quinta-feira, 17 de abril de 2014
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Fernando Pessoa/ Bernardo Soares, Há dois dias que chove...
Há
dois dias que chove e que cai do céu cinzento e frio uma certa chuva, da cor
que tem, que aflige a alma. Há dois dias... Estou triste de sentir, e
reflicto-o à janela ao som da água que pinga e da chuva que cai. Tenho o
coração opresso e as recordações transformadas em angústias.
Sem
sono, nem razão para o ter, há em mim uma grande vontade de dormir. Outrora,
quando eu era criança e feliz, vivia numa casa do pátio ao lado a voz de um
papagaio verde a cores. Nunca, nos dias de chuva, se lhe entristecia o dizer, e
clamava, sem dúvida do abrigo, um qualquer sentimento constante, que pairava na
tristeza como um gramofone antecipado.
Pensei
neste papagaio porque estou triste, e a infância longínqua o lembra? Não,
pensei nele realmente, porque do pátio fronteiro de agora, uma voz de papagaio
grita arrevesadamente.
Tudo
se me confunde. Quando julgo que recordo, é outra coisa que penso; se vejo,
ignoro, e quando me distraio, nitidamente vejo.
Viro
as costas à janela cinzenta, de vidros frios às mãos que lhes tocam. E levo
comigo, por um sortilégio da penumbra, de repente, o interior da casa antiga,
fora da qual, no pátio ao lado, o papagaio gritava; e os meus olhos
adormecem-se-me de toda a irreparabilidade de ter efectivamente vivido.
in
Livro do Desassossego
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
A pedido das Escolas iPad, ou "Steve Jobs", da Holanda
Depois de, a 6 de Julho p.p., ter publicado aqui um artigo
sobre as Escolas iPad na Holanda, tenho recebido correio assinado pelo Sr.
Maurice de Hond, o mentor deste projecto, que achou por bem informar-me do
desenrolar das actividades dos pais e alunos até à abertura das referidas
escolas, que se verificou a 21 de Agosto p.p. (e não a 13 de Agosto, como
constava do artigo mencionado).
Informou-me também que tinham elaborado um extenso e
pormenorizado comunicado de imprensa sobre o funcionamento das escolas “Steve
Jobs”, que me enviou, em neerlandês, inglês, castelhano e chinês (a mim
coube-me a versão castelhana, o que é compreensível), tendo-me solicitado que
desse conta aqui no blogue do endereço onde podem ser vistos cinco vídeos
(vimeo) sobre as actividades das crianças e das escolas, e que é este: www.educationforanewera.com/es
(também a versão castelhana, claro).
Satisfeito o pedido, não deixo, todavia, de reafirmar a
apreensão que manifestei na introdução à publicação de 6 de Julho.
© Maria
Paias
terça-feira, 20 de agosto de 2013
segunda-feira, 22 de julho de 2013
A alucinação já passou
Mais uma vez, o povo suicidário (nós, segundo Unamuno) foi
impedido de tal acto porque a “mãe” (a razão) guardou e trancou muito bem os
venenos. Mas alguns suicidários estão furiosos porque só se sentem bem no mundo
da fantasia, dada a sua incapacidade para lidarem com as dificuldades do mundo
real. É certo que o Presidente da República (PR) atravessou uma fase de
alucinação ao ver uma impossibilidade, e que era a concretização de um
compromisso de médio prazo entre o PS, o PSD e o CDS-PP, de modo a salvaguardar
a estabilidade no país e para garantir que os compromissos decorrentes da
assistência financeira da troika seriam cumpridos, mesmo depois da data
prevista para a conclusão do resgate, Junho de 2014. Mas o PR esqueceu-se, também,
de que não vive num país civilizado, como aqueles a que se referiu na
comunicação de 21 de Julho e que, salvo erro, se encontram no centro e norte da
Europa. Aqui, no sul da Europa, creio que muitos políticos mais facilmente
dariam a vida pelos partidos do que pelos seus países, embora não se coíbam de
afirmar que são grandes patriotas.
Recuperado da alucinação e recuperado o bom-senso que a
razão comanda, e tiradas as ilações da sua tentativa infeliz, o PR decidiu-se
pelo interesse do país, neste momento difícil, e isso é o que lhe compete. De
resto, espero que seja mais paciente do que eu para as gritarias e demagogias.
© Maria Paias
Etiquetas:
Cavaco Silva,
CDS-PP,
crise financeira,
dívida externa,
economia; política,
estabilidade política,
Governo,
Miguel de Unamuno,
partidos,
PS,
PSD,
UE
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Na parvónia, nada de novo
Mas o que é que o Presidente da República (PR) não entende
da cassete do secretário-geral do Partido Socialista (PS) [se ouvir as cassetes
do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista também serve, porque o conteúdo é
parecido]? O homem não se cansa de dizer que quer eleições antecipadas já,
pouco se importando com a situação catastrófica em que o país se encontra, nem
com o facto de estarmos sob assistência financeira, cujo memorando o governo do seu
partido negociou e assinou com a troika em 2011. E é uma pessoa com esta
atitude que o PR quer agora trazer para um diálogo alargado com os outros
partidos que também se comprometeram com o conteúdo do memorando, o Partido
Social-Democrata (PSD) e o Centro Democrático e Social - Partido Popular (CDS-PP),
que actualmente formam a coligação que governa o país, e que, pelo menos, tem
cumprido esse mesmo memorando, ultrapassadas que estão sete avaliações, com os
correspondentes ajustamentos ao memorando inicial. E não era esse o principal
desiderato de qualquer governo? Ou, então, desconhecerá o PR a lógica interna
dos partidos políticos que temos, e pensa que pode facilmente demover António
José Seguro dos seus discursos demagógicos? Claro que não. A comunicação ao
país do PR, a 10 de Julho, foi mais uma amostra da idiossincrasia do povo
português, onde se denota o apego à pequenez, à vingançazinha, ao “cá se fazem,
cá se pagam”, à mesquinhez.
Não me é tão desgastante lidar com os estados de alma de
Paulo Portas, de que há muito conheço os sinais, nem com o seu carácter. Escrevi
aqui, a 2 de Junho de 2011 – “Paulinho, afinal o que é que o menino quer?” e, já sei, que ele quer sempre tudo. Mas o que
verdadeiramente me cansa são os que não sabem o que querem, ou aqueles para os
quais “quanto pior, melhor”. Dos superiores interesses do país não sabem, nem
querem saber.
