Mostrar mensagens com a etiqueta moral e política. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta moral e política. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Fernando Alves: Da frivolidade (Llosa e Camus)


Tendo relido recentemente os "Discursos da Suécia" que Albert Camus proferiu em 1957, designadamente o que tem por título "O artista e o seu tempo", foi com muita curiosidade que li hoje a crónica de Fernando Alves, na TSF, que o trouxe a lume, bem como algumas afirmações de Vargas Llosa, neste tempo em que parece que tudo é cultura e nada o é, a propósito de comportamentos políticos e sociais com que somos brindados diariamente e que mais parecem pertencer às "artes" de entretenimento. Mas o melhor é ler a crónica:

 

«A palavra "frivolidade" corre o noticiário destes dias. Ainda nos lembramos da recente capa do "Economist" sobre "a eleição mais frívola do Ocidente", com Hollande e Sarkozy sentados na relva, numa curiosa recriação de um célebre quadro de Manet.
E agora vários dirigentes partidários espanhóis se referem, indignados, à frivolidade de um rei que, em plena crise, foi caçar elefantes para o Botswana. O jornal "El Mundo" considerou que o triste espectáculo dado pelo monarca espanhol "transmite uma imagem de indiferença e frivolidade que o Chefe de Estado jamais deveria dar".
É um exercício a que nos deveríamos entregar com mais frequência: o da percepção dessa frivolidade que se impôs como regra, como "ar do tempo". Esse exercício deveria assustar-nos, porque fomos cedendo a essa evanescência doce, a essa pauta leviana e fácil. Em todos os domínios, na política, no jornalismo, na convivialidade quotidiana.
Uma importante entrevista de Vargas Llosa ao jornal "El Pais" veio, este fim-de-semana, desafiar-nos a que encetemos esse exercício. A entrevista toma como pretexto a recente publicação pela Alfaguara do novo ensaio de Vargas Llosa, "A civilização do espectáculo". Ele fala deste tempo em que, "como não há maneira de saber o que é a cultura, tudo é cultura e já não o é". Essa "dissolução de hierarquias e referentes" é, para o autor de "Conversa na Catedral", uma clara consequência do "triunfo da frivolidade, do reinado universal do entretenimento".
Vale a pena mergulhar nesta longa entrevista, enquanto não chega o ensaio de Vargas Llosa. Ela contém avisos muito sérios sobre os perigos que ameaçam a cultura democrática. Sobre os perigos que advêm da frivolidade que é a marca destes dias. Ela manifesta-se, lembra o peruano, por um quadro de valores "completamente confundido, pelo sacrifício da visão a longo prazo em benefício do imediato".
Por causa desta entrevista, a que voltarei, fui procurar um dos discursos de Camus, por ocasião da atribuição do Nobel, em 57, aquele que tem por titulo "O Artista e o seu tempo". Lá está a referência ao modo como a arte se afirma "numa perpétua tensão entre a beleza e a dor, o amor dos homens e a loucura da criação, a solidão mais insuportável e o assédio da multidão, a recusa e o consentimento". Nesse discurso, proferido no grande anfiteatro da universidade de Upsala, Camus lembra-nos que a arte "caminha entre dois abismos que são a frivolidade e a propaganda".»


Fernando Alves (na crónica “Sinais”, hoje, na TSF)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Qual a melhor forma de governo?


Aproveito, de novo, este Dia Mundial da Filosofia para abordar temas que tenham a ver com situações dos nossos dias, e que, de certo modo, foram tratados por filósofos de referência. Assim, trago a enumeração das formas de governo que Platão fez e que se encontram em A República e, muito resumidamente, refiro as respectivas características, uma vez que não seria útil reproduzir grandes excertos do diálogo, e utilizarei comas apenas em frases que reproduzo na íntegra, discorrendo, no final, sobre as actuais democracias ditas ocidentais.

Da melhor para a pior, segundo Platão, encontramos: a aristocracia (ou realeza), a timocracia (ou timarquia), a oligarquia, a democracia e a tirania, resultando cada uma delas do fracasso ou degenerescência da anterior. Atendendo ao étimo, não é difícil concluir que a aristocracia seria o governo dos bons e justos, portanto, dos melhores, dos filósofos; a timocracia, seria o governo dos que têm o gosto pelas honrarias, com espíritos exaltados, nascidos mais para a guerra do que para a paz, com apreço pelos dolos e expedientes que lhe são próprios, passando a maior parte do tempo em combate, cobiçosos e avaros das riquezas, a que prestam culto, e gastadores das alheias, que fogem da lei como as crianças do pai, por terem descurado a verdadeira Musa, a da dialéctica e da filosofia; a oligarquia, seria a forma baseada no recenseamento da propriedade, em que os ricos são soberanos e os pobres não participam do governo, e, um Estado desses, não seria um só, mas dois, o dos pobres e o dos ricos, que habitam no mesmo lugar e estão sempre a conspirar uns contra os outros; «a democracia é, ao que parece, uma forma de governo aprazível, anárquica, variegada e que reparte a sua igualdade do mesmo modo pelo que é igual e pelo que é desigual», sendo o seu principal bem a liberdade e, «a ambição deste bem e a negligência do resto é que faz mudar esta forma de governo e abre caminho à tirania», porque «a liberdade em excesso, portanto, não conduz a mais nada que não seja a escravatura em excesso, quer para o indivíduo, quer para o Estado»; a tirania germina da semente de um protector que aparece quando a democracia já não serve, protector que se transforma em tirano, suscitando guerras para que o povo necessite de um chefe. O tirano é invejoso, desleal, injusto, hostil, impiedoso, um desgraçado que torna desgraçados quem dele se aproxima.

Atendendo aos quase 2.500 anos que nos separam destas considerações e, também, ao facto de Platão colocar a democracia em penúltimo lugar na ordem das suas preferências no que respeita a formas de governo, demonstrando até uma certa dificuldade em a caracterizar, o que não devemos estranhar dada a estratificação social e os valores da sua época, não deixa de ser muito curioso que, analisando as nossas democracias ocidentais de hoje, não nos é difícil verificar que elas englobam todas as características que Platão atribuiu a cada forma de governo, ou seja, são uma amálgama de aristocracia, oligarquia, democracia e de tirania, pois, tal como Platão entende, os governos reflectem as características e os valores dos respectivos chefes, o seu tipo de educação, etc., e como agora os governos são formados por indivíduos das mais diversas proveniências ideológicas, culturais e sociais, também elas se reflectem na praxis política. Se os “aristocratas” de hoje (os bons, os justos, os melhores) são os tecnocratas independentes de partidos políticos, isso daria para outra conversa, que esta já vai longa, e, entretanto, tenho que dar-lhes tempo para que o demonstrem.

