sábado, 2 de janeiro de 2010

Natália Correia - "Língua mater dolorosa" (que dedico ao acordo ortográfico)

Língua mater dolorosa


Tu que foste do Lácio a flor do pinho

dos trovadores a leda e bem-talhada

de oito séculos a cal o pão e o vinho

de Luiz Vaz a chama joalhada.

Tu o casulo o vaso o ventre o ninho

e que sôbolos rios pendurada

foste a harpa lunar do peregrino

tu que depois de ti não há mais nada,

eis-te bobo da corja coribântica:

a canalha apedreja-te a semântica

e os teus versos feridos vão de maca.

Já na glote és cascalho és malho és míngua,

de brisa barco e bronze foste a língua;

língua serás ainda … mas de vaca.


de Poesia Completa, D. Quixote, 1999

10 comentários:

A.C.Valera disse...

"Alinguagem é a casa do ser. Nesta habitação do ser mora o homem. Os pensadores e os poetas são os guardas desta habitação"
(Martin Heidegger)

Francisco Clamote disse...

Usando a mesma língua, mas sem a originalidade, a destreza e beleza da escrita de Natália Correia, aqui ficam os meus votos de Feliz Ano Novo.

vbm disse...

E a nossa escrita
cada vez mais
se diferenciará

do inglês,
do francês,
do latim,

para mais se assemelhar
a emissões de voz
sem consoantes,

assim como

o cantonês,
o mandarim,
o inglês-americano;

e mais se acentuará
a divisão de classes sociais,
por passar a ser impossível

aprender a pronúncia
supostamente correcta
das classes superiores

(no nosso caso,
o português de Coimbra;
pelo menos,é a única estação
ferroviária em que se percebe
o que dizem aos microfones!)

:(

Maria Josefa Paias disse...

António Valera, vamos então a Heidegger com Heidegger, assim:
«O carácter misterioso pertence à estância da origem da linguagem. Ora isso implica o seguinte: a língua só pode ter começado a partir do prepotente e do inquietante, na partida do homem para o ser. Neste pôr a caminho, a língua, na medida em que nela o ser se torna palavra, foi poesia. A língua é a poesia original, na qual um povo diz o ser. Inversamente, a grande poesia, por meio da qual um povo entra na história, é o que começa a dar forma à língua desse povo. Os Gregos, com Homero, criaram e conheceram esta poesia. A língua estava presente ao seu ser-Aí como partida no ser, como uma moldagem do ente, que revela o ente.»
Um abraço e obrigada.

Maria Josefa Paias disse...

Francisco, muito obrigada.
Natália só houve uma (e que falta me fazia outra igual agora!), e o que podemos fazer é respeitar a língua escrita e falada, pelo menos em sua memória.
Um excelente 2010 para si também.
Abraço.

Maria Josefa Paias disse...

vbm (Vasco), nem sabe quanto lhe agradeço o seu comentário. É que chego a pensar que tenho algum problema auditivo porque não entendo, por vezes, o que as pessoas dizem! E como Coimbra fica longe, não pude ter essa experiência do bem falar português :)
Muito obrigada e um bom ano para si.
Abraço.

T.Mike (Miguel Gomes Coelho) disse...

Maria Josefa,
Saudosa Natália Correia.
Nunca falamos sobre isso, mas fica a saber que sou absolutamente contra o acordo ortográfico.Não aceito a descaracterização , mais uma vez, da nossa língua.
Para ser sincero até lhe posso dizer que é a unica coisa, tirando a parte cultural de excelência, em que estou perfeitamente de acordo com o Vasco Graça Moura.
Mais um abraço.

Maria Josefa Paias disse...

Muito obrigada, Miguel.
Escrevi sobre o acordo ortográfico há já muito tempo, no Direito e Avesso, sob o título "Esta língua que nos divide" e fui das primeiras seis mil a assinar a petição contra o mesmo.
Um abraço.

Benjamina disse...

Olá Josefa
Lindo poema da Natália à nossa "língua". A língua é feita pelo povo, não é constante, é mutável. Mas o acordo ortográfico impõe-nos a língua de outros, não será?
Um abraço

Maria Josefa Paias disse...

Benjamina, mesmo sem nos apoiarmos em estudos muito sofisticados sobre a evolução das línguas, e aqui estamos a falar apenas das línguas vivas (não do Grego antigo, nem do Latim), é evidente que o Português escrito por Fernando Pessoa obedecia a uma norma diferente da do Português que escrevemos agora e no qual podemos ler o que Pessoa nos deixou (o que não nos impede de ler os seus manuscritos e compararmos essa evolução), e que é apenas um exemplo de que as línguas não são estáticas mas vivas. Mas uma coisa é a língua portuguesa continuar a sua evolução natural como o tem feito ao longo de séculos, outra coisa é "decretar" uma alteração que, para mim, não faz sentido.
Beijinhos.