© Maria
Paias
Etiquetas:
António José Seguro,
Cavaco Silva,
CDS-PP,
crise financeira,
dívida externa,
economia; política,
Governo,
Memorandos,
partidos,
Paulo Portas,
Pedro Passos Coelho,
PS,
PSD
sábado, 6 de julho de 2013
Escolas iPad na Holanda, uma reforma radical
Depois de ler este artigo fiquei a reflectir, tentando antever que tipo
de cidadãos terá a Holanda daqui a dez ou quinze anos, se a maioria das
crianças e jovens acederem a este modelo de “ensino”. Se hoje já se distanciam
tanto dos problemas que afectam os seus parceiros da União Europeia mais dados
a festas e romarias (de preferência, à borla), não será de admirar que, no
futuro, e por este caminho, se sintam mais confortáveis a lidar com robôs do
que com seres humanos. Mas como posso não estar a entender bem o alcance e as
repercussões desta “reforma”, traduzi o artigo e publico-o aqui quase na
totalidade, pois pode haver alguém que me indique o que tem de virtuoso.
«Muitas
escolas usam iPads. Mas, e se toda a experiência educativa fosse oferecida via
tablet? Isso é o que algumas novas escolas na Holanda estão a planear fazer.
Não haverá o quadro negro nem programas escolares. Será o fim da sala de aula?
Pensem
diferente. Isto foi mais do que um anúncio publicitário. Foi um manifesto e,
com isso, o ex-presidente da Apple, Steve Jobs, revolucionou a indústria dos
computadores, da música e o mundo dos telemóveis. O plano seguinte do
visionário do digital era introduzir mudanças radicais nas escolas e nas
editoras de manuais escolares, mas morreu de cancro antes de o conseguir
executar.
Algumas das ideias que talvez tenham ocorrido a Jobs, estão
agora a ser concretizadas na Holanda. Onze “Escolas Steve Jobs” abrirão em
Agosto, estando Amesterdão entre as cidades que acolherão esse tipo de escola.
Cerca de mil crianças, com idades entre os 4 e os 12 anos, irão a essas
escolas, sem cadernos, livros ou mochilas. Cada uma delas, contudo, terá o seu
próprio iPad.
Não
haverá quadros, giz ou salas de aula, salas de professores, aulas formais,
planos de aulas, carteiras, canetas, professores a ensinar à frente da turma,
horários, reuniões de pais com os professores, notas, toques para intervalo,
nem dias de escola e de férias previamente estabelecidos. Se uma criança
preferir jogar no seu iPad em vez de aprender, não haverá problema. E as
crianças escolherão o que desejam aprender com base no que lhes desperta
curiosidade.
As
adaptações já estão a ser feitas em Breda, uma cidade perto de Roterdão, onde
uma das escolas ficará instalada. Gertjan Kleinpaste, o reitor de 53 anos de
idade, está consciente de que a sua escola iPad na Schorsmolenstraat poderá
tornar-se, em breve, destino para invejosos – e também para indignados –
reformistas da educação de todas as partes do mundo. (…)
O
ano passado, ele era o reitor de uma escola que tinha três computadores, o que
achava frustrante. “Já não estava a acompanhar os tempos”, diz ele. Em breve
(13 de Agosto de 2013), Kleinpaste será um membro da era digital avançada. E
está convencido de que “o que estão a fazer parecerá normalíssimo em 2020”.
As
escolas Steve Jobs estarão abertas entre as 7:30 e as 18:30 de segunda a
sexta-feira. As crianças entrarão e sairão quando quiserem, desde que estejam
presentes no período principal, entre as 10:30 e as 15:00. As escolas
encerrarão apenas pelo Natal e Ano Novo. As famílias das crianças poderão ir de
férias quando lhes aprouver, e nenhuma criança terá de ficar preocupada se
faltar às aulas por causa disso, uma vez que já não existirão aulas no sentido
tradicional.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Ordem dos Professores
Nestas coisas dos “think tanks” para a reforma estrutural do
Estado vem-nos à cabeça cada ideia para um determinado sector público, que, ao
vermos a cara de espanto dos que nos rodeiam, ficamos na dúvida se nos saiu um
disparate completo ou algo em que ninguém tinha pensado e que, porventura, seja
uma ideia a considerar e a aprofundar.
A propósito da ainda excessiva concentração no Ministério da
Educação das decisões que respeitam a todos os níveis de ensino, e que fazem
dele aquele “monstro”, embora paulatinamente se tenha vindo a dar autonomia às
escolas para a resolução de alguns problemas, e foi nesse sentido que entendi a
afirmação de Nuno Crato de que seria necessário “implodi-lo”, fica aqui uma
sugestão que poderá contribuir para o emagrecimento do “monstro”. Das muitas
associações de professores, há uma que engloba os que são favoráveis à criação
de uma Ordem dos Professores, não sei se é apenas porque acham chique a
designação, ou se estão a pensar numa Ordem profissional a sério com tudo o que
ela implica, tal como as Ordens dos Advogados, dos Médicos, dos Engenheiros,
etc., que têm também como função acreditar os respectivos cursos, sem a qual
não se pode exercer a profissão que cada qual representa, além da obediência
aos estatutos internos. À partida, estas Ordens são maioritariamente
representativas de profissionais liberais e não de funcionários públicos, como
é o caso actual dos professores. Ora, se fosse constituída uma Ordem dos
Professores com a mesma finalidade das que referi, e simultaneamente fosse dada
muito mais autonomia às escolas, o Ministério da Educação poderia dedicar-se às
outras funções que já tem e desempenhá-las muito melhor, enquanto a educação
ficaria exclusivamente a cargo de profissionais inscritos na Ordem respectiva.
Também ficaram com cara de espanto, ou estão a fazer contas
ao número de funcionários públicos que deixariam de ter esse estatuto sem
deixarem de exercer a sua profissão? Os professores/funcionários que querem a
sua Ordem, calculo que não estivessem a pensar em nada disto, pois já estou a
ouvir muito ranger de dentes. Mas, quando se defende uma ideia, há que analisar
todas as suas implicações.
© Maria Paias
quinta-feira, 13 de junho de 2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
terça-feira, 19 de março de 2013
Chipre não é uma ilha encantada
Como a minha análise sobre o modo como a União Europeia e,
dentro desta, o Eurogrupo, aceitou resgatar Chipre, difere do que tenho ouvido
e lido, aqui vai o que penso da situação.
Como é sabido, Chipre é uma ilha dividida ao meio, em que
uma parte foi ocupada pela Turquia (cipriotas turcos), e essa metade da ilha
não pertence à União Europeia (UE), embora a própria Turquia queira, desde há
muito, fazer parte do clube, e a outra metade é habitada maioritariamente por
gregos (cipriotas gregos), e é esta parte que, em 2008, foi admitida no clube
europeu e na zona euro, ou seja, com o pacote completo. Tratando-se de um dos
muitos “paraísos fiscais” que existem por esse mundo, muitos cidadãos e
empresas de outros países, residentes ou não na “meia-ilha”, como russos,
ingleses, gregos da Grécia, alemães, etc., têm utilizado os seus bancos para
beneficiarem da fiscalidade bem mais suave do que a que vigora nos respectivos
países, e os seus pouco mais de 800.000 habitantes dedicam-se essencialmente
aos serviços e ao turismo, além de guardarem o dinheiro alheio que, com tantos
benefícios fiscais, pouco contribui para a sustentabilidade do país em termos
financeiros e, daí, prever-se que, se nada for feito, entrar em bancarrota já
em Maio.