Bibliografia: Platão, A República, 3.ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian, tradução e notas de Maria Helena da Rocha Pereira

(nota: para não dificultar a leitura corrida do texto, deixo aqui as referências em que me apoiei ou que transcrevi – 545a,b; 548a,b,c; 550d; 551d; 558c; 562c; 564a; 566e,d)

terça-feira, 5 de abril de 2011

O que falta é a responsabilização criminal

No passado dia 1 de Abril, sexta-feira, iniciaram-se os Grandes Debates do Regime, uma iniciativa da Câmara Municipal do Porto, tendo sido esta 1.ª sessão subordinada ao tema “Democracia no Século XXI: Que hierarquia de valores?, em que foram oradores Mário Soares e Diogo Freitas do Amaral (Francisco Pinto Balsemão, faltou). Tive oportunidade de ver alguns excertos na RTP e, especialmente um, de Diogo Freitas do Amaral, despertou-me a atenção para um pormenor que já tinha esquecido. Com bastante pena minha, não consegui encontrar qualquer vídeo, nem nos da própria RTP, que tivessem essa passagem da sua intervenção, para poder publicar aqui e confirmar o que digo. Provavelmente, se fosse um cão ou um gato a fazer habilidades, já estaria no Youtube. Enfim, prioridades.

Perguntava o Professor Freitas do Amaral: se cada Orçamento do Estado, é uma Lei, e, como tal, tem de ser cumprida do mesmo modo que têm que ser cumpridas qualquer outras leis, como é que ao longo dos anos em que os Orçamentos não foram cumpridos, ninguém foi responsabilizado criminalmente?

Eu acrescento que, nem foram responsabilizados politicamente, porque continuam todos a andar por aí no desempenho dos mais variados cargos, quanto mais criminalmente! E onde estava a nossa Justiça, a quem competiria julgar esses casos? Além de partidarizada, estava e está também num buraco, como o país.

Na falta do vídeo a que aludi, deixo o editorial de hoje do jornal Económico, sob o título “Recomendações não bastam”, e que aponta outros aspectos em que a Lei do Orçamento do Estado para 2011 não está a ser cumprida e em que nada acontece aos prevaricadores.

«A medida faz parte da lei do Orçamento do Estado para 2011. E obrigava a que todos os serviços do Estado, todas as empresas públicas, os institutos e os hospitais com estatuto empresarial, teriam de ter publicado até ao final de Março qual o montante da dívida que tinham a fornecedores. Não o fizeram. E desrespeitaram assim uma norma de elementar transparência.

Foi perante este cenário que as várias inspecções-gerais dos vários Ministérios se aprontaram a relembrar a necessidade de todos os organismos públicos cumprirem com aquela divulgação. Até porque não há sanção prevista para quem desrespeitou a lei.

O não cumprimento desta simples medida é um exemplo do que pior pode ter o Estado. Por um lado, não permite ter uma visão clara de quanto é, de facto, o montante de endividamento público. Mas mais grave ainda, não permite que seja encontrada uma solução para o problema, ou seja, para que os credores possam ser ressarcidos.

A situação já seria, por si só, grave. Mas é ainda mais dada a situação de grave crise que o País atravessa. O atraso de pagamentos num momento em que a esmagadora maioria das empresas enfrenta dificuldades de tesouraria pode ser a gota de água que levará muitas delas a fechar portas.

É de saudar a intenção das inspecções para que o Orçamento seja cumprido. Mas já não é suficiente fazê-lo através de uma simples recomendação. É preciso penalizar quem prevarica.»

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Cavaco Silva e a SLN (II)

O que escrevi aqui a 1 de Junho de 2009, sobre este tema, mantém-se actual, pelo que apenas o reproduzo:
 
Sobre este assunto há perguntas a fazer:
Uma vez que a SLN (Sociedade Lusa de Negócios) não estava cotada em Bolsa, como é que Cavaco Silva soube da existência das acções, do seu valor, da melhor altura para comprar e para vender?
Se, com as acções cotadas na Bolsa, por vezes se detectam casos de informação privilegiada, punidos por Lei, que tipo de informação teve Cavaco Silva?
E é tudo o que tem de ser esclarecido.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Hoje, a minha indignação...

Em 1972 tive o prazer de trabalhar com a Comissão Executiva do 4.º Centenário da Publicação de "Os Lusíadas" (1572-1972), mais directamente com o Professor Hernâni Cidade (imagem em baixo) e o Dr. Sousa Barriga (de que não consigo lembrar-me do primeiro nome). 

Hernâni Cidade (1887-1975) foi um dos nossos mais conceituados especialistas em Poesia Medieval e Sousa Barriga era, na altura, Secretário-Geral da Presidência do Conselho de Ministros.
Nesse tempo, a PIDE (Polícia Internacional para a Defesa do Estado) já se chamava DGS (Direcção-Geral de Segurança) ou, melhor, PIDE-DGS, pois a primeira sigla nunca descolou até aos nossos dias, embora a sigla DGS designe agora a Direcção-Geral de Saúde, e que me provocou ainda alguma apreensão quando recebi, há alguns meses, uma "sms" desta DGS, que foi desfeita de imediato ao ler o seu conteúdo, contendo informações sobre a gripe.

Como, em 1972, era Primeiro-Ministro o Professor Marcelo Caetano, e embora eu não fosse funcionária pública, mas dadas as minhas funções e os terrenos em que me movimentava, é muito provável que me tenha sido exigido algum documento, de que também não me lembro, que atestasse a minha idoneidade, ou, pelo menos, o registo criminal, do mesmo modo que hoje se continuam a exigir os registos criminais para muitas áreas de actividade, certificados de habilitações literárias e profissionais e, para certos cargos, se tem que jurar pela nossa honra que cumpriremos com lealdade as funções de que nos incumbem.

Nunca pensei ter de trazer isto para o blogue, porque, em regra, não trato aqui de assuntos pessoais, mas não encontrei outro modo para mostrar a minha indignação pela forma como alguns quiseram aproveitar-se da situação pré 25 de Abril do professor Cavaco Silva, que, afinal, teve que seguir os procedimentos em vigor naquela altura, como qualquer outro cidadão português nas mesmas circunstâncias.

