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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Frei Fernando Ventura em entrevista à SIC, para reflexão (2/10/2010)


 
http://sic.sapo.pt/online/video/informacao/Edicao+da+Noite/2010/10/frei-fernando-ventura-sobre-a-situacao-do-pais02-10-2010-01611.htm

Para quem prefira ler em vez de ouvir, aqui fica a transcrição do texto, no que se refere a educação, feita pelo blogue  De Rerum Natura

«[Há] uma tragédia a que vamos assistindo quase sem reacção (...) teria de se construir um projecto social diferente. Nós temos demasiado denunciadores e não temos anunciadores, e os anunciadores que temos mentem (...). O caminho tem de ser outro, de construção duma consciência social, duma consciência colectiva de co-responsabilidade social (...).
[Neste] país de um nível cultural baixíssimo (...) tem agora esta espécie mentira colectiva das Novas Oportunidades, são novas oportunidades de quê? De coisa nenhuma.
Vamos dar um canudo às pessoas mas não construir uma consciência cultural, não vamos construir uma consciência social, vamos continuar, e esta é outras das nossas desgraças nacionais, a viver para a cultura do penacho, das peneiras e dos títulos (…) e sabemos como, às vezes, os diplomas se conseguem e as confusões que estão por aí…
Se o Bordalo Pinheiro fosse vivo, neste momento, a fotografia que ele faria do país seria barraca de um bairro de lata com um submarino estacionado à porta. Nós somos o país do pessoal das barracas com antena parabólica no tecto, temos um país a cair de podre, mas temos um submarino lindíssimo para as visitas verem, mas se calhar nem sequer temos fundo para o pôr a navegar …
Este seria o momento, não de aparição de nenhum messias, mas de aparição de gente capaz de formar opinião, gente capaz de formar consciência, gente capaz de gritar que o rei vai nu por muito engravatado que esteja, gritar que é tempo de mudar e de mudar as estruturas podres que nos conduziram até aqui. E estamos outra vez a sacudir a água do capote (...).
O facilitismo começa desde o Jardim-de-infância. Nós estamos a assistir a uma débâcle nacional, estamos a montar uma escola, [onde] teoricamente e por ironia da estupidez, é possível entrar na universidade sem quase saber ler nem escrever.
Estamos a mentir às pessoas, não estamos a dar um futuro aos nossos jovens. Pior do que isso, estamos a construir uma sociedade montada na fachada (…). Estamos a formar ou a deformar as gerações que vão ser o futuro desta nossa terra, que estão a crescer sem bases, que estão a crescer sem valores, que estão a crescer dentro duma sociedade que está montada no ter ou não ter e que deixou, esqueceu, o ser pelo ser, e o ser pelo outro e o ser com o outro (...).
Reparem no que está a acontecer (…) vamos pagar uma factura extremamente pesada, e muito brevemente: nós estamos a criar gerações de monstros, nós estamos a criar gerações de jovens sem memória, estamos a criar gerações de gente sem história. E quando a memória e a história não se encontram, temos os cataclismos sociais.
As nossas crianças desde os três meses estão nos berçários, nos infantários, na escola porque têm que estar porque os pais precisam desesperadamente de ter dois ou três empregos para sobreviver (…) as nossas crianças não têm avós, não têm, sequer, pais (…).
É esta estrutura, por dentro, que precisa de mudar, e é a partir da base, a partir da educação.
Outra das facturas grandes que estamos a pagar (…) é a de um peneirismo nacional que entrou a seguir ao PREC e resolveu acabar com as Escolas Industriais e Comerciais (…). Não somos técnicos de coisa nenhuma. Veja um jovem que saia do liceu não sabe fazer rigorosamente nada. Temos a brincadeira dos Cursos Técnico Profissionais que são mais fachada do que outra coisa e temos uma população inteira de gente desqualificada. Nós somos os limpadores do mundo (…), continuamos a despejar os caixotes do lixo da Europa e da América do Norte. Não temos formação para mais (...). O destino é sermos comandados.»

