domingo, 31 de outubro de 2010

Política e iPod - Crónica de Martim Avillez Figueiredo

Sócrates e Passos Coelho descobriram que mentir compensa. Descubra porquê num regresso à Índia e numa visita ao algoritmo do iPod shuffle.

Pedro Passos Coelho está a aprender com José Sócrates. Está a desaprender – percebeu que o rigor não é a melhor das estratégias políticas. É pena: Sócrates precisa de quem combata os seus golpes baixos com frases claras e ideias simples. Mas os dois estão a brincar com os números. Em 1943, o secretário de Estado para a Índia, um inglês de pouco cabelo e óculos largos, disse numa declaração pública que as mortes provocadas pela fome na região de Bengala deveriam ser umas mil por semana. Mas acrescentou que não tinha a certeza. Dois dias depois, o governador de Bengala, essa região que incluía Calcutá e que os portugueses conheceram tão bem, contrariou: "Eu colocaria a fasquia das mortes nas duas mil por semana". Colocaria... A crise política que estalou logo a seguir terminou com a criação de uma Comissão de Inquérito à Fome que, dois anos depois, em Dezembro de 1945, chegou à seguinte conclusão: as mortes provocadas pela fome, todas as semanas, não são mil nem duas mil. São 26 mil mortes. Esta facilidade com que os ingleses manipularam números e a ausência de rigor com que falaram sobre eles lembram Sócrates e Passos Coelho. Estes, tal como os governantes britânicos, falam de números dramáticos como se estivessem a conversar num café. Pior: trocam-nos entre si como se trocam posts no Facebook, onde aquilo que se diz agora não tem de ser igual ao que se diz uma hora depois. Mas há limites. A economia portuguesa tem poucas saídas nos próximos três anos, mas pelo menos numa todos os economistas e especialistas convergem – é preciso dar competitividade aos produtos portugueses. Como não se espera que, em três anos, alguém invente e comercialize o próximo grito mundial, sobra a solução de reduzir custos nas empresas. Pode ser via salários, claro – mas é mais legítimo defender que o corte seja fiscal. Nem Sócrates nem Passos Coelho aceitam esta ideia. E o que custa não é ver repetida a teimosia e a mentira de Sócrates: essa tem sido a história do último ano. O que os portugueses não encaixam com facilidade é perceber que a sua alternativa já comete proezas semelhantes. O PSD disse há duas semanas (através de Miguel Relvas) que ponderava aceitar a subida do IVA, mas pedia: reduza-se a taxa social única. Esta semana, quando falou ao país, o PSD já tinha ideias diferentes e muito menos comprometedoras – eram ideias, na verdade, que qualquer um poderia ter defendido. Em linguagem de café, chama-se baralhar e voltar a dar. Steve Jobs, esse génio que criou o iPod, foi obrigado pouco tempo depois de lançar o iPod shuffle a explicar de que forma, afinal, aquele aparelho misturava as músicas. Para as pessoas sobrava a dúvida: se era mesmo ao acaso, porque se repetiam músicas? Jobs veio explicar, anunciando que alterara o algoritmo: "Fizemo-lo menos aleatório para parecer mais aleatório". A política portuguesa está igual. Mistura as mesmas músicas, baralha tudo mas, no final, fala do tema como se de uma ciência exacta se tratasse. Pior: fala do tema com o mesmo nível de certeza do secretário de Estado para a Índia, mas esquecendo de dizer o que um cavalheiro não esquece: "Não tenho a certeza". Uma certeza Portugal pode ter: José Sócrates não tem condições para governar Portugal, mesmo que mude o algoritmo. Passos Coelho, até aqui, tem dado sinais errados – mas ainda está a tempo de mudar o disco. 

 

Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Outubro de 2010 e ontem aqui.

7 comentários:

poemar-te disse...

Eu não creio que alguém "mude o disco"; postagem oportuníssimo de uma crónica com bastante interessante. Tudo de bom.

Eduardo Miguel Pereira disse...