Não sou admiradora de Cavaco Silva, como é sabido, mas ainda admiro menos gente mesquinha, ignorante, que distorce os factos ao sabor da onda que lhe convém com o objectivo único de agradar, sem qualquer sentido crítico, reproduzindo apenas o que outros dizem e, como se já não fosse triste e grave, em mau português, e, por tudo isto, eu não podia ficar calada perante golpe tão baixo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A Declaração Universal dos Direitos Humanos e Bernardo Soares

Tinha pensado no texto de Bernardo Soares, que discorre sobre “o ESFORÇO que sofre os desvios que a vida lhe impõe”, aquando do Dia Internacional do Voluntariado, a 5 de Dezembro, mas por falta de disponibilidade só o assinalei no Fb através de notícias e vídeo “prontos a usar”. E se o trabalho diário dos voluntários, que, nas suas diversas vertentes, parece nunca ter fim, nem resultados mensuráveis e definitivos, quer em tempo de guerra quer em tempo de paz, porque em ambas as situações há casos de vida precária, em guerra por motivos óbvios e, em paz, por desequilíbrios económicos, por crises financeiras, intempéries, etc., e em qualquer deles se atropelam os direitos fundamentais das pessoas, nos objectivos da Declaração Universal dos Direitos do Homem (10/12/1948), em que se abordam e salvaguardam, precisamente, esses direitos fundamentais, poderemos sentir também a mesma dificuldade na avaliação de resultados a nível planetário e, quanto à sua implantação em todos os países, continua a ser um desejo. Daí que, o referido texto, continue a ser adequado para dar voz a essa espécie de impotência quando os desafios são desta natureza.

Vejamos alguns parágrafos do preâmbulo da Declaração Universal:

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;

Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do Homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do Homem;

Considerando que é essencial a protecção dos direitos do Homem através de um regime de direito, para que o Homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão; (…)

Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais do Homem, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declararam resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla; (…)

O texto de Bernardo Soares/ Fernando Pessoa:

«TODO ESFORÇO, qualquer que seja o fim para que tenda, sofre, ao manifestar-se, os desvios que a vida lhe impõe; torna-se outro esforço, serve outros fins, consuma por vezes o mesmo contrário do que pretendera realizar. Só um baixo fim vale a pena, porque só um baixo fim se pode inteiramente efectuar. Se quero empregar meus esforços para conseguir uma fortuna, poderei em certo modo consegui-la; o fim é baixo, como todos os fins quantitativos, pessoais ou não, e é atingível e verificável. Mas como hei-de efectuar o intento de servir minha pátria, ou alargar a cultura humana, ou melhorar a humanidade? Nem posso ter a certeza dos processos nem a verificação dos fins

Bernardo Soares/ Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, p.149/50, Assírio & Alvim, (Richard Zenith), 3.ª edição, Lisboa

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Dia Mundial da Filosofia

O Dia Mundial da Filosofia foi instituído pela UNESCO, órgão da ONU para a Ciência e Cultura, para ser celebrado na 3.ª quinta-feira do mês de Novembro, que, este ano, caiu no dia 18. E o aspecto relevante, por razões óbvias, nas comemorações deste ano, é o facto de o Irão ser a sede dessa celebração (segundo ficou acordado em 2008), de que, entretanto, a UNESCO resolveu dissociar-se, também por razões óbvias, e que já podiam ter sido colocadas em 2008, aquando do acordo, mas, enfim, depois de “choverem” protestos de académicos e de vários países europeus e dos EUA a solicitarem à directora-geral da organização do evento, Irina Bokova, para o cancelar, pois o Irão utilizá-lo-ia para fins políticos, a celebração foi marcada, para hoje, em Paris.
Convém referir que as autoridades iranianas afirmaram, em Outubro, que as Ciências Sociais e Humanas ocidentais eram perigosas para o Irão. E o Ministro da Pesquisa, Ciência e Tecnologia, anunciou o congelamento de quaisquer novos cursos académicos de disciplinas ocidentais, incluindo a Filosofia, até que os seus conteúdos sejam revistos. Fonte: AQUI  

Encerrado o capítulo político-diplomático, vamos à Filosofia. E como se fala tanto de moral e ética nos nossos dias, poderemos abordar, ainda que sucintamente algumas questões que elas nos colocam.

De que trata a Ética? - "Do que nos convém e do que não nos convém", responde Fernando Savater. Aceitemos esta singela resposta. O que nos convém: prazer ou dever? O que não nos convém: sofrimento e dor ou agir segundo impulsos e inclinações? Encontramos assim duas linhas concorrentes na sua fundamentação. Uma, utilitarista, atende sobretudo ao conteúdo da acção ou ao seu resultado, outra atende aos princípios da acção independentemente dos resultados a que conduza. Para se compreender melhor o que está em jogo, junto dois textos, um de Stuart Mill, outro de Kant.

O Princípio da Maior Felicidade
«O credo, que aceita como fundamento da moral a Utilidade ou o Princípio da Maior Felicidade, sustenta que as acções são justas na medida em que tendem a promover a felicidade, e injustas enquanto tendem a produzir o contrário da felicidade. Por felicidade entende-se o prazer e a ausência de dor; por infelicidade, a dor e a ausência de prazer. Para dar uma visão clara do critério moral estabelecido por esta teoria, muito mais haveria que dizer — particularmente, quais as coisas que se incluem nas ideias de dor e de prazer; e até que ponto esta questão fica pendente. Mas estas explicações não afectam a teoria da vida em que se apoia esta teoria da moralidade — nomeadamente, que o prazer e a ausência de dor são as únicas coisas desejáveis como fins; e que todas as coisas desejáveis (tão numerosas na concepção utilitária como em qualquer outra) o são, ou pelo prazer inerente a elas mesmas, ou como meios para a promoção do prazer e a prevenção da dor. […]
De acordo com o Princípio da Maior Felicidade […] o fim último em referência ao qual e por cujo motivo todas as outras coisas são desejáveis (quer consideremos o nosso próprio bem ou o das outras pessoas), é uma existência tanto quanto possível isenta de dor e tão rica quanto possível de satisfações, tanto no que respeita à quantidade como à qualidade; constituindo prova de qualidade e regra para a medir em relação com a quantidade, a preferência sentida por aqueles que, pelas suas oportunidades de experiência, acrescidas dos seus hábitos de reflexão e de auto-observação, estão melhor fornecidos em termos de comparação. Sendo esse, segundo a opinião utilitarista, o fim dos actos humanos, é também necessariamente o critério de moralidade; o qual pode ser, pois, definido como o conjunto de regras e preceitos de conduta humana, por cuja observância é possível assegurar a todo o género humano uma existência como a descrita, na maior extensão possível; e não só aos seres humanos, mais ainda, tanto quanto a natureza das coisas o permita, a toda a criação sensitiva.»
John Stuart Mill, Utilitarismo, Atlântida Editora, Coimbra, 1976, pp. 18-19; 25.

