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segunda-feira, 15 de março de 2010

Dia Mundial dos Consumidores

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Neste dia mundial dos consumidores, que é especificamente dedicado aos serviços financeiros, não vou falar de taxas, comissões e muito menos dos próprios serviços financeiros prestados pelos Bancos, porque não são novidade para ninguém.
Resolvi, por isso, utilizar um soneto que Natália Correia escreveu para a Revista do Cooperativismo e da Defesa do Consumidor, Come & Cala, em Dezembro de 1981, e que, pelo menos, não será tão conhecido.

Comsumatum Est

No caso consumado do consumo
em que o marchante de toda a tralha acampa,
do apetite bem espremido o sumo
o consumido também consome a campa.

Vais do teu tempo à morte, homem sem humo,
oco e lançado, mas não pela tua rampa.
Ditam-te o pasto; és rês e deitas fumo.
És só pressão; e não te salta a tampa.

E, no último anel desta espiral,
com recibos por coluna vertebral,
do gesto aquisitivo, a estrénua caça

remexendo em ruínas e concheiros,
de humanos dias, só acha, verdadeiros,
restos de um anjo com dentadura falsa.

(de Poesia Completa, D. Quixote, 1999)

sábado, 2 de janeiro de 2010

Natália Correia - "Língua mater dolorosa" (que dedico ao acordo ortográfico)

Língua mater dolorosa


Tu que foste do Lácio a flor do pinho

dos trovadores a leda e bem-talhada

de oito séculos a cal o pão e o vinho

de Luiz Vaz a chama joalhada.

Tu o casulo o vaso o ventre o ninho

e que sôbolos rios pendurada

foste a harpa lunar do peregrino

tu que depois de ti não há mais nada,

eis-te bobo da corja coribântica:

a canalha apedreja-te a semântica

e os teus versos feridos vão de maca.

Já na glote és cascalho és malho és míngua,

de brisa barco e bronze foste a língua;

língua serás ainda … mas de vaca.


de Poesia Completa, D. Quixote, 1999

sábado, 28 de novembro de 2009

Natália Correia respondendo à afirmação: "o acto sexual é para ter filhos", de João Morgado (CDS) em 1982

Enquanto Manuela Ferreira Leite, do PSD, continua a defender a ideia de que o "casamento é para a procriação", no âmbito do pedido de legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, vou transcrever o poema/resposta que Natália Correia deu ao deputado João Morgado, do CDS, em 1982, quando este afirmou que "o acto sexual é para fazer filhos", num debate na Assembleia da República sobre a legalização da interrupção voluntária da gravidez, poema que se encontra na página 486 do livro Poesia Completa, da Dom Quixote, e que também foi publicado no Diário de Lisboa a 5 de Abril de 1982.
Aqui fica:
Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.