Pois eu vou um bocadinho mais longe que o Martim, uma vez que não tenho a menor crença de que Passos Coelho inverta o rumo comportamental que teve até aqui.
Aliás, acredito mesmo que vencencendo as próximas eleições como parece ser óbvio, dada a forma alternada como os Portugueses têm atribuido o poder a PS e PSD, Passos Coelho irá plasmar-se completamente a José Sócrates, na falta de rigor e no despostismo militante, e fará ainda pior aos Portugueses, uma vez que ele, Passos Coelho, nem terá a necessidade de disfarçar comportamentos e opções como Sócrates é obrigado a fazer por força do doutrina Socialista a que o aparelho partidário o obriga.
Passos Coelho, nem precisará disso, envredará pelo Liberalismo selvagem que ele defende, destruindo, como já demonstrou querer destruir (episódio do "atendível"), quaisquer resquícios dum Estado Social que ainda exista.

Manuela Freitas disse...

Olá Josefa,
Gostei de ler esta crónica, a flexibilização dos números, o baralhar e voltar a dar e tudo o resto!
Sócrates está completamente descredibilizado, Passos Coelho em pouco tempo idem aspas, mas a situação está mesmo de perder a cabeça, que coerência há em deixar passar o OE e ao mesmo tempo dizer tão mal do mesmo!
Tem que passar? Não sei se tem que passar!.. Se temos que passar por dificuldades, que se encare isso a sério, mas com algum objectivo!..
Bj,
Manuela

vbm disse...

Gostava de ver aplicada a estratégia seguinte: - O próximo Presidente, progressista, proporia aos partidos políticos firmarem um pacto de governação que se propusesse diminuir a dívida externa portuguesa; aumentar o IVA sobre os produtos de maior componente importada; estimular a produção interna de substituição de importações; adoptar outras medidas óbvias que a crítica tem evidenciado serem absolutas aberrações sociais.

No caso desse entendimento não ser alcançado, dissolver o Parlamento e convocar eleições. Se a nova composição da Assembleia não aderisse ao acordo de governo inicialmente proposto pelo Presidente, ouvido o Conselho de Estado, ameaçar dissolver novamente a Assembleia.

Se mesmo assim os partidos não se entendessem para o programa de saneamento necessário, defenderia que o novo Presidente, recolhido o apoio das Forças Armadas e dos principais países europeus, promovesse um golpe de Estado, dissolvendo as instituições democráticas e decretando uma ditadura para governar o país com vista, e até conseguir, a independência financeira dos seus credores.

Maria Josefa Paias disse...

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Obrigada José, Eduardo, Manuela e Vasco pelos vossos comentários e considerações.

Li mais uma crónica de Adriano Moreira, publicada no DN a 2 de Novembro, sob o título "A refundação", e que só não publiquei aqui por ter publicado outra há pouco tempo e, assim, não faria mais nada, uma vez que as acho quase sempre muito interessantes como base para reflexão.

Esta encontra-se neste endereço: http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1700678&seccao=Adriano%20Moreira&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco , e que, comparando com a estratégia proposta pelo Vasco, é de uma candura total.

Já agora acrescento que, em Portugal, que a toda a hora se fala em liberalismo e neo-liberalismo, estranho que não haja um Partido Liberal-Democrático (como no Reino Unido e que está agora no governo com o Partido Conservador/Tory). Vendo bem, o PS e o PSD, são ambos da social-democracia, pelo que as diferenças entre eles resumem-se a pormenores. O CDS-PP é da democracia-cristã, pelo que não é de estranhar que nas políticas sociais que se referem aos mais carenciados, esteja de acordo, como se viu neste debate do Orçamento, com o BE, o PCP e o PEV, uma vez que, neste aspecto, o CDS se orienta pela doutrina social da Igreja Católica.

Em suma: quando ouço dizer que o PSD é um Partido de direita, seja lá isso o que for, só posso rir-me, porque em Portugal ou não há Partidos de "direita", ou, se os há, não parecem.

Abraços e boa noite :)

Benjamina disse...

Olá Josefa
Tem um "selo" para o "Restolhando lá no meu Armazém de Pedacinhos, porque este blogue se enquadra no espírito do prémio. Um abraço :)

Maria Josefa Paias disse...

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Obrigada ao Armazém de Pedacinhos pelo prémio atribuído a este blogue.

Abraço.