O Princípio Formal do Querer: Não interessa o propósito da acção, mas apenas a máxima que a determina.
«Uma acção praticada por dever tem o seu valor moral, não no propósito que com ela se quer atingir, mas na máxima que a determina; não depende portanto da realidade do objecto da acção, mas somente do princípio do querer segundo o qual a acção, abstraindo de todos os objectos da faculdade de desejar, foi praticada. Que os propósitos que possamos ter ao praticar certas acções e os seus efeitos, como fins e móbiles da vontade, não podem dar às acções nenhum valor incondicionado, nenhum valor moral, resulta claramente do que fica atrás. Em que é que reside pois este valor, se ele se não encontra na vontade considerada em relação com o efeito esperado dessas acções? Não pode residir em mais parte alguma senão no princípio da vontade, abstraindo dos fins que possam ser realizados por uma tal acção; pois que a vontade está colocada entre o seu princípio a priori, que é formal, e o seu móbil a posteriori, que é material, por assim dizer numa encruzilhada; e, uma vez que ela tem de ser determinada por qualquer coisa, terá de ser determinada pelo princípio formal do querer em geral quando a acção seja praticada por dever, pois lhe foi tirado todo o princípio material.» 
Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Atlântida Editora, Coimbra, 1960, pp. 24-25.


Como a maioria dos leitores não é filósofo, não vou cometer a indelicadeza de acrescentar outras teorias sobre esta problemática, uma vez que, para assinalar este dia, nem seria necessário tanto.

domingo, 31 de outubro de 2010

Política e iPod - Crónica de Martim Avillez Figueiredo

Sócrates e Passos Coelho descobriram que mentir compensa. Descubra porquê num regresso à Índia e numa visita ao algoritmo do iPod shuffle.

Pedro Passos Coelho está a aprender com José Sócrates. Está a desaprender – percebeu que o rigor não é a melhor das estratégias políticas. É pena: Sócrates precisa de quem combata os seus golpes baixos com frases claras e ideias simples. Mas os dois estão a brincar com os números. Em 1943, o secretário de Estado para a Índia, um inglês de pouco cabelo e óculos largos, disse numa declaração pública que as mortes provocadas pela fome na região de Bengala deveriam ser umas mil por semana. Mas acrescentou que não tinha a certeza. Dois dias depois, o governador de Bengala, essa região que incluía Calcutá e que os portugueses conheceram tão bem, contrariou: "Eu colocaria a fasquia das mortes nas duas mil por semana". Colocaria... A crise política que estalou logo a seguir terminou com a criação de uma Comissão de Inquérito à Fome que, dois anos depois, em Dezembro de 1945, chegou à seguinte conclusão: as mortes provocadas pela fome, todas as semanas, não são mil nem duas mil. São 26 mil mortes. Esta facilidade com que os ingleses manipularam números e a ausência de rigor com que falaram sobre eles lembram Sócrates e Passos Coelho. Estes, tal como os governantes britânicos, falam de números dramáticos como se estivessem a conversar num café. Pior: trocam-nos entre si como se trocam posts no Facebook, onde aquilo que se diz agora não tem de ser igual ao que se diz uma hora depois. Mas há limites. A economia portuguesa tem poucas saídas nos próximos três anos, mas pelo menos numa todos os economistas e especialistas convergem – é preciso dar competitividade aos produtos portugueses. Como não se espera que, em três anos, alguém invente e comercialize o próximo grito mundial, sobra a solução de reduzir custos nas empresas. Pode ser via salários, claro – mas é mais legítimo defender que o corte seja fiscal. Nem Sócrates nem Passos Coelho aceitam esta ideia. E o que custa não é ver repetida a teimosia e a mentira de Sócrates: essa tem sido a história do último ano. O que os portugueses não encaixam com facilidade é perceber que a sua alternativa já comete proezas semelhantes. O PSD disse há duas semanas (através de Miguel Relvas) que ponderava aceitar a subida do IVA, mas pedia: reduza-se a taxa social única. Esta semana, quando falou ao país, o PSD já tinha ideias diferentes e muito menos comprometedoras – eram ideias, na verdade, que qualquer um poderia ter defendido. Em linguagem de café, chama-se baralhar e voltar a dar. Steve Jobs, esse génio que criou o iPod, foi obrigado pouco tempo depois de lançar o iPod shuffle a explicar de que forma, afinal, aquele aparelho misturava as músicas. Para as pessoas sobrava a dúvida: se era mesmo ao acaso, porque se repetiam músicas? Jobs veio explicar, anunciando que alterara o algoritmo: "Fizemo-lo menos aleatório para parecer mais aleatório". A política portuguesa está igual. Mistura as mesmas músicas, baralha tudo mas, no final, fala do tema como se de uma ciência exacta se tratasse. Pior: fala do tema com o mesmo nível de certeza do secretário de Estado para a Índia, mas esquecendo de dizer o que um cavalheiro não esquece: "Não tenho a certeza". Uma certeza Portugal pode ter: José Sócrates não tem condições para governar Portugal, mesmo que mude o algoritmo. Passos Coelho, até aqui, tem dado sinais errados – mas ainda está a tempo de mudar o disco. 

 

Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Outubro de 2010 e ontem aqui.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Senhores deputados, já pensaram na opção sueca?

É tão simples o que podemos fazer para cortar nas despesas de funcionamento do Estado  em Portugal! Para o corte de despesas na estada em Lisboa dos deputados de outras regiões, durante a semana, que sigam o exemplo dos parlamentares suecos (1.º vídeo). No que respeita à transparência sobre o que fazem e decidem e no contacto com os cidadãos,  bem como na prestação de contas, também (2.º vídeo). E há tantas outras áreas onde se desperdiça o dinheiro dos contribuintes portugueses e que podia enumerar mas, para já, fiquemos por estes exemplos. Penalizar os mais desfavorecidos com impostos é que é vergonhoso e demonstra a má gestão dos dinheiros públicos.