Por outro lado, há alguns anos, Chipre já tinha contraído um
empréstimo junto da Rússia, com quem agora tem estado a negociar para que o
mesmo seja dilatado no tempo e com melhores condições, e foi, aliás, toda esta
situação de dependência face à Rússia que fez com que a UE demorasse muitos
meses a analisar a situação cipriota, cujo pedido de resgate apresentado orçava
os 17 mil milhões de euros, tendo a UE, ou melhor, os países mais ricos da zona
euro, aceitado emprestar 10 mil milhões, através do novo mecanismo de
estabilização financeira, e que, como sabemos, esse empréstimo, nos países mais
civilizados, está sujeito à aprovação dos respectivos parlamentos, uma vez que
é do dinheiro dos respectivos cidadãos contribuintes que se trata. E então o
resto do dinheiro que a “meia-ilha” parece necessitar? Pode muito bem ter
passado pela cabeça dos ministros das finanças na última reunião do Eurogrupo,
e tratando-se de um “paraíso fiscal”, que estaria na hora dos que ao longo dos
anos beneficiaram fiscalmente das condições que lhes foram dadas, de
contribuírem também para evitarem a morte da galinha dos ovos de ouro.
É claro que estas decisões “criativas” causam de imediato
algum pânico, principalmente nos cipriotas gregos, cidadãos comuns, sem
fortuna, e a quem a regra adoptada pela UE, também em 2008, de que qualquer
cidadão teria os seus depósitos bancários garantidos até ao valor de cem mil
euros parecia não se aplicar, dadas as percentagens progressivas a reter sobre
os depósitos, anunciadas pelo Presidente cipriota. Quanto a isto, a ver vamos
se as regras da UE também podem ser letra morta.
Não querendo ser agoirenta, e mesmo que este empréstimo
venha a ser aprovado pelo parlamento alemão, não me parece que a “meia-ilha”
consiga sair desta, tanto mais que a acumular com este tem também a dívida à
Rússia.
Do que me questiono, em última análise, e vou sempre bater
na mesma tecla, é se vale a pena, em nome de interesses geoestratégicos, que
neste caso incluem a Rússia e a Turquia ocupante, admitir um país nesta
situação, que não representa mais do que 0,2% no conjunto da UE, mas que na sua
infinita pequenez pode desestabilizar ainda mais todo um continente que ainda
não encontrou o rumo certo.
terça-feira, 5 de março de 2013
Para os desmemoriados
«Em
Agosto de 1983, o Governo do Bloco Central PS-PSD, assinou um memorando de
entendimento com o Fundo Monetário Internacional. Os impostos subiram, os
preços dispararam, a moeda desvalorizou, o crédito acabou, o desemprego e os
salários em atraso tornaram-se numa chaga social e havia bolsas de fome por
todo o país. O primeiro-ministro era Mário Soares. Veja como o homem que hoje
quer rasgar o acordo com a troika defendia os sacrifícios pedidos aos
portugueses.
“Os problemas económicos em Portugal são fáceis de explicar e a única coisa a fazer é apertar o cinto”. DN, 27 de Maio de 1984
“Não se fazem omeletas sem ovos. Evidentemente teremos de partir alguns”. DN, 01 de Maio de 1984
“Quem vê, do estrangeiro, este esforço e a coragem com que estamos a aplicar as medidas impopulares aprecia e louva o esforço feito por este governo.” JN, 28 de Abril de 1984
“Quando nos reunimos com os macroeconomistas, todos reconhecem com gradações subtis ou simples nuances que a política que está a ser seguida é a necessária para Portugal”. Idem
“Fomos obrigados a fazer, sem contemplações, o diagnóstico dos nossos males colectivos e a indicar a terapêutica possível”. RTP, 1 de Junho de 1984. Idem, ibidem
“A terapêutica de choque não é diferente, aliás, da que estão a aplicar outros países da Europa bem mais ricos do que nós”. RTP, 1 de Junho de 1984
“Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos”. Idem
“O importante é saber se invertemos ou não a corrida para o abismo em que nos instalámos irresponsavelmente”. Idem, ibidem
“[O desemprego e os salário em atraso], isso é uma questão das empresas e não do Estado. Isso é uma questão que faz parte do livre jogo das empresas e dos trabalhadores (...). O Estado só deve garantir o subsídio de desemprego”. JN, 28 de Abril de 1984
“O que sucede é que uma empresa quando entra em falência... deve pura e simplesmente falir. (...) Só uma concepção estatal e colectivista da sociedade é que atribui ao Estado essa responsabilidade". Idem
“Anunciámos medidas de rigor e dissemos em que consistia a política de austeridade, dura mas necessária, para readquirirmos o controlo da situação financeira, reduzirmos os défices e nos pormos ao abrigo de humilhantes dependências exteriores, sem que o pais caminharia, necessariamente para a bancarrota e o desastre”. RTP, 1 de Junho de 1984
“Pedi que com imaginação e capacidade criadora o Ministério das Finanças criasse um novo tipo de receitas, daí surgiram estes novos impostos”. 1ª Página, 6 de Dezembro de 1983
“Posso garantir que não irá faltar aos portugueses nem trabalho nem salários”. DN, 19 de Fevereiro de 1984
“A CGTP concentra-se em reivindicações políticas com menosprezo dos interesses dos trabalhadores que pretende representar”. RTP, 1 de Junho de1984
“A imprensa portuguesa ainda não se habituou suficientemente à democracia e é completamente irresponsável. Ela dá uma imagem completamente falsa”. Der Spiegel, 21 de Abril de 1984
“Basta circular pelo País e atentar nas inscrições nas paredes. Uma verdadeira agressão quotidiana que é intolerável que não seja punida na lei. Sê-lo-á”. RTP, 31 de Maio de 1984
“A Associação 25 de Abril é qualquer coisa que não devia ser permitida a militares em serviço”. La Republica, 28 de Abril de 1984
“As finanças públicas são como uma manta que, puxada para a cabeça deixa os pés de fora e, puxada para os pés deixa a cabeça descoberta”. Correio da Manhã, 29 de Outubro de 1984
“Não foi, de facto, com alegria no coração que aceitei ser primeiro-ministro. Não é agradável para a imagem de um político sê-lo nas condições actuais”. JN, 28 de Abril de 1984
“Temos pronta a Lei das Rendas, já depois de submetida a discussão pública, devidamente corrigida”. RTP, 1 de Junho de 1984
“Dentro de seis meses o país vai considerar-me um herói”. 6 de Junho de 1984»
“Os problemas económicos em Portugal são fáceis de explicar e a única coisa a fazer é apertar o cinto”. DN, 27 de Maio de 1984
