domingo, 15 de Novembro de 2009

Petição contra a fome

É já nos próximos dias 16 a 18 de Novembro que se realiza em Roma, Itália, uma Cimeira sobre a Fome no Mundo organizada pela FAO, uma Agência das Nações Unidas e que pode ser seguida neste endereço http://www.fao.org/wsfs/world-summit/en/
Se se preocupa com os mil milhões de seres humanos que passam fome e com os que sucumbem todos os dias por falta de alimentos, assine a petição em baixo para que a sua voz também conte nesta Cimeira.


sábado, 14 de Novembro de 2009

Esquizofrenia

Sugiro que leiam um texto do médico J. L. Pio de Abreu com o título Esquizofrenia, publicado hoje no blogue De Rerum Natura, e de que reproduzo o último parágrafo:
«A esquizofrenia tem a ver com a presença de vias cerebrais anómalas que levam informação onde não a deviam levar. Em Portugal, também se estabeleceram vias anómalas entre sectores do Ministério Público e da Comunicação Social. Será esquizofrenia social? O certo é que os doentes têm, finalmente, razão. Há quem roube pensamentos para os divulgar na Comunicação Social. De facto, podem roubar o pensamento a muitos, mas só divulgam o daqueles que são importantes.»
(imagem: O grito, de Munch)


sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Aristóteles - inveja, alegria malévola e justa indignação

«A justa indignação, em grego némesis, está entre a inveja, que se entristece ao ver a felicidade alheia, e a alegria malévola, que se regozija com os males de outro. Ambos são sentimentos repreensíveis, e apenas o homem que se indigna com razão deve merecer o nosso elogio. A justa indignação é a dor que se experimenta ao ver a sorte de alguém que não a merece; e o coração que se indigna justamente é o que sente as dores deste género. Reciprocamente, se indigna também ao ver sofrer alguém por uma desgraça não merecida. É isto a justa indignação e a situação daquele que se indigna justamente. O invejoso é o oposto porquanto está sempre pesaroso de ver a prosperidade de outro, quer a mereça ou não. Como o invejoso, o malévolo, que se regozija com o mal, se considera feliz ao ver as desgraças dos outros, sejam estas merecidas ou não. O homem que se indigna em nome da justiça não se parece em nada nem com um nem com outro, e situa-se no meio entre estes dois extremos.»
in La Gran Moral, cap. XXV
(tradução minha)

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Muro de Berlim (1961-1989) - 20 anos depois

A construção do muro de Berlim, em 1961 (imagem de baixo) era eu ainda criança, e a sua destruição, em 1989, bem como estes últimos vinte anos, estão de tal maneira documentados e analisados do ponto de vista histórico, político, sociológico, ideológico e até psicológico, que me detenho no pormenor mais importante para mim, o aprofundamento da União Europeia, no seu aspecto político. Sem a queda desse muro não teria sido possível o Tratado de Maastricht, assinado em Fevereiro de 1992 e que entrou em vigor a 1 de Novembro de 1993, e que constituíu como que uma refundação do projecto Europeu iniciado com o Tratado de Roma.



domingo, 8 de Novembro de 2009

Como está "o caso mental português", hoje?

«Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria "provincianismo". Como todas as definições simples esta, que é muito simples, precisa, depois de feita, de uma explicação complexa.
Darei essa explicação em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto é, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer país, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer país entende-se, sem dúvida, a mentalidade das três camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental - a camada baixa, a que é uso chamar povo; a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás, que sejam sempre erradas. Por natureza, forma o povo um bloco, onde não há mentalmente indivíduos; e o pensamento é individual.
O que caracteriza a segunda camada que não é a burguesia, é a capacidade de reflectir, porém, sem ideias próprias; de criticar, porém com ideias de outrem. Na classe média mental, o indivíduo, que mentalmente já existe, sabe já escolher - por ideias e não por instinto - entre duas ideias ou doutrinas que lhe apresentem; não sabe, porém, contrapor a ambas uma terceira, que seja própria. Quando, aqui e ali, neste ou naquele, fica uma opinião média entre duas doutrinas, isso não representa um cuidado crítico, mas uma hesitação mental.
O que caracteriza a terceira camada, o escol, é, como é de ver por contraste com as outras duas, a capacidade de criticar com ideias próprias. Importa, porém, notar que essas ideias próprias podem não ser fundamentais. O indivíduo do escol pode, por exemplo, aceitar inteiramente uma doutrina alheia; aceita-a, porém, criticamente, e, quando a defende, defende-a com argumentos seus - os que o levaram a aceitá-la - e não, como fará o mental da classe média, com os argumentos originais dos criadores ou expositores dessas doutrinas.
Esta divisão em camadas mentais, embora coincida em parte com a divisão em camadas sociais - económicas ou outras -, não se ajusta exactamente a essa. Muita gente das aristocracias de história e de dinheiro pertence mentalmente ao povo. Bastantes operários, sobretudo das cidades, pertencem à classe média mental. Um homem de génio ou de talento, ainda que nascido de camponeses, pertence de nascença ao escol.
Quando, portanto, digo que a palavra "provincianismo" define, sem outra que a condicione, o estado mental presente do povo português, digo que essa palavra "provincianismo" define a mentalidade do povo português em todas as três camadas que a compõem. Como, porém, a primeira e a segunda camadas mentais não podem por natureza ser superiores ao escol, basta que eu prove o provincianismo do nosso escol presente, para que fique provado o provincianismo mental da generalidade da nação.» (...)
Fernando Pessoa, «O caso mental português» (1932), in O Rosto e as Máscaras, Antologia organizada por David Mourão-Ferreira, Ática, Lisboa, 1979, pp 170-172

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

A investigação científica vai bem e recomenda-se

A cientista portuguesa Mónica Bettencourt Dias foi ontem incluída na lista anual dos mais talentosos jovens cientistas da Europa, distinção atribuída pela Organização Europeia de Biologia Molecular (EMBO).
Mónica Bettencourt Dias é licenciada em Bioquímica pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e fez o seu doutoramento em Biologia Celular no University College of London.
Esta investigadora dirige o Laboratório de Regulação do Ciclo Celular do Instituto Gulbenkian de Ciência.
Alguém viu esta notícia com o devido destaque nos jornais e telejornais?

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss (1908-2009)

Creio que a melhor maneira de homenagear Claude Lévi-Strauss é ler ou reler a sua obra. Ele que dizia "não se interessar senão pelo que já não existe", deixou nos seus livros não só o seu pensamento como filósofo, que também foi, mas todos os seus estudos nas áreas da Antropologia, da Etnologia e da Mitologia, sobre o que, de facto, já não existe.
Da sua obra destaco:
Les Structures Elémentaires de la Pensée, 1949
Tristes Tropiques, 1955 (imagem em baixo)
Anthropologie Structurale, 1958
Mythologiques, 1964-1971, 4 volumes


terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Pilares da Economia


(imagem via mail)

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Jorge de Sena - 90.º aniversário (1919-1978)


Madrugada

Há que deixar no mundo as ervas e a tristeza,
e ao lume de águas o rancor da vida.
Levar connosco mortos o desejo
e o senso de existir que penetrando
além dos lobos sob as águas fundas
hão-de ser verdes como a velha esperança
nos prados de amargura já floridos.

Deixar no mundo as árvores erguidas,
e da tremente carne as vãs cavernas
aos outros destinados e às montanhas
que a neve cobrirá de álgida ausência.
Levar connosco em ossos que resistam
não sabemos o quê de paz tranquila.

E ao lume de águas o rancor da vida.
(4/9/1972)
Obras de Jorge de Sena, Poesia-III, pp. 207/8, Edições 70, 1989

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Restolhar para quê?