quarta-feira, 6 de outubro de 2010

António José Seguro, felizmente, não perdeu a lucidez

Acabei de ouvir na Antena 1 o deputado socialista António José Seguro, em declarações que já tinha feito ontem à noite à Agência Lusa, e em que considera «inaceitável» que, em tempo de crise, os sacrifícios não sejam feitos pelos que mais têm.
«Acho inaceitável que quando se pedem sacrifícios aos portugueses não sejam todos os portugueses, em particular aqueles que mais têm, a dar esse exemplo e a fazerem esses sacrifícios».
Para o deputado do PS, que é também presidente da comissão de assuntos económicos na Assembleia da República, os portugueses «estão fartos de fazerem sacrifícios sem verem resultados e é preciso que os sacrifícios estejam ligados aos resultados».
O combate à crise é, na sua opinião, uma tarefa geral «mas, em primeiro lugar, de todos aqueles que têm responsabilidades na direcção do país, das regiões e das autarquias»
É muito bom saber que António José Seguro pensa pela sua própria cabeça, não pertencendo àquele grupo de pessoas que caracterizo de "rebanho", que, por não terem pensamento próprio nem capacidade de análise crítica, se limitam a seguir a corrente.
(sublinhados meus)
Áudio e texto  AQUI

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Frei Fernando Ventura em entrevista à SIC, para reflexão (2/10/2010)


 
http://sic.sapo.pt/online/video/informacao/Edicao+da+Noite/2010/10/frei-fernando-ventura-sobre-a-situacao-do-pais02-10-2010-01611.htm

Para quem prefira ler em vez de ouvir, aqui fica a transcrição do texto, no que se refere a educação, feita pelo blogue  De Rerum Natura

«[Há] uma tragédia a que vamos assistindo quase sem reacção (...) teria de se construir um projecto social diferente. Nós temos demasiado denunciadores e não temos anunciadores, e os anunciadores que temos mentem (...). O caminho tem de ser outro, de construção duma consciência social, duma consciência colectiva de co-responsabilidade social (...).
[Neste] país de um nível cultural baixíssimo (...) tem agora esta espécie mentira colectiva das Novas Oportunidades, são novas oportunidades de quê? De coisa nenhuma.
Vamos dar um canudo às pessoas mas não construir uma consciência cultural, não vamos construir uma consciência social, vamos continuar, e esta é outras das nossas desgraças nacionais, a viver para a cultura do penacho, das peneiras e dos títulos (…) e sabemos como, às vezes, os diplomas se conseguem e as confusões que estão por aí…
Se o Bordalo Pinheiro fosse vivo, neste momento, a fotografia que ele faria do país seria barraca de um bairro de lata com um submarino estacionado à porta. Nós somos o país do pessoal das barracas com antena parabólica no tecto, temos um país a cair de podre, mas temos um submarino lindíssimo para as visitas verem, mas se calhar nem sequer temos fundo para o pôr a navegar …
Este seria o momento, não de aparição de nenhum messias, mas de aparição de gente capaz de formar opinião, gente capaz de formar consciência, gente capaz de gritar que o rei vai nu por muito engravatado que esteja, gritar que é tempo de mudar e de mudar as estruturas podres que nos conduziram até aqui. E estamos outra vez a sacudir a água do capote (...).
O facilitismo começa desde o Jardim-de-infância. Nós estamos a assistir a uma débâcle nacional, estamos a montar uma escola, [onde] teoricamente e por ironia da estupidez, é possível entrar na universidade sem quase saber ler nem escrever.
Estamos a mentir às pessoas, não estamos a dar um futuro aos nossos jovens. Pior do que isso, estamos a construir uma sociedade montada na fachada (…). Estamos a formar ou a deformar as gerações que vão ser o futuro desta nossa terra, que estão a crescer sem bases, que estão a crescer sem valores, que estão a crescer dentro duma sociedade que está montada no ter ou não ter e que deixou, esqueceu, o ser pelo ser, e o ser pelo outro e o ser com o outro (...).
Reparem no que está a acontecer (…) vamos pagar uma factura extremamente pesada, e muito brevemente: nós estamos a criar gerações de monstros, nós estamos a criar gerações de jovens sem memória, estamos a criar gerações de gente sem história. E quando a memória e a história não se encontram, temos os cataclismos sociais.
As nossas crianças desde os três meses estão nos berçários, nos infantários, na escola porque têm que estar porque os pais precisam desesperadamente de ter dois ou três empregos para sobreviver (…) as nossas crianças não têm avós, não têm, sequer, pais (…).
É esta estrutura, por dentro, que precisa de mudar, e é a partir da base, a partir da educação.
Outra das facturas grandes que estamos a pagar (…) é a de um peneirismo nacional que entrou a seguir ao PREC e resolveu acabar com as Escolas Industriais e Comerciais (…). Não somos técnicos de coisa nenhuma. Veja um jovem que saia do liceu não sabe fazer rigorosamente nada. Temos a brincadeira dos Cursos Técnico Profissionais que são mais fachada do que outra coisa e temos uma população inteira de gente desqualificada. Nós somos os limpadores do mundo (…), continuamos a despejar os caixotes do lixo da Europa e da América do Norte. Não temos formação para mais (...). O destino é sermos comandados.»

sábado, 11 de setembro de 2010

Robert Fisk - Nine years, two wars, hundreds of thousands dead and nothing learnt