“Não se fazem omeletas sem ovos. Evidentemente teremos de partir alguns”. DN, 01 de Maio de 1984
“Quem vê, do estrangeiro, este esforço e a coragem com que estamos a aplicar as medidas impopulares aprecia e louva o esforço feito por este governo.” JN, 28 de Abril de 1984
“Quando nos reunimos com os macroeconomistas, todos reconhecem com gradações subtis ou simples nuances que a política que está a ser seguida é a necessária para Portugal”. Idem
“Fomos obrigados a fazer, sem contemplações, o diagnóstico dos nossos males colectivos e a indicar a terapêutica possível”. RTP, 1 de Junho de 1984. Idem, ibidem
“A terapêutica de choque não é diferente, aliás, da que estão a aplicar outros países da Europa bem mais ricos do que nós”. RTP, 1 de Junho de 1984
“Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos”. Idem
“O importante é saber se invertemos ou não a corrida para o abismo em que nos instalámos irresponsavelmente”. Idem, ibidem
“[O desemprego e os salário em atraso], isso é uma questão das empresas e não do Estado. Isso é uma questão que faz parte do livre jogo das empresas e dos trabalhadores (...). O Estado só deve garantir o subsídio de desemprego”. JN, 28 de Abril de 1984
“O que sucede é que uma empresa quando entra em falência... deve pura e simplesmente falir. (...) Só uma concepção estatal e colectivista da sociedade é que atribui ao Estado essa responsabilidade". Idem
“Anunciámos medidas de rigor e dissemos em que consistia a política de austeridade, dura mas necessária, para readquirirmos o controlo da situação financeira, reduzirmos os défices e nos pormos ao abrigo de humilhantes dependências exteriores, sem que o pais caminharia, necessariamente para a bancarrota e o desastre”. RTP, 1 de Junho de 1984
“Pedi que com imaginação e capacidade criadora o Ministério das Finanças criasse um novo tipo de receitas, daí surgiram estes novos impostos”. 1ª Página, 6 de Dezembro de 1983
“Posso garantir que não irá faltar aos portugueses nem trabalho nem salários”. DN, 19 de Fevereiro de 1984
“A CGTP concentra-se em reivindicações políticas com menosprezo dos interesses dos trabalhadores que pretende representar”. RTP, 1 de Junho de1984
“A imprensa portuguesa ainda não se habituou suficientemente à democracia e é completamente irresponsável. Ela dá uma imagem completamente falsa”. Der Spiegel, 21 de Abril de 1984
“Basta circular pelo País e atentar nas inscrições nas paredes. Uma verdadeira agressão quotidiana que é intolerável que não seja punida na lei. Sê-lo-á”. RTP, 31 de Maio de 1984
“A Associação 25 de Abril é qualquer coisa que não devia ser permitida a militares em serviço”. La Republica, 28 de Abril de 1984
“As finanças públicas são como uma manta que, puxada para a cabeça deixa os pés de fora e, puxada para os pés deixa a cabeça descoberta”. Correio da Manhã, 29 de Outubro de 1984
“Não foi, de facto, com alegria no coração que aceitei ser primeiro-ministro. Não é agradável para a imagem de um político sê-lo nas condições actuais”. JN, 28 de Abril de 1984
“Temos pronta a Lei das Rendas, já depois de submetida a discussão pública, devidamente corrigida”. RTP, 1 de Junho de 1984
“Dentro de seis meses o país vai considerar-me um herói”. 6 de Junho de 1984»
Transcrevi
daqui.
sexta-feira, 1 de março de 2013
Olá, Consciência!
No próximo dia 12 de
Março, terça-feira, pelas 19:00 h,
terá lugar no Auditório do Alto dos Moinhos, Rua João de Freitas Branco, em
Lisboa, o lançamento do livro Olá,
Consciência! – Uma viagem pela filosofia, da autoria de Mendo Henriques e
de Nazaré Barros e cuja apresentação estará a cargo de José Tolentino Mendonça.
Como, naturalmente, ainda não tive acesso ao seu conteúdo, transcrevo um texto
que acompanha o pequeno vídeo de apresentação da obra e que poderão ver mais
abaixo.
«Olá, Consciência! é um convite a uma viagem apaixonante
pelo mundo da filosofia. De leitura viva e acessível, com uma apresentação
inovadora que conjuga rigor e linguagem atraente, esta obra de introdução à
filosofia distingue-se das demais porque parte das experiências quotidianas
para explicar conceitos filosóficos e mostrar como a vida faz mais sentido se
for vista à luz da filosofia.
Mendo Henriques e Nazaré Barros trazem de novo a filosofia à praça pública - onde ela nasceu - e introduzem os leitores no mundo da consciência como chave de compreensão do que nos rodeia, na ciência e na política, na arte e na religião, na economia e na metafísica, na comunicação e na ética. Olá Consciência! destina-se a todos os que não se conformam com a norma instituída, com o politicamente correcto, com a superficialidade e o comodismo do pensamento único. Porque a filosofia é de todos os que ousam pensar por si próprios.
Este livro é um espaço para reflectir, como quem passeia num jardim, sem pressas nem compromissos. Ou, para os mais apressados, um mapa de metro, em que o leitor pode escolher a linha que quer seguir. Num caso como noutro, o destino da viagem é uma existência mais consciente e necessariamente mais rica.
No site www.olaconsciencia.com encontrará informações complementares nesta viagem pela filosofia, editada em Portugal e no Brasil.
Boa viagem!»
Mendo Henriques e Nazaré Barros trazem de novo a filosofia à praça pública - onde ela nasceu - e introduzem os leitores no mundo da consciência como chave de compreensão do que nos rodeia, na ciência e na política, na arte e na religião, na economia e na metafísica, na comunicação e na ética. Olá Consciência! destina-se a todos os que não se conformam com a norma instituída, com o politicamente correcto, com a superficialidade e o comodismo do pensamento único. Porque a filosofia é de todos os que ousam pensar por si próprios.
Este livro é um espaço para reflectir, como quem passeia num jardim, sem pressas nem compromissos. Ou, para os mais apressados, um mapa de metro, em que o leitor pode escolher a linha que quer seguir. Num caso como noutro, o destino da viagem é uma existência mais consciente e necessariamente mais rica.
No site www.olaconsciencia.com encontrará informações complementares nesta viagem pela filosofia, editada em Portugal e no Brasil.
Boa viagem!»
