sábado, 1 de novembro de 2008

Os governos e os pareceres

Os que criticam os governos por pedirem tantos pareceres a entidades ou pessoas exteriores ao seu círculo e ao funcionalismo público, poderão encontrar algumas respostas para esse procedimento neste excerto de "O Príncipe" de Nicolau Maquiavel, que era um profundo conhecedor da natureza humana.
Cap. XXIII - Como se deve fugir dos lisonjeadores (Quomodo adulatores sint fugiendi)
"Não desejo esquecer um grande erro respeitante a uma matéria de importância, do qual os príncipes raramente se defendem, se não são muito sábios ou sensatos ao fazer uma escolha. Trata-se dos aduladores, dos quais as cortes estão cheias. Os homens comprazem-se tanto consigo próprios e têm ideias tão lisonjeiras a seu respeito que dificilmente escapam a esta praga - da qual, se dela pretendem defender-se, pode surgir outro perigo: o de serem desprezados. Não há outro meio de fugir às adulações senão dando a entender às pessoas que não te desagradarão se disserem a verdade; mas, se todos te puderem dizer a verdade, desaparece a deferência. Por isso, o príncipe prudente deve recorrer a um terceiro meio e escolher no seu Estado pessoas sensatas que serão as únicas às quais concederá a liberdade de lhe dizerem a verdade, mas somente a verdade acerca do que lhes perguntar e não de outras coisas. Deverá, no entanto, interrogá-las acerca de tudo, ouvir as suas opiniões e depois decidir baseado nelas, mas por si e à sua maneira. No modo como aceitar esse conselho e como proceder em relação a cada uma dessas pessoas, em particular, deve demonstrar-lhes que quanto mais livremente lhe falarem mais agradáveis lhe serão. Além dessas pessoas, não deverá ouvir outras e convirá que cumpra sempre o que resolver e seja íntegro nas suas resoluções. Quem procede de outro modo, ou se deixa perder pelos aduladores, ou muda frequentemente de opinião, conforme a diversidade daqueles a quem dá ouvidos; daí resulta tornar-se pouco estimado.
Portanto, um príncipe deve sempre aconselhar-se, mas quando quer e não quando os outros querem, e deve tirar a todos a vontade de lhe darem conselhos que não pede.
Deve também, por seu lado, pedi-los sem parcimónia e escutar pacientemente todas as verdades, e se descobrir que alguém, por respeito, não lhas diz, mostrar-se zangado."
(...)

1 comentário:

Edgar V. Novo disse...

Tenho, sem dúvidas, de voltar a ler O Príncipe, cuja leitura apressada ainda no 1.º ou 2.º ano da faculdade não me permitiu reconhecer esta certeira e bela passagem que aqui reproduz.

Cumprimentos