Por ser demasiado extenso, não o traduzo, mas por me parecer muito interessante, não quero deixar de reproduzir este artigo-reflexão de Robert Fisk publicado hoje no jornal  The Independent
«Did 9/11 make us all go mad? How fitting, in a weird, crazed way, that the apotheosis of that firestorm nine years ago should turn out to be a crackpot preacher threatening another firestorm with a Nazi-style book burning of the Koran. Or a would-be mosque two blocks from "ground zero" – as if 9/11 was an onslaught on Jesus-worshipping Christians, rather than on the atheist West.
But why should we be surprised? Just look at all the other crackpots spawned in the aftermath of those international crimes against humanity: the half-crazed Ahmadinejad, the smarmy post-nuclear Gaddafi, Blair with his crazed right eye and George W Bush with his black prisons and torture and lunatic "war on terror". And that wretched man who lived – or lives still – in an Afghan cave and the hundreds of al-Qa'idas whom he created, and the one-eyed mullah – not to mention all the lunatic cops and intelligence agencies and CIA thugs who failed us all – utterly – on 9/11 because they were too idle or too stupid to identify 19 men who were going to attack the United States. And remember one thing: even if the Rev Terry Jones sticks with his decision to back down, another of our cranks will be ready to take his place.  
Indeed, on this grim ninth anniversary – and heaven spare us next year from the 10th – 9/11 appears to have produced not peace or justice or democracy or human rights, but monsters. They have prowled Iraq – both the Western and the local variety – and slaughtered 100,000 souls, or 500,000, or a million; and who cares? They have killed tens of thousands in Afghanistan; and who cares? And as the sickness has spread across the Middle East and then the globe, they – the air force pilots and the insurgents, the Marines and the suicide bombers, the al-Qa'idas of the Maghreb and of the Khalij and of the Caliphate of Iraq and the special forces and the close air support boys and the throat-cutters – have torn the heads off women and children and the old and the sick and the young and healthy, from the Indus to the Mediterranean, from Bali to the London Tube; quite a memorial to the 2,966 innocents who were killed nine years ago. All in their name, it seems, has been our holocaust of fire and blood, enshrined now in the crazed pastor of Gainesville.
This is the loss, of course. But who's made the profit? Well, the arms dealers, naturally, and Boeing and Lockheed Martin and all the missile lads and the drone manufacturers and F-16 spare parts outfits and the ruthless mercenaries who stalk the Muslim lands on our behalf now that we have created 100,000 more enemies for each of the 19 murderers of 9/11. Torturers have had a good time, honing their sadism in America's black prisons – it was appropriate that the US torture centre in Poland should be revealed on this ninth anniversary – as have the men (and women, I fear) who perfect the shackles and water-drowning techniques with which we now fight our wars. And – let us not forget – every religious raver in the world, be they of the Bin Laden variety, the bearded groupies in the Taliban, the suicide executioners, the hook-in the arm preachers, or our very own pastor of Gainesville.
And God? Where does he fit in? An archive of quotations suggests that just about every monster created in or after 9/11 is a follower of this quixotic redeemer. Bin Laden prays to God – "to turn America into a shadow of itself", as he told me in 1997 – and Bush prayed to God and Blair prayed – and prays – to God, and all the Muslim killers and an awful lot of Western soldiers and Dr (honorary) Pastor Terry Jones and his 30 (or it may be 50, since all statistics are hard to come by in the "war on terror") pray to God. And poor old God, of course, has had to listen to these prayers as he always sits through them during our mad wars. Recall the words attributed to him by a poet of another generation: "God this, God that, and God the other thing. 'Good God,' said God, 'I've got my work cut out'." And that was just the First World War...
Just five years ago – on the fourth anniversary of the twin towers/Pentagon/Pennsylvania attacks – a schoolgirl asked me at a lecture in a Belfast church whether the Middle East would benefit from more religion. No – less religion! – I howled back. God is good for contemplation, not for war. But – and here we are driven on to the reefs and hidden rocks which our leaders wish us to ignore, forget and cast aside – this whole bloody mess involves the Middle East; it is about a Muslim people who have kept their faith while those Westerners who dominate them – militarily, economically, culturally, socially – have lost theirs. How can this be, Muslims ask? Indeed, it is a superb irony that the Rev Jones is a believer while the rest of us – by and large – are not. Hence our books and our documentaries never refer to Muslims vs Christians, but Muslims versus "The West".
And of course, the one taboo subject of which we must not speak – Israel's relationship with America, and America's unconditional support for Israel's theft of land from Muslim Arabs – also lies at the heart of this terrible crisis in our lives. In yesterday's edition of The Independent, there was a photograph of Afghan demonstrators chanting "death to America". But in the background, these same demonstrators were carrying a black banner with a message in Dari written upon it in white paint. What it actually said was: "The bloodsucking Zionist government regime and the Western leaders who are indifferent [to suffering] and have no conscience are again celebrating the new year by spilling the red blood of the Palestinians."
The message is as extreme as it is vicious – but it proves, yet again, that the war in which we are engaged is also about Israel and "Palestine". We may prefer to ignore this in "the West" – where Muslims supposedly "hate us for what we are" or "hate our democracy" (see: Bush, Blair and a host of other mendacious politicians) – but this great conflict lies at the heart of the "war on terror". That is why the equally vicious Benjamin Netanyahu reacted to the atrocities of 9/11 by claiming that the event would be good for Israel. Israel would now be able to claim that it, too, was fighting the "war on terror", that Arafat – this was the now-comatose Ariel Sharon's claim – is "our Bin Laden". And thus Israelis had the gall to claim that Sderot, under its cascade of tin-pot missiles from Hamas, was "our ground zero".
It was not. Israel's battle with the Palestinians is a ghastly caricature of our "war on terror", in which we are supposed to support the last colonial project on earth – and accept its thousands of victims – because the twin towers and the Pentagon and United Flight 93 were attacked by 19 Arab murderers nine years ago. There is a supreme irony in the fact that one direct result of 9/11 has been the stream of Western policemen and spooks who have travelled to Israel to improve their "anti-terrorist expertise" with the help of Israeli officers who may – according to the United Nations – be war criminals. It was no surprise to find that the heroes who gunned down poor old Jean Charles de Menezes on the London Tube in 2005 had been receiving "anti-terrorist" advice from the Israelis.
And yes, I know the arguments. We cannot compare the actions of evil terrorists with the courage of our young men and women, defending our lives – and sacrificing theirs – on the front lines of the 'war on terror". There can be no "equivalence". "They" kill innocents because "they" are evil. "We" kill innocents by mistake. But we know we are going to kill innocents – we willingly accept that we are going to kill innocents, that our actions are going to create mass graves of families, of the poor and the weak and the dispossessed.
This is why we created the obscene definition of "collateral damage". For if "collateral" means that these victims are innocent, then "collateral" also means that we are innocent of killing them. It was not our wish to kill them – even if we knew it was inevitable that we would. "Collateral" is our exoneration. This one word is the difference between "them" and "us", between our God-given right to kill and Bin Laden's God-given right to murder. The victims, hidden away as "collateral" corpses, don't count any more because they were slaughtered by us. Maybe it wasn't so painful. Maybe death by drone is a more gentle departure from this earth, evisceration by an AGM-114C Boeing-Lockheed air-to-ground missile less painful, than death by shards from a roadside bomb or a cruel suicider with an explosive belt.
That's why we know how many died on 9/11 – 2,966, although the figure may be higher – and why we don't "do body counts" on those whom we kill. Because they – "our" victims – must have no identities, no innocence, no personality, no cause or belief or feelings; and because we have killed far, far more human beings than Bin Laden and the Taliban and al-Qa'ida.
Anniversaries are newspaper and television events. And they can have an eerie habit of coalescing together to create an unhappy memorial framework. Thus do we commemorate the Battle of Britain – a chivalric episode in our history – and the Blitz, a progenitor of mass murder, to be sure, but a symbol of innocent courage – as we remember the start of a war that has torn our morality apart, turned our politicians into war criminals, our soldiers into killers and our ruthless enemies into heroes of the anti-Western cause. And while on this gloomy anniversary the Rev Jones wanted to burn a book called the Koran, Tony Blair tried to sell a book called A Journey. Jones said the Koran was "evil"; Britons have asked whether the Blair book should be classified as "crime". Certainly, 9/11 has moved into fantasy when the Rev Jones can command the attention of the Obamas and the Clintons and the Holy Father and the even more Holy United Nations. Whom the gods would destroy...»
(sublinhado meu)

sábado, 21 de agosto de 2010

Todos diferentes, todos diferentes - texto de Rodrigo Tavares

Quando nos questionamos sobre o destaque que algumas notícias e eventos têm e outros que se nos apresentam como de importância igual ou superior são omitidos, talvez este texto de Rodrigo Tavares, Todos diferentes, todos diferentes, publicado na passada quinta-feira na Visão, nos ajude a reflectir sobre as causas para que tal aconteça. Só é pena estar escrito num arremedo de português.

