mais profundo e límpido será o novo que entre em nós, tanto melhor o saberemos receber, tanto mais será ele o nosso destino, e quando um dia mais tarde ele “acontecer” (ou seja, quando sair de nós para se mostrar aos outros), tanto maior será a afinidade e proximidade íntima que nos unirá ao novo. É necessário – e aos poucos será esse o rumo da nossa evolução – que nunca nos deparemos com nada que nos seja estranho, mas apenas com o que desde há muito nos pertence. Vários conceitos de movimento foram já reformulados, e do mesmo modo reconheceremos gradualmente que o que chamamos destino parte dos homens, não entra neles vindo de fora. Se muitos não reconheceram o que tinha origem neles, foi apenas porque não absorveram o seu destino enquanto o viviam nem o fizeram seu; era um destino para eles tão estranho que, no seu susto desnorteado, pensaram que só podia ter entrado neles agora e juravam que nunca tinham encontrado nada de semelhante dentro de si. Assim como por muito tempo nos enganámos acerca do movimento do Sol, também ainda nos enganamos sobre o movimento do que está por vir. O futuro é um eixo fixo, caro Senhor Kappus, mas nós deslocamo-nos no espaço infinito.
Como não havia de ser difícil?

domingo, 30 de setembro de 2012

A minha TSU



Há muitos, muitos anos que me questionei sobre a razão por que as empresas e os empresários em nome individual tinham que pagar a Taxa Social Única (TSU) por cada colaborador que admitiam, numa percentagem muito superior à que cabia a cada colaborador, para a Segurança Social do próprio colaborador, já que apenas estes usufruíam dos direitos que tal desconto implicava – subsídios de desemprego, por doença, maternidade, reformas, etc., uma vez que, e nos casos dos empresários em nome individual com pequenos comércios ou indústrias, o que eu constatava é que, além de trabalharem 12 a 16 horas por dia, não só não tinham nenhum daqueles direitos como, muitos deles, passavam uma vida de trabalho sem saberem o que era gozar férias. Assim, e no meu raciocínio, seria mais justo que o empresário não tivesse esse encargo, que não lhe diz respeito, pois já lhe sobram as taxas, as licenças, os impostos, os seguros e todas as despesas de funcionamento, e que o/os colaborador/es auferisse/em ordenados melhores, consoante o seu mérito, fazendo com a sua capacidade de poupança o que muito bem lhes aprouvesse no que respeita a seguros ou em aplicações que lhes permitissem melhorar o valor da reforma.

Comparando esta minha teoria sobre a TSU com a que o governo queria implementar (subir a percentagem de desconto para os trabalhadores e descê-la para as empresas e empresários em nome individual) não só não têm nada a ver uma com a outra, como teria um efeito contrário ao que eu achava justo e que era o alívio total dessa responsabilidade por parte das empresas e empresários, para que pudessem pagar melhores ordenados, e não a quebra dos valores líquidos dos mesmos que se iria verificar se a medida do governo fosse implementada.

Claro que a minha teoria só faz sentido na minha cabeça e para um tempo em que a economia funcionava minimamente, há umas décadas atrás, em que ainda conseguíamos enxergar taxas de crescimento de 2% ao ano, ou coisa que o valha, porque, na última década, nem isso, pois foi um tempo de instalação e de crescimento do chamado “monstro”. E como a dívida pública não é mais do que o somatório dos défices, e dado o volume que a mesma atingiu, e que, mesmo assim, representa apenas um terço do valor da dívida externa do país, já que dois terços desse valor é dívida dos privados, o que quer dizer que temos uma dívida externa monumental, não é tempo para teorias, minhas ou alheias, mas para o pragmatismo sensato de todos nós, mesmo que um qualquer António Borges nos chame de ignorantes.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Wallace Stevens - The place of solitaires


Let the place of the solitaires
Be a place of perpetual undulation.

Whether it be in mid-sea
On the dark, green water-wheel,
Or on the beaches,
There must be no cessation
Of motion, or of the noise of motion,
The renewal of noise
And manifold continuation;

And, most, of the motion of thought
And its restless iteration,

In the place of the solitaires,
Which is to be a place of perpetual undulation.

Wallace Stevens (1879 -1955)

pintura de © Justyna Kopania

sábado, 15 de setembro de 2012

A troika é que devia lixar-se para nós


Se bem compreendo o clamor deste 15 de Setembro, subordinado ao mote “Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!”, o que se pretende, então, é que as nossas vidas permaneçam hipotecadas, que vivamos muito felizes num mundo de fantasia, com políticos que ajudem à festa continuando a endividar o país para que nada falte a essa felicidade que parece realizar-se apenas no consumo e na posse de bens. E ai de quem discordar! Sujeita-se a uma saraivada de epítetos e, até, de inimigo da liberdade, como se uma pessoa, uma família ou um país sobreendividados se pudessem considerar livres.

Nas centenas de anos de História do nosso país, nunca este teve contas equilibradas, pelo que seria a primeira vez que, em democracia, e sem impérios, poderíamos ter a oportunidade de atingir esse objectivo ao mesmo tempo que se procedia a reformas estruturais do Estado. Mas se preferimos continuar a ser aquele povo que tem a fama de não se saber governar e de nem se deixar governar, talvez merecêssemos que fosse a troika a lixar-se para nós e não o inverso. E talvez por se saber que isso não vai acontecer, basta ver a paciência que têm tido com os gregos, continuamos a fazer o que melhor sabemos fazer, a brincar com o fogo, quais crianças travessas.

