segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Verdade e erro

«Belo é o risco e grande a esperança» Sócrates, o filósofo
«Quem pensa em grande, deve errar em grande» Heidegger
«O que este teorema nos diz é que existem evidentemente mais hipóteses de nos enganarmos quando nos arriscamos do que quando nos limitamos a seguir o curso dos acontecimentos, quando o nosso pensamento é um pensamento que assume riscos do que quando se trata de um pensamento que os evita ou os esconjura, quando jogamos uma alta parada do que quando não jogamos, quando nos expomos do que quando nos resguardamos, quando apostamos numa esperança do que quando nos contentamos em fazer render as aquisições de uma experiência e de um saber - numa palavra, temos mais hipóteses de nos enganarmos quando pensamos, do que quando não pensamos».
«É verdade que existem verdades vivas e verdades mortas e que a melhor maneira de fazer morrer a verdade é reescrever o texto para nele apagar a parte de indagação. É verdade que a ideia de uma verdade sem erro não faz mais sentido que a de um corpo sem anticorpos, de um mesmo sem o outro, de uma troca sem alteridade ou de uma luz sem a sua sombra. (...) A verdade nunca é prova ou indicação dela própria; a sua amplitude mede-se na quantidade de erros por que teve de passar, combater, ultrapassar e, no final de tudo, pelos erros que teve de conservar; uma verdade que tenha economizado não só esta travessia, como esta conservação, uma verdade que não se tenha transformado em museu dos seus próprios erros e negatividades, numa palavra, uma verdade que só brilhasse pela sua positividade de verdade soberana e advinda, essa verdade seria uma verdade vulnerável, sem defesas, no sentido em que se fala de um corpo que perdeu as suas imunidades e que seria, portanto, infectado ao menor ataque - seria uma verdade frágil, enfezada, literalmente débil e, sobretudo, desarmada face ao contra-ataque, sempre possível, do erro.»
Transcrevi estes excertos do livro O Século de Sartre, de Bernard-Henri Lévy, pp 517, 526, 529/30, porque andava a precisar de esclarecimento sobre a verdade na "política da verdade" a que se refere Manuela Ferreira Leite, bem como sobre a verdade que saltita de boca em boca de outros políticos. Vou continuar a minha indagação.

7 comentários:

analima disse...

Já percebi que vou ter que ler esta obra. As referências que já lhe fez e estes excertos parecem-me razão suficiente.
Apesar de saber que não vamos encontrar "a verdade", substantivo que só existe no plural, é a sua procura que vai fazendo sentido.

Ana Paula disse...

É uma indagação que também ando a tentar fazer, embora ainda não tenha feito esta excelente leitura que nos propõe.

Parece-me que nunca é exagero insistir nesse aspecto do correr riscos: só não arrisca, quem nunca se expõe. Na verdade, esta é uma questão tão delicada, quanto de suma importância, num debate cujo princípio normativo seja, acima de tudo, a honestidade intelectual. Actualmente, extremamente pertinente.

P.S. - Procurei livros do autor na minha livraria, mas nada. Encomendei, e aguardo para breve a possibilidade de fazer a leitura.

Maria Josefa Paias disse...

Analima, obrigada pelo seu comentário. Só uma chamada de atenção, não confundir "verdades" com "opiniões".
Um abraço.

Maria Josefa Paias disse...

Ana Paula, não sei se o livro que encomendou é O Século de Sartre. Se for, verá que sendo Sartre a figura central, o Bernard (já o trato assim por ser pouco mais velho que eu) consegue fazer um enquadramento de toda uma época e de todas as influências, filosóficas, literárias e políticas, que Sartre teve antes e depois de "O Ser e o Nada", como Nietzsche, Husserl, Heidegger, Gide, etc., e onde encontramos na realidade 2 Sartre e, posteriormente, um outro Sartre, pouco antes de morrer, já praticamente cego, mais próximo de Levinas, tudo isto escrito daquele modo de que eu tanto gosto, muito próximo da oralidade.
Sartre bem podia ter criado heterónimos, como o nosso Pessoa, à medida que o seu pensamento ía evoluindo noutras direcções.
Se quiser ver como o Bernard escreve textos não-filosóficos, como é o caso do livro Vertigem Americana que está na barra lateral do Direito e Avesso, pode ler 2 textos que publiquei, um sobre os Amish e outro sobre o gueto dourado dos velhos ricos americanos, que encontrará facilmente em Autores e Temas: Amish; gueto dourado...
Aliás, à semelhança de Sartre, Bernard-Henri Lévy é também multifacetado.
Um abraço e boas leituras.

analima disse...

Tem toda a razão!

Ana Paula disse...

Muito obrigada pelas excelentes e úteis indicações. É um prazer partilhá-las consigo!

Vou também procurar o "Vertigem Americana". Encomendei "O Século de Sartre".
Procurarei ler igualmente os textos não-filosóficos do autor. Estou cheia de curiosidade :)

Um abraço agradecido.

Maria Josefa Paias disse...

Ana Paula, e o Vertigem Americana é um livro que adquiri nas promoções de que lhe falei, 366 páginas, € 7,50. Que pena não haver outro!
Um abraço.