Rodrigo Tavares
11:53 Quinta feira, 19 de Ago de 2010

Quem lê diariamente vários jornais internacionais deteta com facilidade que são poucas as variações no texto. As manchetes são iguais no Japão ou na Islândia. Os românticos do jornalismo interventivo e empírico, como Ryszard Kapuscinski, deram lugar às agências internacionais. As notícias deram lugar aos press-releases. A informação que nos chega é muitas vezes granítica, fechada, e unilateral.
Isto tem várias consequências perniciosas. Como são poucos os produtores de notícias, existe uma tendência para dar prioridade aos mesmos assuntos. A agenda é monopolizada pelas mesmas vontades. A notícia de um avião que se despenhe no Botswana terá mais relevância no vizinho Zimbabué do que no Equador. Faz sentido. Mas porque é que um derramamento de petróleo no Golfo do México, nos EUA, tem que algemar as notícias ao longo dos últimos meses, enquanto um derramamento de petróleo no Delta do Níger, na Nigéria, é ignorado? O primeiro durou 4 meses e afetou algumas centenas de pessoas, o segundo, dura silenciosamente há 50 anos e afeta milhões.
Ao mesmo tempo que começamos a sentir um impulso pela nacionalização do outro, pela vontade de extravasarmos o nosso reduto cultural, são as notícias que ditam quem tem valor e quem não tem. Elas são os novos juízes do purgatório. Um africano tem menos valor do que um europeu. Um asiático tem menos valor do que um americano. Enquanto escrevo, as cheias no Paquistão já afetaram 20 milhões de pessoas. É a maior catástrofe do género. Mas a cobertura jornalística é incomparavelmente inferior às cheias em Nova Orleães em 2005.
Talvez o melhor exemplo do desequilíbrio na agenda da imprensa internacional seja o conflito israelo-palestiniano. Basta alguém lançar um cocktail molotov em Telavive para ser destaque a nível mundial. Mas todos os dias morrem centenas de pessoas em outros conflitos sem qualquer cobertura mediática. Como me disse um dia ao almoço, de forma sarcástica, um premiado correspondente de guerra indiano, a única razão porque ainda não há paz no Médio Oriente é porque demasiados jornalistas estão acreditados na região. Telavive é a segunda cidade do mundo com maior número de jornalistas estrangeiros (depois de Washington). E existe uma forte pressão para transformar "eventos" (mesmo que irrelevantes) em "notícias". Nas eleições palestinianas de 2006, testemunhei jornalistas estrangeiros manipulando crianças de forma a industrializar manchetes. Eu não descuro a complexidade do conflito no Médio Oriente. Mas é interessante reparar que esse conflito causa menos vítimas anuais do que os acidentes de viação em Portugal. A narrativa do conflito, alimentada pelas agências de notícias, torna irracional a nossa perceção da realidade.
Os desequilíbrios dos media também afetam a agenda política e humanitária. A disponibilidade de um país em ajudar uma nação atingida por uma catástrofe natural é proporcional à pressão mediática para o fazer. O problema é que as agências de notícias movem-se, muitas vezes, por interesses comerciais. Mas os estados é suposto regerem-se por outro tipo de princípios. É por isso importante estar atento à exceção, ao inoportuno, à alternativa. É aí que reside o novo jornalismo. E a nova política.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Discurso de um soldado americano sobre a guerra no Iraque, para reflexão

Nota: como não possuo a identificação deste soldado, não me foi possível confirmar a informação de que teria aparecido morto dois dias depois destas declarações e cuja autópsia revelou ter sido devido a ataque cardíaco.
Adenda: é com grande satisfação que hoje, 1 de Outubro de 2010, posso afirmar que este soldado, de nome Michael Prysner, está vivo e de saúde e, pesquisando, encontrei uma organização que fundou, com o nome March Forward  

terça-feira, 16 de março de 2010

Afinal foi o PSD que fez a asneira de ter copiado os Estatutos do PS !

.
Sobre o Congresso do PSD do passado fim-de-semana, o que mais foi destacado até agora foi a birra de Pedro Santana Lopes na véspera do mesmo, em que já não sabia se ia estar presente ou não porque queriam reduzir os trabalhos do Congresso a um só dia e não aos dois dias que estavam previstos, e ele, que tinha sido o motor da sua realização ao recolher as assinaturas necessárias para o mesmo, não se conformava e fez beicinho, admitindo não ir, porque um dia não dava para tratar de todos os assuntos, uma vez que além da apresentação dos 4 candidatos a Presidente do Partido havia também a aprovação de alterações aos Estatutos. E é aqui que Santana Lopes é de novo notícia porque foi dele a ideia de proibir e sancionar, em última análise com a expulsão do Partido, quem manifestasse opiniões contrárias às do líder no período de 60 dias antes de um acto eleitoral. Por isso, pouco se tem analisado o que de substancial se passou no Congresso porque quer na véspera do início dos trabalhos quer no encerramento, só houve um protagonista, que não perde nenhuma oportunidade que se fale dele para o melhor e para o pior.
A questão da liberdade de expressão dos militantes do PSD e as respectivas sanções no período referido levou, entretanto, o PS a dizer que ia apresentar o assunto para debate na Assembleia da República com o argumento de que é inconstitucional além de um atentado à liberdade de expressão.
Ouvi há pouco, no noticiário das 19.00 h da Antena 1, o Prof. Jorge Miranda dizer que, de facto, era inconstitucional e o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa dizer que não era inconstitucional, mas que tais limitações não faziam sentido e tinham que ser revogadas, acrescentando ainda que a asneira do PSD foi ter copiado isso dos Estatutos do PS.
Então, em que ficamos? Se constam dos Estatutos do PS, com que cara é que este vai debater o assunto na Assembleia da República (uma vez que já vimos como ficaram indignados por aquelas regras terem sido adoptadas pelo PSD)?
Alguém não está a dizer a verdade toda e eu não tenho os Estatutos dos Partidos à mão para desfazer as dúvidas.
Há quem diga que temos o que merecemos, mas não me conformo com isso. Merecemos melhor, muito melhor.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O Povo Violeta