Dada a minha independência partidária, e embora defensora acérrima de eleições e referendos, (como já escrevi aqui num outro texto, infelizmente fazem-se muito poucos entre nós) gostaria de ver António José Seguro, não eleito, mas obrigado a governar o país para que todos pudessemos ver as maravilhosas soluções que o partido socialista agora parece ter para sairmos do buraco de forma menos dolorosa.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Ideological bubble

Não tem a ver, directamente, mas lembrei-me desta frase de Fernando Pessoa/ Bernardo Soares: «Para cada filósofo, Deus é da sua opinião.»

Cartoon de © Robert B. Reich

domingo, 26 de agosto de 2012

Karl Popper e um universo mediático de qualidade


A filosofia política de Karl Popper foi, regra geral, utilizada de duas maneiras: por um lado, mais “social-democrata”, apoiada na sua “teoria proteccionista do Estado” e na sua concepção prudencial da reforma social; por outro lado, mais claramente “liberal”, apelando, pelo contrário, ao seu elogio das liberdades e contrapoderes, mas também aos seus temores perante a extensão indefinida das funções do Estado.

E a tomada de consciência dos perigos que a televisão representa só podia incitar a acentuar ainda mais essa intuição mediadora. Se uma sociedade democrática tem necessidade de liberdade para neutralizar o poder devorador do Estado, também necessita da arma regulamentar para reduzir as más utilizações da liberdade. Popper sempre achou que a economia de mercado era companheira mais ou menos insubmissa da democracia política. Porém, não aceita que ela generalize inconsideradamente as suas lógicas a todos os registos da vida social. Sobretudo quando, em nome da eficácia e da rendibilidade, submete as cadeias de televisão aos ditames cegos de concorrência, abrindo assim o caminho aos programas mais nefastos e mais deseducativos. Entre a hipótese obsoleta de um monopólio de Estado da radiotelevisão e o panorama actual da privatização e da concorrência selvagem, talvez haja lugar para uma solução intermédia: a criação de uma ordem corporativa que emita licenças e possa, em qualquer momento, retirá-las. Nem todo o poder ao Estado, nem todo o poder ao mercado.

Todo o pensamento de Popper se articula em torno de uma ética da responsabilidade. As melhores instituições, os procedimentos mais subtis, não servirão para nada se os seus habitantes e utilizadores renunciarem efectivamente ao seu dever de cidadania. Uma sociedade aberta é uma sociedade que não procura destituir os seus membros de responsabilidade pessoal, mas que, pelo contrário, cria condições para que eles possam exercê-la serena e activamente.

Esta ética da responsabilidade destina-se, em primeiro lugar, às gerações oriundas da revolução democrática contemporânea. Karl Popper sempre pensou que pertencia a uma linhagem intelectual e social que soubera tirar partido das devastações provocadas pelas barbáries totalitárias e que, nessa condição, detinha uma responsabilidade especial para com a geração seguinte. Em consequência, não é por acaso que a sua crítica sem concessões ao universo mediático visa essencialmente os programas destinados às crianças. Com efeito, é às populações adultas que dirigem a sociedade e enunciam as leis que cabe justamente “assumir as responsabilidades”, e não abrigarem-se cobardemente por detrás dos “imperativos do mercado”, dos “veredictos dos índices de audiência” ou dos “gostos dos públicos” para fugirem a elas.

Mas esta ética da responsabilidade destina-se, sobretudo, ao conjunto das pessoas que participam directa ou indirectamente na produção dos programas de televisão. Com efeito, é notável que a ordem desejada por Popper com base no modelo da ordem dos médicos ou dos advogados esteja habilitada a emitir licenças de teledifusão e a fixar, desse modo, para cada categoria, obrigações e tarefas precisas e personalizadas. Trata-se mais uma vez de estabelecer uma cadeia de interdependências e de reciprocidades, que é característica do funcionamento de uma sociedade aberta bem compreendida. A saber: restituir a cada elo da cadeia mediática o sentido de honra e de responsabilidade, manter no seio do pessoal um estado permanente de efervescência intelectual e de consciência crítica, estabelecer uma espécie de estrutura panóptica no interior da qual as demissões e cobardias de uns possam, em qualquer momento, ser neutralizadas pelos escrúpulos e temeridades dos outros, evitando, assim, que uma sociedade com a aparência democrática choque no seu seio com um novo princípio de domesticação. Como nenhuma ordem está, por natureza, protegida contra os excessos corporativistas, talvez seja conveniente associar à sua reflexão e à sua acção colectivos de cidadãos, que se empenhariam em estimular os múltiplos actores da cadeia mediática.

Karl Popper queixava-se de ninguém apresentar propostas para contrapor à dele, no sentido de melhorar a programação televisiva, particularmente quem devia atribuir licenças e controlar a qualidade dos programas. Assim, continuam a ser os governos, em nome do Estado, a fazê-lo, com os resultados conhecidos.

Bibliografia:

Televisão: um perigo para a democracia – Karl Popper: “Uma lei para a televisão”; John Condry: “Ladra do tempo, criada infiel” (ambos os textos no mesmo volume), Gradiva, 1995