É esta pergunta que me tenho feito, e enquanto a reflexão vai e vem, a caneta não escreve (eu sou uma pessoa de rascunhos). Já o Direito e Avesso tem andado num frenesi delicioso, o que também pode ter contribuído para me alhear das minudências do quotidiano, tanto do país como da União Europeia, que mais parecem o mar da tranquilidade. Num, enquanto se espera pelo debate do Orçamento do Estado, na outra, enquanto se conferencia até à exaustão para escolher a personalidade que irá ocupar o cargo que poderemos designar como "Ministro das Relações Exteriores da União Europeia", isto, se pertencer à "família política" certa, porque aqui não interessa tanto o perfil ou a competência da pessoa, mas a área ideológica, o que, para uma independente, não faz sentido nenhum. E tudo isto só será possível se o Presidente da República Checa assinar o Tratado de Lisboa, o que só fará quando também lhe forem concedidas cláusulas de exclusão em determinados temas à semelhança do Reino Unido e da Polónia.
Quanto à preparação para a Conferência de Copenhaga sobre as alterações climáticas, lá chegaram a acordo quanto ao valor que a União Europeia deverá disponibilizar para ajudar os países mais pobres a atingir as metas necessárias para combater as alterações climáticas, e que é de 20.000 milhões de euros para o período de 2013 a 2020 (100.000 milhões a nível global), tendo como único critério de comparticipação a riqueza per capita de cada país da União, e que não poderia ser de outro modo, pois, como em tudo, cada um dá consoante as suas possibilidades.
(imagem: quadro de Picasso)

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

O Ambiente na Encruzilhada. Por um futuro sustentável - Conferência Gulbenkian 2009

Nos próximos dias 27 e 28 de Outubro, entre as 9.00h e as 18.00h, no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, com entrada livre, realizar-se-à uma conferência internacional sobre o tema em título, que poderá ser acompanhada em directo "online" em http://live.fccn.pt/fcg/.
Dia 27:
9.30h - As alterações climáticas como força decisiva de mudança global, por David King, Director da Smith School for Enterprise and the Environment, Oxford.
14.30 - O estado do ambiente e as suas dimensões sociais. Moderador: George Polk, Soros Climate Fund Management, Londres.
- Terá a biodiversidade futuro?, por Miguel B. Araújo, Universidade de Évora.
- O imperativo ético da sustentabilidade na gestão da água, por Pedro Arrojo-Agudo, Universidade de Saragoça.
- A crise do ambiente e o futuro da agricultura, por José Lima Santos, Universidade Técnica de Lisboa.
17.00h - Programa Gulbenkian "Próximo Futuro", Presidente: António Pinto Ribeiro
- A felicidade na sociedade de hiperconsumo, por Gilles Lipovetsky, Universidade de Grenoble.
Dia 28:
9.30h - O estado do ambiente e as suas dimensões económicas. Moderadora: Susana Fonseca, Quercus.
- A Europa, Os E.U.A. e a China depois da crise: à procura de novos modelos de crescimento sustentável?, por Allan Larson, Universidade de Lund, Suécia.
- Os cidadãos como actores do desenvolvimento sustentável, por Malini Mehra, Directora-Executiva do Centre for Social Markets, Delhi.
- O mercado de emissões e o futuro da economia do carbono, por Pedro Martins Barata, Centre for Clean Air Policy, Washington.
11.30h - Definindo um rumo para o futuro dos oceanos: a situação actual e as perspectivas futuras, por Julie Packard, Directora-Executiva do Monterey Bay Aquarium.
14.30h - A governança para o desenvolvimento sustentável: uma perspectiva, por Nitin Desai, Ex-Subsecretário-Geral das Nações Unidas, Distinguished Fellow, The Energy & Resources Institute, Índia.
- Alterações climáticas: a perspectiva Europeia, por Alex Ellis, Embaixador do Reino Unido em Portugal.
- Uma nova política de sustentabilidade com a Administração Obama: progressos e obstáculos, por Miranda Schreurs, Environmental Policy Research Centre, Freie Universität, Berlim.
17.00h - Será possível um futuro sustentável?, por Jonathan Porritt, Presidente do Forum for the Future, Londres.
18.00h - Encerramento por Viriato Soromenho-Marques, Coordenador Científico do Programa Gulbenkian Ambiente.
Nota: todas as intervenções estão disponíveis em pdf no endereço acima da Fundação Calouste Gulbenkian, Agenda, Eventos.