.
No passado Sábado, dia 13, os italianos vieram para a rua, mais concretamente para a Praça do Povo no centro de Roma, por se lhes ter acabado a paciência com os tiques do Primeiro-Ministro Sílvio Berlusconi, quer no que diz respeito às suas demonstrações constantes de falta de educação, que os envergonham, quer às suas tendências autoritárias e de pouco respeito pelas leis que não lhe convêm quando, recentemente, estas impediram o seu Partido de apresentar listas de candidatura fora do prazo estipulado.
Não há dúvida que os italianos parecem ter uma paciência infinita, mas também é verdade que já o elegeram várias vezes e que tem sido o único a permanecer no cargo por períodos superiores a três ou seis meses que é o tempo que costumam durar os governos italianos há décadas.
Desta demonstração do Povo Violeta, cor que escolheram por esta significar, segundo disseram, "a recuperação da consciência", espera-se não só que não percam de novo a consciência agora recuperada mas que a usem bem em próximos actos eleitorais. Mas talvez aí o problema seja de memória.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Já terminou a semana da parvoíce?

«(…) O momento parece propício não apenas para um exame de consciência nacional que raras vezes tivemos ocasião de fazer, mas para um reajustamento, tanto quanto possível realista, do nosso ser real à visão do nosso ser ideal. Nenhum povo, e mais a mais um povo de tantos séculos de vida comum e tão prodigioso destino, pode viver sem uma imagem ideal de si mesmo. Mas nós temos vivido sobretudo em função de uma imagem irrealista, o que não é a mesma coisa. Sempre, no nosso horizonte de portugueses, se perfilou como solução desesperada para obstáculos inexpugnáveis a fuga para céus mais propícios. Chegou a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarmos dentro dela, de construir com constância o país habitável de todos, sem esperar de um eterno lá-fora ou lá-longe a solução que como no apólogo célebre está enterrada no nosso exíguo quintal.

Não estamos sós no mundo, nunca o estivemos. As nossas possibilidades económicas são modestas, como modesto é o nosso lugar no concerto dos povos. Mas ninguém pode viver por nós a dificuldade e o esforço de uma promoção colectiva do máximo daquilo que adentro dessa modéstia somos capazes. Essa promoção passa por uma conversão cultural de fundo susceptível de nos dotar de um olhar crítico sobre o que somos e fazemos, sem por isso destruir a confiança nas nossas naturais capacidades de criação autonomizada, dialogante como tem sido sempre, mas não sob a forma de uma adaptação mimética, oportunista, das criações alheias e da sua vigência de luxo entre nós enquanto os problemas de base do País não recebem um começo de solução. (…)

(…) Em compensação refinámos no gosto da glosa jurídica, da astúcia formal, da conciliação do inconciliável quando o mais empírico interesse pessoal ou social está em jogo, sem jamais pôr em questão o sistema que sob conteúdos diferentes em cada época, mesmo das que aparecem sob a exigência da libertação e ruptura com a mentira social e intelectual institucionalizadas, se reconstitui e de novo se fecha sobre si mesmo. (…)»


de O Labirinto da Saudade, Psicanálise Mítica do Destino Português, Eduardo Lourenço, Círculo de Leitores, 1988, excertos das pp 45, 46, 48.


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Vencer os desafios, tema do programa Prós e Contras

Como não tive possibilidade de ver todo o programa Prós e Contras de ontem na RTP, mas o que vi da última parte, designadamente as intervenções de José Tribolet, levaram-me a ver os vídeos respectivos que se encontram AQUI.
É certo que o meu desinteresse pelo programa vinha do período anterior às férias de Natal e Ano Novo, talvez porque alguns debates não conduziam a nada de prático e exequível e rapidamente se transformavam numa "cacofonia" sem respeito pelos telespectadores, contrariamente ao de ontem, que foi excelente nas intervenções e nas propostas e em civilidade.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Lembrar para não repetir

No dia 25 de Dezembro de 1989 foram executados Elena e Nicolae Ceausescu, depois deste ter governado ditatorialmente a Roménia durante vinte e cinco anos, de forma repressiva e sanguinária.
O seu julgamento fez-se através de um processo sumário que durou menos de uma hora antes da execução, e, passados vinte anos, na minha memória essas imagens parecem de ontem.
Só posso esperar que os Romenos já tenham aprendido como funciona um Estado de Direito com a sua entrada na União Europeia, mesmo no que respeita a ditadores e a criminosos da pior espécie.

sábado, 28 de novembro de 2009

Aristóteles - Moderação e Equidade

«Depois do que precede, talvez convenha tratar da moderação e dizer o que é, em que casos se manifesta e a que se aplica. A moderação é uma qualidade do homem que exige menos do que o que poderiam oferecer-lhe os seus direitos fundados na lei. Há muitas coisas, em relação às quais o legislador é impotente para determinar casos particulares, abordando-as apenas de uma maneira geral. Prescindir do seu direito neste género de coisas e não pedir mais do que aquilo que o legislador pretendera, mas que não pode precisar em todos os casos particulares apesar do seu desejo, é fazer um acto de moderação. Mas o homem moderado não reduz indistintamente todos os seus direitos; assim como não reduz em nada dos que deve à natureza, e que são verdadeiramente direitos; apenas reduz os seus direitos legais, aqueles que o legislador, devido à sua impotência, deixou por especificar.

A equidade, que assegura a rectidão do juízo, aplica-se aos mesmos casos que a moderação, quer dizer, aos direitos não especificados pelo legislador, que não conseguiu determiná-los com precisão. O homem equitativo julga sobre os vazios deixados pela legislação e, reconhecendo estes vazios, insiste em que o direito que reclama tem fundamento. O discernimento é, pois, o que constitui o homem equitativo. E, assim, a equidade, que distingue exactamente as coisas, não pode existir sem a moderação; porque ao homem equitativo e de bom senso corresponde julgar os casos, e ao homem moderado agir de acordo com o juízo formado desta maneira.»
in La Gran Moral, Livro Segundo, Capítulos I e II, Espasa-Calpe, 6.ª ed., Madrid, 1976
(tradução minha)