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Colóquio Lonergan, Perspectivas actuais da Filosofia Aplicada
O CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Faculdade de
Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, no âmbito da linha de
investigação em Filosofia Política e Ética promove, no próximo dia 5 de Fevereiro,
terça-feira, em Lisboa, o Colóquio Lonergan 2013, sobre Perspectivas Actuais da
Filosofia Aplicada, que decorrerá no Edifício da Biblioteca João Paulo II, 2.º
piso, sala de exposições, a partir das 9:15h. Entrada livre.
Para debater estas perspectivas, o Colóquio reúne especialistas de diferentes áreas e escolas. Além de docentes e investigadores das Universidades de Évora, Coimbra, Nova de Lisboa e Católica, estarão também presentes organizações como a Associação Portuguesa para o Aconselhamento Ético e Filosófico, o Consultório do Eu, além de pedagogos e psicoterapeutas.
Para debater estas perspectivas, o Colóquio reúne especialistas de diferentes áreas e escolas. Além de docentes e investigadores das Universidades de Évora, Coimbra, Nova de Lisboa e Católica, estarão também presentes organizações como a Associação Portuguesa para o Aconselhamento Ético e Filosófico, o Consultório do Eu, além de pedagogos e psicoterapeutas.
Se o programa não estiver totalmente legível no documento em
baixo, pode ser consultado e guardado a partir desta página do CEFi
sábado, 12 de janeiro de 2013
O relatório - diagnóstico do FMI
Concluída a leitura do relatório do FMI, noto que nada do
que consta do seu diagnóstico me é desconhecido, e, se assim é, menos o será
para os que, ao longo dos anos, foram os responsáveis pela criação de todas
aquelas situações de desigualdade dentro da própria função pública
“permanente”, ou em “exercício de funções públicas”, pelo que me é
incompreensível a algazarra sobre o texto que nada mais faz do que explicitar
em letra de forma o que muitos sabemos. A única falha que lhe encontro é o não
ter sido mais abrangente, uma vez que se debruça apenas sobre alguns dos
serviços prestados pelo Estado, deixando de fora muitos outros que, a meu ver,
são mais perniciosos no que se refere a gastos dos dinheiros públicos, diga-se
dos contribuintes, e cuja existência/necessidade é muito discutível.
Quanto às sugestões que o FMI deixa para superar muitas das
incongruências diagnosticadas, algumas são interessantes, se bem que só
possíveis, infelizmente, com o decorrer dos anos, e outras são evidentes, como
a da insustentabilidade da multiplicidade de sistemas e subsistemas de saúde,
de excepções e mais excepções, parecendo que cada trabalhador é titular de uma
excepção qualquer no decorrer da sua vida de trabalho, e, isso sim, contribuiu
para a construção deste “novelo” difícil de desenredar, e, quanto a mim, nada
constitucional, pois põe a nu a desigualdade de tratamento entre trabalhadores da
própria função pública, já para não falar das desigualdades entre estes e os do
sector privado. Por acaso as leis que lhes dão suporte foram consideradas
inconstitucionais? É evidente que não foram. E agora que se pretende minimizar
as desigualdades entre trabalhadores do sector público e do privado, porque em
ambos trabalham cidadãos do mesmo país, e a que o Tribunal Constitucional
esteve tão atento no Orçamento do Estado de 2012 por serem tratados de modo
desigual no que se refere aos respectivos contributos para atenuar a difícil
situação financeira em que nos encontramos, só posso esperar que, pelo menos,
os senhores juízes sejam coerentes.
Etiquetas:
cidadania,
crise financeira,
Debater Portugal,
Diagnóstico,
economia; política,
FMI,
reforma do Estado,
Relatório,
Tribunal Constitucional
domingo, 2 de dezembro de 2012
Reforma do Estado
Fui desafiada a apresentar ideias para melhorar a eficiência
dos serviços prestados pelo Estado, bem como a fazer uma listagem de serviços
que este presta através de empresas que detém e em que os mesmos não
justifiquem que tenham que ser prestados por empresas públicas. Numa primeira
avaliação vieram-me tantas à mente que me pareceu que, se todas elas fossem
privatizadas de imediato, ficaria resolvida uma parte, embora pequena, dos
problemas financeiros do país. Depois, num outro grau de reflexão, dei-me conta
de que só um louco as compraria, mesmo que fossem vendidas pelo valor simbólico
de um euro, tal o caos financeiro e laboral em que se encontram.
Foi muita irresponsabilidade terem-se mantido as estruturas
do Estado Novo, às quais se acrescentaram as loucuras de sucessivos governos,
que culminaram nesta “coisa” que parece não ter ponta por onde se lhe pegue, de
modo a que, paulatinamente, se conseguisse transformá-lo em algo simples,
transparente, eficiente e sem os custos brutais da sua manutenção para os
contribuintes. E o que não é feito em devido tempo, movido pela vontade, com
ponderação e bom senso, mais cedo ou mais tarde tem de ser feito, mas por
necessidade, como é o caso presente.
Propositadamente não referi a reforma do Estado social, mas
a reforma do Estado como um todo, pois é esta que vai ser debatida antes do próximo
Verão, e também porque não conheço nenhum partido ou organização cívica que
defenda a extinção da função social do Estado, como, muitas vezes, se quer fazer
crer. Aliás, creio que essa função é de todas a mais nobre e cuja importância
se torna ainda mais evidente em tempos difíceis, e em que os custos para o
contribuinte estão sujeitos a menos polémica por parte da sociedade, pela sua
universalidade, não se devendo perder a sua orientação de base e que deverá ser
sempre a dos mais elementares direitos humanos.
Posto isto, volto à reflexão, que está a tornar-se numa
tremenda dor de cabeça.
Etiquetas:
crise financeira,
Debater Portugal,
défices excessivos,
Direitos Humanos,
economia; política,
Estado de Direito,
reforma do Estado
sábado, 3 de novembro de 2012
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Rilke - Cartas a um jovem poeta (8.ª)
Quero falar consigo um pouco mais, caro Senhor Kappus, ainda
que praticamente não tenha nada a dizer que o possa ajudar, que lhe possa ser
útil. Viveu muitas e grandes tristezas que passaram. E que elas passassem,
diz-me, também o magoou e deixou amargurado. Mas peço-lhe que reflicta: estas
grandes tristezas não terão antes passado por si, por dentro de si? Não terão
dado nova forma a muitas coisas em si, não terão mudado um qualquer aspecto do
seu ser? Perigosas e daninhas são apenas aquelas tristezas que exibimos diante
dos outros para que pareçam maiores do que são; como doenças levianamente
tratadas apenas nos seus sintomas, entram em remissão por um breve lapso de
tempo para depois regressarem tanto mais terrivelmente; e acumulam-se no
interior e são vida… são vida não vivida, desdenhada, perdida, e quase nos
matam. Se pudéssemos ver mais longe do que o nosso conhecimento alcança e
olhássemos para além das ameias dos nossos pressentimentos, talvez
suportássemos então as nossas tristezas com mais confiança do que as nossas
alegrias. Pois as tristezas são momentos em que qualquer coisa nova e
desconhecida entra dentro de nós; as nossas emoções emudecem, perturbadas e
tímidas, tudo em nós se recolhe, instaura-se o silêncio, e o novo, que ninguém
conhece, desloca-se para o seu centro e cala-se.