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O que diz Maquiavel

Nestes tempos de "trovoada institucional", recorri de novo ao livro O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, para esclarecimento sobre a natureza humana, designadamente de governantes e governados e das relações entre uns e outros, e encontrei algo interessante no capítulo XVIII, com o título:
Como os príncipes devem honrar a sua palavra
(Quomodo fides a principibus sit servanda)
«Todos concordam que é muito louvável um príncipe respeitar a sua palavra e viver com integridade, sem astúcias nem embustes. Contudo, a experiência do nosso tempo mostra-nos que se tornaram grandes príncipes os que não ligaram muita importância à fé dada e que souberam cativar, pela manha, o espírito dos homens e, no fim, ultrapassar aqueles que se basearam na lealdade.
Convém saber que existem duas maneiras de combater: pelas leis e pela força. A primeira é própria dos homens; a segunda é própria dos animais. Mas como, muitas vezes, aquela não chega, há que recorrer a esta, e, por isso, o príncipe precisa de saber ser animal e homem. Esta regra foi ensinada aos príncipes, em palavras veladas, pelos antigos autores que escreveram como Aquiles, e vários outros grandes senhores do tempo passado foram confiados ao centauro Quíron, para os educar sob a sua disciplina. Ter, assim, por preceptor um ser meio animal, meio homem, só significa que um príncipe precisa de saber utilizar uma e outra natureza e que uma sem a outra não é durável. Já que um príncipe deve saber utilizar bem a natureza animal, convém que escolha a raposa e o leão: como o leão não se sabe defender das armadilhas e a raposa não se sabe defender dos lobos, é necessário ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para meter medo aos lobos. Os que querem fazer apenas de leão não percebem nada do assunto. Por conseguinte, o senhor sensato não pode respeitar a fé dada se essa observância o prejudica e se as causas que o levaram a fazer promessas deixaram de existir. Se os homens fossem todos gente de bem, o meu preceito seria nulo, mas, como são maus e não respeitariam a palavra que te dessem, se não lhes conviesse, também não és obrigado a respeitar a que lhes deres. Nunca faltaram a um príncipe pretextos legítimos para justificar a sua falta de palavra, e seriam infinitos os exemplos, do tempo presente, demonstrativos de quantas pazes, quantas promessas, foram feitas em vão e reduzidas a nada pela infidelidade dos príncipes, e demonstrativos também de que as coisas correram melhor aos que melhor souberam representar o papel de raposa. Mas é indispensável saber ocultar este pendor, disfarçá-lo bem. Os homens são tão simples e tão obedientes às necessidades do momento, que quem engana encontra sempre quem se deixe enganar.
Há um exemplo, entre os novos, que não quero deixar de referir. Alexandre VI nunca fez outra coisa senão intrujar o mundo, nunca pensou noutra coisa, e encontrou sempre quem se deixasse enganar. Jamais existiu homem que desse garantias com tanta eficácia e que afirmasse uma coisa com tão grandes juramentos, mas que menos os respeitasse. No entanto, conhecia tão bem a matéria que os seus embustes resultavam sempre ad votum. Um príncipe não precisa, consequentemente, de ter todas as qualidades enumeradas, mas convém que pareça que as tem. Atrever-me-ei, até, a dizer que, se as tem e as respeita sempre, o prejudicam. Mas, se fingir bem que as tem, ser-lhe-ão proveitosas, assim como lhe será proveitoso fingir-se compassivo, fiel, humano, íntegro e religioso - e sê-lo, mas na condição de, se convier não o ser, saber e poder agir ao contrário. Convém também notar que um príncipe, sobretudo quando é novo, não pode respeitar singelamente todas as condições segundo as quais se é considerado homem de bem, pois, não raro, para conservar os seus Estados, se vê constrangido a agir contra a sua palavra, contra a caridade, a humanidade e a religião. É por isso que deve ter o entendimento treinado para virar conforme os ventos da fortuna e a mutabilidade das coisas lhe ordenem, e, como já disse, não se afastar do bem, se puder, mas enveredar pelo mal, se for necessário.
O príncipe deve ter o cuidado de evitar que lhe saiam da boca palavras que não possuam as cinco qualidades que mencionei atrás e de parecer, a quem o veja e ouça, todo misericórdia, todo fidelidade, todo integridade, todo religião. Não há, aliás, nada tão necessário como parecer possuir a última virtude. Os homens, em geral, julgam mais com os olhos do que com as mãos, porque todos podem ver facilmente, mas poucos podem sentir. Todos vêem bem o que pareces, mas poucos têm o sentimento do que és - e estes poucos não ousam contradizer a opinião da maioria, que tem do seu lado a majestade do Estado que os sustenta. Para avaliar as acções de todos os homens, e sobretudo as dos príncipes (pois neste caso não se pode apelar para outro juiz), mede-se o êxito. Se um príncipe tiver o propósito de vencer e de manter o Estado, os meios empregados serão sempre tidos por honrosos e louvados por todos, pois o vulgo só julga pelo que vê e pelos resultados. Ora, neste mundo só existe o vulgo, e a minoria não conta quando a maioria tem em que se apoiar.»(..)
(sublinhados meus)

sábado, 31 de janeiro de 2009

A vaidade e o poder

"A vaidade é uma qualidade muito disseminada e talvez ninguém esteja livre dela. Nos círculos académicos e científicos é uma espécie de doença profissional. Mas precisamente no homem de ciência, por muito antipáticas que sejam as suas manifestações, a vaidade é relativamente inócua dado que, em geral, não estorva o trabalho científico. No político, que utiliza inevitavelmente como arma o desejo do poder, os seus resultados são muito diferentes. O instinto de poder, como se lhe costuma chamar, está assim, de facto, entre as suas qualidades normais. O pecado contra o Espírito Santo da sua profissão começa no momento em que este desejo de poder deixa de ser positivo, deixa de estar exclusivamente ao serviço da causa para se converter em pura embriaguez pessoal. Em última análise, só existem dois pecados mortais no terreno da política: a ausência de finalidades objectivas e a falta de responsabilidades. Esta coincide frequentemente, embora não sempre, com aquela. A vaidade, a necessidade de aparecer em primeiro plano sempre que possível, é o que mais leva o político a cometer um destes pecados ou os dois ao mesmo tempo. E tanto mais quanto é certo que o demagogo é obrigado a ter em conta o efeito; por isso se encontra sempre em perigo de se converter num comediante ou de não dar a devida atenção à responsabilidade que lhe incumbe pelas consequências dos seus actos, preocupando-se apenas com a impressão que provoca. A sua ausência de finalidade objectiva torna-o propenso a procurar a aparência brilhante do poder em vez do poder real; a sua falta de responsabilidade leva-o a gozar o poder pelo poder, sem tomar em conta a sua finalidade. Embora o poder seja o meio iniludível da política, ou mais exactamente, precisamente porque o é, e o desejo de poder seja uma das forças que a impulsionam, não há mais perniciosa deformação da força política que malbaratar o poder como um adventício ou comprazer-se vaidosamente no sentimento do poder, ou seja, em geral, toda a adoração do poder puro enquanto tal".
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in O político e o cientista, Max Weber