sábado, 24 de Outubro de 2009

Esse blog é VIP

O Miguel Coelho (T.Mike) do blogue Vermelho Côr de Alface e a Manuela Araújo do blogue Sustentabilidade É Acção, distinguiram o Restolhando com o selo "esse blog é VIP - just perfect!", que muito agradeço e é também uma honra considerarem que "your blog is just perfect to learn something every day".
É com muito prazer que o atribuo aos seguintes blogues:
Sustentabilidade É Acção (because your blog is just perfect to learn something every day)

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

A nova biblioteca de Alexandria

.
A ler: A nova biblioteca de Alexandria, texto de Fernando Cardoso no blogue AyyapaExpress.


(Do filme Fahrenheit 451, de 1966, ou a que temperatura ardem os livros)

sábado, 17 de Outubro de 2009

Mapa da Fome no Mundo - 2009

(clique na imagem para ampliar e ler)

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Dia Mundial da Alimentação (de preferência racional, a obesidade também mata)


quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Blog Action Day 2009 - Climate Change

O dia 15 de Outubro foi escolhido, a nível mundial, como o dia em que os autores de blogues são desafiados pela organização Blog Action Day a abordarem o problema das alterações climáticas que já se fazem notar no nosso Planeta, e para as quais têm contribuído as mais diversas actividades humanas, como os excessos no abate de árvores nas florestas tropicais, reduzindo assim a nossa fonte de oxigénio, bem como o problema da emissão de gases poluentes para a atmosfera, entre outras.
No próximo mês de Dezembro, este assunto será debatido em Copenhaga, numa cimeira internacional, e é bom que saibam que todos os bloguistas estarão atentos ao que lá se vai passar e às resoluções que venham a ser tomadas no sentido de se retroceder no processo de degradação do meio-ambiente que tem tido como consequência a alteração do clima.
Para nos lembrarmos do tempo em que havia estações do ano definidas, aqui fica um poema de Alberto Caeiro (F.Pessoa):
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno -
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar -
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma totalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito com os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o Mundo.

De «POEMAS INCONJUNTOS», Alberto Caeiro/Fernando Pessoa (1917)

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Fernando Pessoa - citação

«O governo do mundo começa em nós mesmos. Não são os sinceros que governam o mundo, mas também não são os insinceros. São os que fabricam em si uma sinceridade real por meios artificiais e automáticos; essa sinceridade constitui a sua força, e é ela que irradia para a sinceridade menos falsa dos outros. Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista. Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir.»
in Livro do Desassossego (275), Fernando Pessoa/Bernardo Soares