Penso que quase todas as nossas tristezas são momentos de
tensão, e se sentimos que nos tolhem é apenas porque já não ouvimos a vida das
nossas emoções que se tornaram estranhas. Porque estamos a sós com a estranheza
que entrou dentro de nós; porque por um momento tudo o que nos é conhecido e
familiar desapareceu; porque estamos em plena transição e não podemos parar. É
por isso que também a tristeza passa: o que é novo em nós, o que nos foi
acrescentado, entrou no coração, na sua câmara mais interior, mas também não
está nele – está já no sangue. E não chegamos a saber o que era. Facilmente nos
levariam a crer que nada acontecera, e no entanto mudámos, como muda uma casa
quando entra um hóspede. Não sabemos dizer quem entrou, talvez nunca venhamos a
saber, mas vários sinais indicam que foi o futuro que assim entrou, para se
metamorfosear dentro de nós muito antes de acontecer. E por esta razão é tão
importante estarmos sós e atentos quando nos sentimos tristes: porque o momento
aparentemente inerte e sem eventos em que o nosso futuro entra em nós está
muito mais perto da vida do que qualquer outro momento ruidoso e acidental em
que ele acontece como se viesse de fora. Quanto mais silenciosos, pacientes e
abertos formos enquanto pessoas tristes, tão mais profundo e límpido será o
novo que entre em nós, tanto melhor o saberemos receber, tanto mais será ele o nosso destino, e quando um dia mais
tarde ele “acontecer” (ou seja, quando sair de nós para se mostrar aos outros),
tanto maior será a afinidade e proximidade íntima que nos unirá ao novo. É
necessário – e aos poucos será esse o rumo da nossa evolução – que nunca nos
deparemos com nada que nos seja estranho, mas apenas com o que desde há muito
nos pertence. Vários conceitos de movimento foram já reformulados, e do mesmo
modo reconheceremos gradualmente que o que chamamos destino parte dos homens,
não entra neles vindo de fora. Se muitos não reconheceram o que tinha origem
neles, foi apenas porque não absorveram o seu destino enquanto o viviam nem o
fizeram seu; era um destino para eles tão estranho que, no seu susto
desnorteado, pensaram que só podia ter entrado neles agora e juravam que nunca
tinham encontrado nada de semelhante dentro de si. Assim como por muito tempo
nos enganámos acerca do movimento do Sol, também ainda nos enganamos sobre o
movimento do que está por vir. O futuro é um eixo fixo, caro Senhor Kappus, mas
nós deslocamo-nos no espaço infinito.
Como não havia de ser difícil?
Etiquetas:
angústia,
Cartas a um jovem poeta,
Cultura,
Leituras,
Literatura,
livros,
perplexidades,
Rainer Maria Rilke,
sofrimento,
Solidão,
tristeza
domingo, 30 de setembro de 2012
A minha TSU
Há
muitos, muitos anos que me questionei sobre a razão por que as empresas e os
empresários em nome individual tinham que pagar a Taxa Social Única (TSU) por
cada colaborador que admitiam, numa percentagem muito superior à que cabia a
cada colaborador, para a Segurança Social do próprio colaborador, já que apenas
estes usufruíam dos direitos que tal desconto implicava – subsídios de
desemprego, por doença, maternidade, reformas, etc., uma vez que, e nos casos
dos empresários em nome individual com pequenos comércios ou indústrias, o que
eu constatava é que, além de trabalharem 12 a 16 horas por dia, não só não
tinham nenhum daqueles direitos como, muitos deles, passavam uma vida de
trabalho sem saberem o que era gozar férias. Assim, e no meu raciocínio, seria
mais justo que o empresário não tivesse esse encargo, que não lhe diz respeito,
pois já lhe sobram as taxas, as licenças, os impostos, os seguros e todas as
despesas de funcionamento, e que o/os colaborador/es auferisse/em ordenados
melhores, consoante o seu mérito, fazendo com a sua capacidade de poupança o
que muito bem lhes aprouvesse no que respeita a seguros ou em aplicações que
lhes permitissem melhorar o valor da reforma.
Comparando
esta minha teoria sobre a TSU com a que o governo queria implementar (subir a
percentagem de desconto para os trabalhadores e descê-la para as empresas e
empresários em nome individual) não só não têm nada a ver uma com a outra, como
teria um efeito contrário ao que eu achava justo e que era o alívio total dessa
responsabilidade por parte das empresas e empresários, para que pudessem pagar
melhores ordenados, e não a quebra dos valores líquidos dos mesmos que se iria
verificar se a medida do governo fosse implementada.
Claro
que a minha teoria só faz sentido na minha cabeça e para um tempo em que a
economia funcionava minimamente, há umas décadas atrás, em que ainda
conseguíamos enxergar taxas de crescimento de 2% ao ano, ou coisa que o valha,
porque, na última década, nem isso, pois foi um tempo de instalação e de
crescimento do chamado “monstro”. E como a dívida pública não é mais do que o
somatório dos défices, e dado o volume que a mesma atingiu, e que, mesmo assim,
representa apenas um terço do valor da dívida externa do país, já que dois
terços desse valor é dívida dos privados, o que quer dizer que temos uma dívida
externa monumental, não é tempo para teorias, minhas ou alheias, mas para o
pragmatismo sensato de todos nós, mesmo que um qualquer António Borges nos
chame de ignorantes.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Wallace Stevens - The place of solitaires
Let the place of the solitaires
Be a place of perpetual undulation.
Be a place of perpetual undulation.
Whether it be in mid-sea
On the dark, green water-wheel,
Or on the beaches,
There must be no cessation
Of motion, or of the noise of motion,
The renewal of noise
And manifold continuation;
And, most, of the motion of thought
And its restless iteration,
In the place of the solitaires,
Which is to be a place of perpetual undulation.
Wallace Stevens (1879 -1955)
pintura
de © Justyna Kopania
sábado, 15 de setembro de 2012
A troika é que devia lixar-se para nós
Se bem compreendo o clamor deste 15 de Setembro, subordinado ao mote “Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!”, o que se pretende, então, é que as nossas vidas permaneçam hipotecadas, que vivamos muito felizes num mundo de fantasia, com políticos que ajudem à festa continuando a endividar o país para que nada falte a essa felicidade que parece realizar-se apenas no consumo e na posse de bens. E ai de quem discordar! Sujeita-se a uma saraivada de epítetos e, até, de inimigo da liberdade, como se uma pessoa, uma família ou um país sobreendividados se pudessem considerar livres.
Nas centenas de anos de História do nosso país, nunca este teve contas equilibradas, pelo que seria a primeira vez que, em democracia, e sem impérios, poderíamos ter a oportunidade de atingir esse objectivo ao mesmo tempo que se procedia a reformas estruturais do Estado. Mas se preferimos continuar a ser aquele povo que tem a fama de não se saber governar e de nem se deixar governar, talvez merecêssemos que fosse a troika a lixar-se para nós e não o inverso. E talvez por se saber que isso não vai acontecer, basta ver a paciência que têm tido com os gregos, continuamos a fazer o que melhor sabemos fazer, a brincar com o fogo, quais crianças travessas.
Dada a minha independência partidária, e embora defensora acérrima de eleições e referendos, (como já escrevi aqui num outro texto, infelizmente fazem-se muito poucos entre nós) gostaria de ver António José Seguro, não eleito, mas obrigado a governar o país para que todos pudessemos ver as maravilhosas soluções que o partido socialista agora parece ter para sairmos do buraco de forma menos dolorosa.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
domingo, 26 de agosto de 2012
Karl Popper e um universo mediático de qualidade
A filosofia política de Karl Popper foi, regra geral, utilizada de duas maneiras: por um lado, mais “social-democrata”, apoiada na sua “teoria proteccionista do Estado” e na sua concepção prudencial da reforma social; por outro lado, mais claramente “liberal”, apelando, pelo contrário, ao seu elogio das liberdades e contrapoderes, mas também aos seus temores perante a extensão indefinida das funções do Estado.
E a tomada de consciência dos perigos que a televisão representa só podia incitar a acentuar ainda mais essa intuição mediadora. Se uma sociedade democrática tem necessidade de liberdade para neutralizar o poder devorador do Estado, também necessita da arma regulamentar para reduzir as más utilizações da liberdade. Popper sempre achou que a economia de mercado era companheira mais ou menos insubmissa da democracia política. Porém, não aceita que ela generalize inconsideradamente as suas lógicas a todos os registos da vida social. Sobretudo quando, em nome da eficácia e da rendibilidade, submete as cadeias de televisão aos ditames cegos de concorrência, abrindo assim o caminho aos programas mais nefastos e mais deseducativos. Entre a hipótese obsoleta de um monopólio de Estado da radiotelevisão e o panorama actual da privatização e da concorrência selvagem, talvez haja lugar para uma solução intermédia: a criação de uma ordem corporativa que emita licenças e possa, em qualquer momento, retirá-las. Nem todo o poder ao Estado, nem todo o poder ao mercado.
Todo o pensamento de Popper se articula em torno de uma ética da responsabilidade. As melhores instituições, os procedimentos mais subtis, não servirão para nada se os seus habitantes e utilizadores renunciarem efectivamente ao seu dever de cidadania. Uma sociedade aberta é uma sociedade que não procura destituir os seus membros de responsabilidade pessoal, mas que, pelo contrário, cria condições para que eles possam exercê-la serena e activamente.
Esta ética da responsabilidade destina-se, em primeiro lugar, às gerações oriundas da revolução democrática contemporânea. Karl Popper sempre pensou que pertencia a uma linhagem intelectual e social que soubera tirar partido das devastações provocadas pelas barbáries totalitárias e que, nessa condição, detinha uma responsabilidade especial para com a geração seguinte. Em consequência, não é por acaso que a sua crítica sem concessões ao universo mediático visa essencialmente os programas destinados às crianças. Com efeito, é às populações adultas que dirigem a sociedade e enunciam as leis que cabe justamente “assumir as responsabilidades”, e não abrigarem-se cobardemente por detrás dos “imperativos do mercado”, dos “veredictos dos índices de audiência” ou dos “gostos dos públicos” para fugirem a elas.
Mas esta ética da responsabilidade destina-se, sobretudo, ao conjunto das pessoas que participam directa ou indirectamente na produção dos programas de televisão. Com efeito, é notável que a ordem desejada por Popper com base no modelo da ordem dos médicos ou dos advogados esteja habilitada a emitir licenças de teledifusão e a fixar, desse modo, para cada categoria, obrigações e tarefas precisas e personalizadas. Trata-se mais uma vez de estabelecer uma cadeia de interdependências e de reciprocidades, que é característica do funcionamento de uma sociedade aberta bem compreendida. A saber: restituir a cada elo da cadeia mediática o sentido de honra e de responsabilidade, manter no seio do pessoal um estado permanente de efervescência intelectual e de consciência crítica, estabelecer uma espécie de estrutura panóptica no interior da qual as demissões e cobardias de uns possam, em qualquer momento, ser neutralizadas pelos escrúpulos e temeridades dos outros, evitando, assim, que uma sociedade com a aparência democrática choque no seu seio com um novo princípio de domesticação. Como nenhuma ordem está, por natureza, protegida contra os excessos corporativistas, talvez seja conveniente associar à sua reflexão e à sua acção colectivos de cidadãos, que se empenhariam em estimular os múltiplos actores da cadeia mediática.
Karl Popper queixava-se de ninguém apresentar propostas para contrapor à dele, no sentido de melhorar a programação televisiva, particularmente quem devia atribuir licenças e controlar a qualidade dos programas. Assim, continuam a ser os governos, em nome do Estado, a fazê-lo, com os resultados conhecidos.
Bibliografia:
Televisão: um perigo para a democracia – Karl Popper: “Uma lei para a televisão”; John Condry: “Ladra do tempo, criada infiel” (ambos os textos no mesmo volume), Gradiva, 1995
domingo, 19 de agosto de 2012
domingo, 29 de julho de 2012
A monja e o capitalismo não ético
Li com muito interesse a crónica de ontem de Anselmo Borges, publicada no DN, onde expõe algum do pensamento de Teresa Forcades sobre algumas facetas do capitalismo não ético e as consequências que o mesmo acarreta para a vida da maioria dos cidadãos, bem como a sua recusa em aceitar que não há alternativas ao mesmo. Pela sua pertinência, deixo aqui o texto na íntegra:
«Nasceu em Barcelona em 1966. É doutorada em Medicina e em Teologia. Muito conhecida pelas suas posições feministas e pelas críticas às multinacionais farmacêuticas, Teresa Forcades é uma monja beneditina do Mosteiro de Sant Benet de Monserrat.
Conheci-a em Julho de 2011, em Santander, num Congresso de Teologia e Ética, e a impressão que me ficou foi a de uma mulher séria e agradável, descontraidamente inteligente e interventiva.