domingo, 11 de Outubro de 2009

Autárquicas manchadas de sangue

Não sei o que é mais perturbador, se o assassinato hoje do marido da Presidente da Junta de Freguesia de Ermelo, Distrito de Vila Real, Glória Nunes, numa assembleia de voto de Fervença, se o facto de eu não me admirar que coisas destas aconteçam.
Se parece haver uma ideia generalizada de uma certa aversão à "classe política" a nível nacional, essa ideia aparece difusa, sem um rosto-alvo, ou porque quem está no poder não pode agir de outro modo por razões conjunturais, ou porque tem directivas da União Europeia a cumprir.
A nível local, os ódios são diferentes, são concretos, têm rosto, são ódios de pessoa a pessoa, pessoas que se conhecem melhor umas às outras e, por isso mesmo, as melhores ideias políticas para a localidade não são importantes mas sim as empatias ou os ódios pessoais.
A nível ainda mais micro, que é a gestão de um condomínio, já tive a experiência de me pedirem para aceitar a administração em anos em que não me competia (cabia-me de 10 em 10 anos), ou porque havia obras a fazer que implicavam quotas extraordinárias, ou porque havia assuntos delicados a tratar, designadamente em Tribunal, e, segundo os outros condóminos, eu era a única pessoa com experiência do cargo que não tinha relações cortadas com ninguém. Então, nesses anos, passei horas em reuniões com uns e outros, em mediação contínua de conflitos pessoais, e tive oportunidade de ver nos olhos e nas palavras de uns e outros esse tal ódio que se encontra em pessoas mesquinhas, e que é totalmente incompreensível. Também aí, e face ao exposto, só faltou que alguém tivesse perdido a cabeça como hoje aconteceu ao candidato António Cunha. Depois da minha tarefa concluída, houve ainda um que me disse: "depois do trabalho que a senhora fez, todos os que vierem a seguir na gestão do condomínio vão parecer incompetentes". Dadas as circunstâncias, nem vi nisto um elogio, e quanto aos que viessem a seguir seriam sempre incompetentes ao nível das relações humanas civilizadas.

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Um Nobel da Paz prospectivo?

Depois de ontem ter ficado muito satisfeita por ter sido premiada a qualidade literária e humana em vez da quantidade e da vaidade e, por isso, o Prémio Nobel da Literatura ter sido muito bem entregue a Herta Müller, estou, no entanto, ainda incrédula com a escolha de Barack Obama para o Prémio Nobel da Paz, que a Academia do Nobel reservava para distinguir pessoas ou organizações que lutaram, por vezes vidas inteiras, pela paz, através dos mais diversos caminhos, o que não é o caso de Obama, por enquanto.
Assim, só posso entender a atribuição deste prémio, não pelo que fez mas pelo que se espera que venha a fazer, e isso não é justo para quem está no terreno todos os dias, colocando a vida em risco, e já com trabalho feito e provas dadas ao longo de décadas, enquanto Obama lutou na última década pelas suas ideias e na preparação da sua ascenção política apenas e só nos E.U.A., ou seja, por uma sociedade mais justa para os seus concidadãos.
Quanto à melhoria das relações com o Irão e a Rússia, os entendimentos para a diminuição do armamento nuclear, a estabilização do Iraque ou do Afeganistão, a preservação da natureza, etc., são assuntos tão recentes para Obama como recente é a sua eleição como Presidente dos E.U.A.
A não ser que o Prémio Nobel da Paz já não sirva para destacar acções mas apenas intenções, e isso é absurdo.
(fotos: Obama e Herta Müller)

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

A velocidade como abstracção

«Para sentir a delícia e o terror da velocidade não preciso de automóveis velozes nem de comboios expressos. Basta-me um carro eléctrico e a espantosa faculdade de abstracção que tenho e cultivo.
Num carro eléctrico em marcha, eu sei, por uma atitude constante e instantânea de análise, separar a ideia de carro da ideia de velocidade, separá-las de todo, até serem coisas-reais diversas. Depois, posso sentir-me seguindo não dentro do carro mas dentro da Mera-Velocidade dele. E, cansado, se acaso quero o delírio da velocidade enorme, posso transportar a ideia para o Puro Imitar da Velocidade e a meu bom prazer aumentá-la ou diminuí-la, alargá-la para além de todas as velocidades possíveis de veículos comboios.
Correr riscos reais, além de me apavorar, não é por medo que eu sinta excessivamente - perturba-me a perfeita atenção às minhas sensações, o que me incomoda e me despersonaliza.
Nunca vou para onde há risco. Tenho medo a tédio dos perigos.
Um poente é um fenómeno intelectual.»
Fernando Pessoa/Bernardo Soares, Livro do Desassossego (75)
Nota: Na eventualidade de não se concretizar o projecto do Comboio de Alta Velocidade, podemos sempre fazer este exercício como Fernando Pessoa.