Foi recentemente convidada para a conferência inaugural de um encontro de empresários, talvez o mais importante da Catalunha, com a presença de umas seiscentas pessoas.
Ela é absolutamente favorável ao empreendedorismo. Quereria que isso fosse uma possibilidade para todos, pois isso significa realizar possibilidades e ter iniciativas próprias. Mas põe em causa o empresariado baseado numa relação contratual num quadro capitalista sem ética. Por três motivos.
É uma mentira o mercado que se diz livre. De facto, ao longo da história, o mercado nunca foi livre. "Foi sempre regulado a favor de certos interesses: da realeza, interesses proteccionistas, da classe dominante, do parente dos governantes de turno." Mercado livre é "uma hipocrisia, uma falácia".
Depois, a lógica do capitalismo, no quadro do mercado global, quer "o máximo lucro". Ora, é aberrante, do ponto de vista antropológico e humano, pensar que a melhor maneira de incentivar as pessoas, a sua criatividade, a actividade económica e, em última análise, o crescimento, seja o lucro máximo. Satisfeitas as necessidades básicas, "o que me estimula não é o dinheiro", mas a curiosidade intelectual, o desafio de descobrir potencialidades e encontrar quem ajude a realizá-las, o apreço dos colegas, a valorização do trabalho que faço, ver que o trabalho das pessoas transforma de modo positivo as suas vidas. Porque não criar uma sociedade fundada no que verdadeiramente nos dá gosto e nos realiza? E o direito à alimentação, à educação, à saúde, à reforma tem de estar acima do mercado e do lucro.
Portanto, o capitalismo não lhe parece ético. E assume a crítica marxista da mais-valia, dando um exemplo: no mosteiro, temos uma pequena empresa de cerâmica e há uma pessoa de fora que lá trabalha; se lhe pagarmos um euro e ganharmos mil, o capitalismo dirá: que bem! "Mas isto é indigno, pois vai contra a dignidade do trabalho." Há diferenças aberrantes: num contrato, "talvez esteja bem que eu ganhe um e tu ganhes quatro ou até dez, mas mil não pode ser de modo nenhum".
Etiquetas:
alienação mental,
Anselmo Borges,
capitalismo,
cidadania,
dignidade,
Direitos Humanos,
DN,
economia,
ética,
ideias políticas,
Jean Ziegler,
Justiça,
ONU,
Teresa Forcades
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Para bom entendedor...
«O homem, animal multiplamente mentiroso, artificial e impenetrável, inquietante para os outros animais, menos pela força do que pela manha e esperteza, inventou a boa consciência para gozar, pelo menos uma vez, a sua alma como uma coisa simples; e toda a moral é uma longa e audaciosa falsificação, graças à qual se torna possível um gozo perante o espectáculo da alma. Consideradas sob este aspecto, há talvez mais coisas do que se julga em geral que cabem na ideia de "arte".»
F. Nietzsche
in Para além do bem e do mal
quinta-feira, 12 de julho de 2012
sábado, 23 de junho de 2012
Conferência Rio +20
Tendo chegado ao fim a Conferência promovida pelas Nações Unidas, sobre Desenvolvimento Sustentável, que se realizou no Rio de Janeiro, Brasil – a Rio +20, e cujos resultados foram tão decepcionantes como os das que se efectuaram antes desta, particularmente por falta de vontade política para alterar a situação, deixo a declaração final da WWF (World Wide Fund for Nature) de 22 de Junho de 2012, onde, pelo menos, se constata a vontade de não baixar os braços, à semelhança de muitas outras ONG e de cidadãos empenhados por esse mundo fora:
«Com as negociações a chegarem ao fim, o director geral da WWF, Jim Leape, emitiu hoje a seguinte declaração final àcerca da Conferência Rio +20:
Esta foi uma conferência sobre a vida: sobre as gerações futuras; sobre as florestas, oceanos, rios e lagos de que todos nós dependemos para a nossa comida, água e energia. Foi uma conferência para abordar o desafio premente da construção de um futuro que nos pode sustentar.
Infelizmente, os líderes mundiais que se reuniram aqui perderam de vista esse objectivo urgente.
Com muito poucos países dispostos a pressionar para a acção, a presidente brasileira, Dilma Rousseff, escolheu conduzir um processo sem conteúdo sério – em detrimento do planeta.
O resultado é uma oportunidade desperdiçada – um acordo que não encaminha o mundo em direcção ao desenvolvimento sustentável.
A urgência de agir, no entanto, não mudou. E a boa notícia é que o desenvolvimento sustentável é uma planta que tem raízes, que irão crescer independentemente de liderança política fraca.
Ainda assim estão a surgir lideranças activas em comunidades, cidades, governos e empresas que estão a colocar o objectivo de proteger o nosso ambiente, reduzir a pobreza, e de nos mover em direcção a um planeta mais sustentável em lugar prioritário.
O que precisamos é de acções em todos os lugares, de pessoas individuais, vilas, cidades, países, pequenas e grandes empresas e organizações da sociedade civil e movimentos. Nós precisamos que todos assumam a responsabilidade que os líderes mundiais não conseguiram assumir na Conferência do Rio.
Esta foi uma conferência sobre a vida: sobre as gerações futuras; sobre as florestas, oceanos, rios e lagos de que todos nós dependemos para a nossa comida, água e energia. Foi uma conferência para abordar o desafio premente da construção de um futuro que nos pode sustentar.
Infelizmente, os líderes mundiais que se reuniram aqui perderam de vista esse objectivo urgente.
Com muito poucos países dispostos a pressionar para a acção, a presidente brasileira, Dilma Rousseff, escolheu conduzir um processo sem conteúdo sério – em detrimento do planeta.
O resultado é uma oportunidade desperdiçada – um acordo que não encaminha o mundo em direcção ao desenvolvimento sustentável.
A urgência de agir, no entanto, não mudou. E a boa notícia é que o desenvolvimento sustentável é uma planta que tem raízes, que irão crescer independentemente de liderança política fraca.
Ainda assim estão a surgir lideranças activas em comunidades, cidades, governos e empresas que estão a colocar o objectivo de proteger o nosso ambiente, reduzir a pobreza, e de nos mover em direcção a um planeta mais sustentável em lugar prioritário.
O que precisamos é de acções em todos os lugares, de pessoas individuais, vilas, cidades, países, pequenas e grandes empresas e organizações da sociedade civil e movimentos. Nós precisamos que todos assumam a responsabilidade que os líderes mundiais não conseguiram assumir na Conferência do Rio.
Etiquetas:
Ambiente sustentável,
cidadania,
Conferências,
Divulgação,
Educação Ambiental,
ONU,
Por um futuro sustentável,
Rio +20,
Transição para uma Economia e Cultura Pós-Carbono,
WWF
Subscrever:
Mensagens (Atom)